Mudei um pouco o estilo dos textos nos últimos meses, já que ando escrevendo alguns contos que, depois do teste da gaveta, talvez sejam reunidos pruma publicação no final do ano que vem. Não postei nenhum antes por achar que não faz muito o estilo deste blog, mas já que não atualizava há um bom tempo, correrei o risco. Como li muito Virginia Woolf esse mês ( poesia e prosa), compartilho um pequeno conto que escrevi após ler um dos textos dela. Acho que a música do Tindersticks se encaixa no espírito do conto. Um ótimo início de dezembro a todos e Carpe Diem!
Os gansos surgiram num final de quinta, já brincando à beira do lago, mergulhando pela água turva mas despoluída. Passaram acima da fumaça das fábricas de reciclagem próximas, pelo engarrafamento movido a motociclistas ensandecidos, e agora brincavam, num aparente regozijo, à visão de quem se apercebesse.
Derramando uma cumplicidade pueril, espirravam golfadas de água e esperança nos mais novos, que, por instinto, batiam as asas sem a preocupação de serem vigiados. Uma senhora de anáguas pretas, que os observava, toma nas mãos o relógio que adorna seu escapulário e preocupa-se ao notar que passava das cinco, para em seguida lembrar-se de que não havia nada mais interessante a fazer que continuar observando os gansos. “– Onde está a mudança?”, balbuciou enquanto o vento desmanchava seus cabelos.
Mais à esquerda passa a garota que acabara de ganhar a câmera digital, enchendo a memória da máquina com instantâneos das aves. Eternizava cada detalhe diferente à sua percepção, encantada com os novos habitantes de seu mundo. Mais tarde seus pais lamentariam a falta de diversidade das fotos, como se desconhecessem que a beleza residia justamente no inesperado, no desconhecido. A garota não perguntou sobre a mudança.
Sentados num banco de tronco de madeira via-se o casal adolescente, enamorados há algum tempo porém sem o frescor do início de relacionamento. A visão dos gansos trouxe-lhes, por um instante, a vontade de chegar mais perto e observar os detalhes daquela dança aquática. Certamente o fariam alguns anos atrás, mas retesaram-se em sua preguiça enfadonha e continuaram a conversa pequena dos últimos meses. . “– Onde está a mudança?”, pensaram, ambos, enquanto voltavam os olhos aos gansos novamente.
Durante oito dias os gansos permaneceram no lago, sem que os atormentassem. Ninguém suspeitou que partiriam, nem com a brisa gelada que marcou a chegada do fim-de-semana seguinte. Sem aviso o ganso mais velho bateu asas freneticamente até desgarrar-se da água e ganhar altura, os demais o acompanharam, um a um, no vôo de retorno ao Pacífico.A mesma garota das fotos a tudo observava, e lamentou não ter próxima a câmera pra registrar aquele momento. A imagem das aves em seu início de vôo, depois já nas alturas, passando pelas árvores naquele céu borrado de azul, a acompanharia até a terceira pessoa que despedaçasse seu coração. “- E a mudança?”, continuaram a perguntar nos meses seguintes os sonâmbulos de alma que moravam próximos ao lago. A garota, não. Ela sabia.