Todas as pessoas especiais que conheci guardavam ao menos um vidro cheio de cápsulas do infinito. Todas, porque não vislumbro a palavra “especial” em alguém sem flashes de infinitos plenos. Não me refiro à felicidade, que todos a conhecemos, mesmo que seja pelos outros. A felicidade dá as caras, sai pruma volta no jardim, retorna alguns anos depois e fica nesse entra e sai até nos acostumarmos e esquecermos de sua presença. As cápsulas de infinito não, têm outro objetivo. Elas formam nossas gotas de euforia. Permanecem.
Quando afirmo “cápsulas” não quero associá-las a nenhum fármaco ou substância química, que minhas cápsulas compõem-se da mais inocente esperança e fé. O infinito contido nelas tampouco constitui-se de devaneios porque formou-se de instantes, reais, que nos marcaram. Aquele arremesso final que ganhou o jogo, o reconhecimento público, o beijo inesperado, a surpresa do êxtase no instante desacreditado, a vitória profissional, a palpitação antes da certeza do amor correspondido, a música compartilhada com uma só pessoa vida afora. As pequenas coisas guardadas, o momento em que nós - e apenas nós – captamos a certeza de eterno e o aprisionamos numa cápsula de lembrança a ser tomada depois.
As cápsulas do infinito entorpecem a percepção, abrindo-nos à bondade que repousa nos outros. Não é um entorpecimento imaginário, entretanto. Aspiramos o hálito que vem da exata combinação espiritual que emana das pessoas que nos cercam, .e as cápsulas vão se depositando no frasco. Ao abri-lo sem razão aparente (e a falta de motivos aparentes constitui-se na mais justa razão pra abrir o frasco), as cápsulas descem pela garganta da nossa ingenuidade, e logo fazem efeito. O corpo, num transe, dá vazão à estupefação, à maravilha de saber que, em algum momento passado, fizemos a diferença. Vislumbramos exatamente o ponto onde as expectativas cruzaram a linha imaginária para a outra metade, real, e tornaram-se, num misto de sorte e destino, instantes plenos da eternidade que mais tarde conheceríamos como estado de graça.
Quando finalmente tomamos alguma cápsula de infinito em nossa imaginação as conversas tornam-se proibidas, não há espaço para palavras. Sentamo-nos, sozinhos, em algum lugar tranqüilo, enquanto as cápsulas trilham seu caminho pelo entusiasmo. O curioso é que não há como definir a sensação, tudo torna-se impalpável nessa hora: os objetos ao redor, as opiniões alheias, a verdade do mundo. De repente nossa vida simples e ordinária passa a uma perspectiva tão singela que sequer nos reconhecemos na imagem que se forma, e apenas ser uma pessoa humana, com todos os defeitos e virtudes do pacote, adquire uma importância absurda. As boas lembranças das cápsulas nos trazem de volta a certeza de sermos únicos e especiais, e azar de quem não compreende isso.
As cápsulas do infinito não podem ser usada pra tudo, ou perderiam o efeito. Acostumar-se à felicidade é um vício traiçoeiro abafado pela rotina, e as cápsulas não a têm como objetivo, mas sim nos transformar em pessoas melhores. Seu infinito se resume a pequenos e suficientes instantes, suficientes pra que o corpo se entregue a espasmos transfigurados num sorriso de canto de boca. E se alguém nos visse nesse instante, diria presenciar o sorriso mais bonito do mundo.
Há dias em que precisamos redimir a condição humana das conveniências, discussões, arrependimentos, limitações, incertezas e decepções menores do cotidiano. Mesmo nos instantes mais pessimistas sempre nos resta uma cápsula guardada. A derradeira até aquele momento, a que nos aponta que possuímos, em verdade, a essência da vida. Compreendemos o que o mundo exaure de nós, restituído por alguns mágicos instantes plenos ao longo da existência. E lamentamos não controlar a mente de tal forma a pegar uma cápsula de infinito sempre que necessário, principalmente naquelas madrugadas que formaram outras cápsulas, as tristes e doloridas. Mas essas devem repousar na árida imensidão de nosso deserto interno, que a realidade por vezes já é cruel o suficiente pra precisar de um impulso sofredor.