Agosto 18, 2008
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Semana passada recebi uma ligação da minha irmã perguntando se já tinha visto “Sex & the city”. Respondi que não, porque gostava muito do seriado mas todas as críticas foram muito ruins em relação ao filme. Ela então me pediu que visse, porque lembrou-se de mim em uma cena (o diálogo segue abaixo) por causa do otimismo que o filme passa àquelas pessoas que teimam, como eu, em acreditar nos relacionamentos mesmo com as experiências ruins do passado. Como não se nega nada a uma mulher grávida de 8 meses, vi, e, como ela previu, gostei muito. Acho até que o filme renderá mais um ou dois textos. No de hoje, que escrevi em meio a mais uma madrugada insone do final de semana, voltei a um assunto que já abordei alguns anos atrás: o prazer de nos relacionarmos com pessoas que, além de amar, admiramos. Um ótimo início de semana a todos, e Carpe Diem!


[i]- Precisamos conversar. Estou aqui, sentado, tentando escrever os votos de casamento e... isso é algo que você realmente quer fazer?
- Qual o problema?
- É que... tudo está tão bom do jeito que está, não quero arruinar nada.
- Você não vai.
- Eu já fui casado duas vezes.
- É o seguinte: é comigo que você se casará amanhã. Comigo, e com ninguém mais.
- É.
- E eu vou me casar com você. Somos só eu e você. E quer ouvir a grande notícia disso?
- Sim.
- Nós já fizemos tudo que podíamos pra estragar.
(Mr Big sorri)
- É um sorriso que estou ouvindo?
- Sim.
- Me parece que você tem um bloqueio mental sobre escrever votos de casamento.
- Sim.
- E eu descobri, como escritora profissional que sou, que é melhor que você pare de pensar tanto nisso, vá se deitar e, pela manhã...
- Eu saberei o que fazer.
- Exatamente.
- E se não funcionar, escreva só isso: “Eu te amarei.” Simples, direto ao ponto e eu juro que não cobrarei direitos autorais. Então você já vai dormir, não?
- Sim. Boa noite.
- Te vejo amanhã. E, olhe, somos só você e eu.
(conversa ao telefone entre Mr. Big e Carrie, na véspera do casamento, em Sex & the city)[/i]


O orgulho

“To love you baby is my pride”. (trecho da letra de “Smile”, Simply Red)


Acredito que o primeiro golpe fatal do amor não é o fim da paixão, mas o fim da admiração. A paixão quando arrefece pode transformar-se em amor sereno e duradouro, mas a admiração que se perde dificilmente retorna. Apaixonados, colocamos num pedestal banalidades que certamente se esfacelarão depois, mas quando a paixão correspondida vem junto com a admiração, as tintas ganham um ar maroto, otimista, alegre. Quando admiramos, reconhecemos na outra face aquilo que também carregamos ou que gostaríamos de ter, fragmentos de nossas aspirações materializam-se no outro corpo. A admiração é terna porque faz com que nos aproximemos de nossos próprios sonhos na outra pessoa. E como é bom ter sentimentos altruístas assim.
É ótimo amar pessoas que admiramos e que os outros também reconhecem nelas as qualidades que vemos, porque nos dá a gostosa sensação de vitória interior, de ter escolhido uma pessoa que se destaca em meio à futilidade que nos cerca, aos amores “meia-boca” que tivemos ao longo da vida. Não me refiro à admiração que vem de talento artístico ou literário, mas também a outras intrínsecas, bem mais simples, como sinceridade ou empatia. Ontem reencontrei, por acaso, uma antiga namorada e lembrei-me de como a admirava pela habilidade que ela tinha em fazer e cativar amigos. Nunca conheci uma única pessoa que não gostasse dela, que não a admirasse pela beleza que carregava no caráter. Durante os quase três anos de namoro não foram poucas as pessoas que se aproximaram de mim pra uma frase de elogio sobre ela, ou de repreensão quando terminei o relacionamento pelas famosas “razões que a própria razão desconhece”. A admiração, entretanto, permanece.
Talvez a batalha mais inglória num relacionamento seja manter intacta, no cotidiano, essa admiração pela pessoa ao nosso lado. A rotina banaliza a admiração que temos pelos outros, passamos a achar que as qualidades que víamos muitas vezes transformam-se em defeitos, e o caminho está aberto pra que o amor agonize. O tapa na cara vem depois, na vivência dos relacionamentos posteriores, quando enfim percebemos que as qualidades que em algum momento deixamos de valorizar naquela pessoa de antes não eram tão comuns assim, mas aí o estrago já está feito. As pessoas comuns voltam a passear em nosso coração, mas não as queremos mais porque sentimos o gosto daquelas outras, e a criança emburrada que carregamos vem à tona gritando que não, não aceitaremos mais pessoas que não despertem em nós sentimentos de admiração. Por orgulho, ao menos.
Admirar alguém que se ama é como colocar girassóis a mais em quadros do Van Gogh. Podemos tentar colocar as mesmas flores depois em outros quadros de outras paixões, mas sabemos que nada acrescentarão a pinturas baratas. Mas ao nos relacionarmos com essas poucas pessoas dignas de admiração, eternizamos na alma uma pintura que só antevíamos nas galerias de relacionamentos que não nos pertenciam. E então descobrimos que podemos, também, ter nossas próprias obras de arte. Como o pequeno príncipe com sua raposa, tornamo-nos responsáveis pela pintura que cativamos. E vemos então que não há nada mais bonito que aquele quadro em destaque, aquele pequeno quadro, aquele colorido e magnífico quadro, aquele frágil quadro, aquele nosso quadro.
Por Rick as 3:40 AM






Agosto 3, 2008
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(ao som de “Mystery”, by Live)

O texto de hoje veio em decorrência da perda de um colega de trabalho, anteontem, numa execução sem sentido. Iria escrever um texto sobre orgulho que já estava quase pronto, mas quis retornar a um assunto que já abordei antes no blog - a importância de dizermos o que sentimos àqueles que fazem diferença em nossa vida. Uma ótima semana a todos, e, acima de tudo, Carpe Diem!


As mesquinharias da chuva

Que me desculpem os religiosos pela presunção, mas eu não acredito que exista um Paraíso ou algo parecido após a morte. Em verdade, não acredito que exista um Deus. Ou talvez até acredite, mas minha definição passa bem longe da de qualquer religião. Decidi que não vale a pena conjecturar sobre a existência de algo maior enquanto aquilo de que sei, a vida lá fora, passa atropelando e reformulando coisas que tínhamos como garantidas. Há ocasiões, entretanto, em que as coincidências teimam em afirmar que algo no mínimo estranho brinca com nosso destino. E isso assusta. Ontem perdi um amigo e colega de trabalho por mais de 15 anos, num assassinato cruel. No dia em que morreu ele esteve comigo em minha empresa, não nos víamos desde maio. Disse que tinha sonhado comigo e com meu pai, e havia passado só pra saber se estava tudo bem conosco e nos dar um abraço. E foi o que fez, ficou lá menos de dez minutos. Na conversa com meu pai, que presenciei, agradeceu a ele por algumas oportunidades que teve no início da carreira, e foi embora sorrindo. Doze horas depois fomos informados do assassinato. Hoje, no funeral, o irmão dele me confidenciou que essa situação não foi a única, que ele sentia de alguma forma o que iria acontecer e estava, inconscientemente, despedindo-se das pessoas do seu convívio. Que disse, nos dias que antecederam sua morte, palavras carinhosas à filha, aos funcionários, à ex-mulher e algumas outras pessoas. Ainda acredito que tudo foi realmente uma coincidência, mas invejo o Raul porque ele teve a oportunidade de dizer às pessoas com quem convivia palavras que todas elas já sabiam, mas que adquirirão agora uma nova amplitude diante do acontecido, e tenho certeza que reconfortarão a todos que as ouviram.
Leo Buscaglia certa vez escreveu que, se a humanidade descobrisse que teria apenas mais 5 minutos de vida, todas as linhas telefônicas ficariam congestionadas de pessoas ligando umas às outras pra dizer, entre lágrimas, que as amavam. E ele então perguntava: “Porque não fazer isso agora?” Perdemos tanto tempo com as mesquinharias do dia-a-dia que acabamos num estado de letargia em relação ao que o futuro nos reserva. Tomamos coisas como garantidas, situações como de fácil solução, ouvimos pessoas cujo exemplo não as credencia a qualquer conselho, e pior, chegamos à presunção de achar que sabemos o que se passa na mente daqueles que nos cercam, como se as pessoas fossem assim, simples e previsíveis. Não são.
Li hoje na Vida Simples um texto sobre qual seria a melhor representação de felicidade, e a definição da autora é igualzinha à que sempre carreguei: crianças brincando. Ingenuidade, transparência, irresponsabilidade sadia, espontaneidade. Sinto que nesse sentido regredimos com o passar dos anos, e amadurecer no final das contas talvez seja retornar à criança que ainda brinca, escondida, dentro de nós. Além disso, minha representação de felicidade consiste em um aspecto particular do mundo das crianças que me encanta: dizer aos outros o que realmente sentimos, na hora em que sentimos. No momento em que as coisas precisam ser ditas, porque depois elas não terão o mesmo impacto. Se essa postura acrescenta alguma grandeza ao caráter não sei, mas faz com que o sono venha mais reparador.
Amanhã todos retornaremos às mesquinharias que nos atiram diariamente. Os problemas no trabalho aos quais damos uma importância maior que realmente possuem, a discussão desnecessária com o amigo, a briga em família, algum plano frustrado de última hora. Gosto de acreditar que essas mesquinharias sempre vêm com a chuva. Quer gostemos delas ou não, é lei da natureza que existam. Sempre estarão lá, sorrateiramente como o sereno ou atiradas com força numa tempestade de verão. Só que a mesma chuva que traz, leva-as embora. E, se em meio a todas elas, afogarmos o orgulho e a vergonha procurando aqueles que fazem diferença em nossa vida pra um “eu te amo” , “não conseguiria sem você”, ou “desculpe-me pelo que fiz”, lembraremos que essas bobagens não deveriam possuir o tamanho que damos a elas, nem passam do que realmente são – mesquinharias. E então o coração amanhecerá renovado a cada vez que nos encararmos no espelho e vermos nele, refletido, o sorriso da criança despertando em nossa alma, curando cicatrizes com gargalhadas sinceras.
Por Rick as 10:25 PM







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