Semana passada o Telecine incluiu na programação um dos meus filmes preferidos, “Um beijo a mais” (The last kiss). Já revi algumas vezes, acho que gostei tanto porque trata dos anseios e problemas duma geração a que pertenço, a dos “30”, além de possuir uma ótima trilha e alguns diálogos muito bons, como esse, que motivou o texto de hoje. Voltei com a tradução de algumas músicas que gosto, escolhi a de hoje pela letra e melodia, mais uma grande composição do Mick Hucknall.
Essa semana que findou hoje me foi especial por alguns motivos. Recebi um e-mail e um recado no orkut daqueles que se guardam pra sempre, de duas pessoas que me acompanham no blog há algum tempo e por quem sempre tive muito carinho. Além disso, hoje tive a alegria de testemunhar, como padrinho, o casamento de mais um amigo de infância, e momentos assim, em que presenciamos a felicidade das pessoas que gostamos, ficam gravados pra sempre na lembrança. A moça que me acompanhou na cerimônia me disse que invejava essa amizade de mais de 20 anos que minha turma daqui tem, e tive que concordar com ela. Talvez seja esse o motivo do meu desapego às coisas que não têm tanta importância. Como alguém pode não ser otimista em relação a tudo se tem uma família e uma turma de amigos assim? Realmente não há como. Carpe Diem e um ótimo início de agosto a todos!
Nós, entre o eterno e o que se perde
“-Pare de falar de amor, todos os idiotas do mundo dizem que amam alguém. Isso não significa nada. O que você sente só interessa a você. É o que você faz às pessoas que diz amar, o que realmente importa. É a única coisa que importa.” (Stephen, em “The last Kiss”)
Um amigo promotor contou-me certa vez sobre a experiência profissional que mais lhe causou tristeza, uma das poucas que não esqueceu. Um casal prestes a completar 50 anos juntos iniciou uma batalha litigiosa pelo divórcio, e ele espantou-se com a atitude de decepção e mágoa de ambos durante uma das audiências, e as palavras de rancor que proferiram. Um pequeno gesto impensado de um deles havia posto abaixo todas as boas lembranças que carregavam ao longo de uma existência praticamente ao lado do outro, e a partir daquele instante ambos pagariam o preço desse gesto.
Às vezes tenho a impressão de que amar assemelha-se a uma visita constante a um restaurante preferido. Apreciamos a maioria das visitas, mas basta um único dia desastroso onde nada funcionou pra que apaguemos da lembrança todas as outras boas refeições anteriores. E ainda maldigamos o lugar aos amigos. Palavras de amor emocionam, declarações inusitadas eternizam momentos, mas de que adiantam se não juntam-se a gestos que as corroborem?
Conheço casais felizes que quase nunca externam o que sentem em palavras. Não necessitam disso, o amor exala por todas as pequenas coisas do dia-a-dia. Gestos pequenos como uma troca cúmplice de olhares, o afago no cabelo, o carinho inesperado, o toque das mãos espalmadas que se entrelaçam à outra, o interesse real em saber acerca do dia do outro. A ternura no olhar, a compreensão dos problemas alheios, o bom-humor nos momentos de conflito, o silêncio nos de destempero, a linguagem corporal que denuncia, tudo que tem mais valia que o melhor poema do Neruda ou Drummond.
Por mais egoísta que pareça, a constatação de que o que sentimos em relação aos outros é problema nosso(não deles) é verdadeira. Ótimo que tenhamos sentimentos amorosos altruístas, sinceros e desinteressados, mas sem gestos, sem atitudes que ratifiquem todo amor expressado, de nada valem. Nada. O destino, cruel, não eterniza ao final qualquer palavra escrita ou proferida, mas os gestos. Basta um, inconseqüente, e as certezas anteriores atiram-se na represa da mudança.
Há um invisível escudo mágico que nos impeça de ultrapassar o limite do aceitável num relacionamento, criando proteção contra gestos que jamais imaginávamos cometer? Não sei, creio que os limites impõem-se naturalmente pelo caráter, bom-senso, pelo próprio amor à outra pessoa. E a certeza do que basta para perdê-la pra sempre. De uma certa forma isso tranqüiliza porque sabemos que jamais cruzaremos alguns desses limites, mas o problema está nos outros. Outros que nos golpeiam com gestos inesperados, onde o que verte desse ataque é o incômodo aroma da derradeira lembrança. E o perfume a brotar depois vem do hálito da primavera, que, num beijo redentor, penetra no coração e sussura: “Acorda e enche novamente teus bolsos com ansiedade e esperança, que logo à frente há um semblante ainda desconhecido indicando que falta pouco a pagar.”
Someday in my life
Mick Hucknall
Here from the top of a mountain
I see you there
In the cool night air
Someday in my life
Fear has no reason to doubt them
They tell me so
Yet they will never know
You are here in my life
Wherever I go now
I'll follow you
And my heart will be true
I have never known someone
To stay right here
Soon you will be right here
Someday in my life
Here from the top of a mountain
I see you there
In the cool night air
Someday in my life
Storms may rage on about them
They hail and snow
Yet they will never know
You are here in my life
Wherever I go now
I'll follow you
And my heart will be true
I have never known someone
To stay right here
Soon you will be right here
Someday in my life
Algum dia em minha vida
Aqui do alto da montanha
Eu te vejo lá
No ar fresco da noite
Algum dia em minha vida
O medo não tem motivos pra duvidar deles
Eles me dizem tanto
Embora eles nunca saberão
Que você está aqui em minha vida
Onde quer que eu vá agora
Eu te seguirei
E meu coração será verdadeiro
Nunca conheci alguém
Pra ficar bem aqui
Logo você estará bem aqui
Algum dia em minha vida
Aqui do alto da montanha
Eu te vejo lá
No ar fresco da noite
Algum dia em minha vida
Tempestades podem encolerizar-se sobre eles
Eles chovem pedras e nevam
Embora eles nunca saberão
Que você está aqui em minha vida
Onde quer que eu vá agora
Eu te seguirei
E meu coração será verdadeiro
Nunca conheci alguém
Pra ficar bem aqui
Logo você estará bem aqui
Algum dia em minha vida
Vi nesse final de semana “August Rush – o som do coração” por indicação da minha amiga Fernanda, que achou que me serviria de inspiração, e acertou em cheio. A Keri Russell nunca esteve tão bonita num filme, essa cena é um exemplo. O filme retrata a música, a paixão que ela nos desperta e a forma com que modifica nossas vidas. Resolvi tratar disso no texto, embora ache que ele ficou confuso em virtude do que o filme me trouxe.
Queria pedir desculpas às pessoas que acessam o blog usando o Firefox. Semana passada recebi a reclamação da Noêmia de que meu blog fica “estranho” no Firefox, alerta que a Carla já me tinha feito também. Aproveitando, fiz uns pequenos ajustes sugeridos pela Carla, como mudar o código pra que os links abram numa outra página, e não a partir desta. É que meu negócio é escrever, não entendo nada disso de configuração e ajustes. Em relação aos comentários, me perguntaram se eu tinha modificado a configuração pra aprovar primeiro antes de publicá-los, mas não fiz isso. O que aconteceu foi que agora eles não aparecem automaticamente, há uma espera duns 5 minutos, isso foi modificado pelo próprio pessoal do blogger. Por causa disso, apaguei os comentários repetidos que apareciam nos posts.
Olhando o contador de visitas, percebi que muita gente acessa o blog através do meu perfil no Orkut, outra grata surpresa. O Orkut me trouxe tantas coisas boas e me levou algumas outras também que às vezes me assusto com a influência que um site de relacionamentos ocasiona em nossas vidas. Uma ótima semana a todos, e Carpe Diem!
De música ,lembranças e palavras não proferidas...
“ De la musique avant toute chose” (“Antes de tudo, a música”) (Verlaine, primeiro verso do poema “Jadis et naguère”)
Transita-se com facilidade pela música. Como se a carregássemos dentro de um bolso imaginário da mente, encontramos música onde quer que a procuremos. Há música em todas as nossas paixões: esportivas, amorosas, profissionais, religiosas, artísticas. A borracha do tênis das crianças raspando na quadra de basquete enquanto brincam, o tamborilar dos dedos esperando a resposta, o trecho da canção que inspira o poema esperado, em tudo ela despeja sua influência.
A música esconde a cumplicidade dos casais, conta histórias, faz com que sonhemos outras, carrega amores reais e platônicos, dando formas aos devaneios. Basta uma melodia antiga e o amor mal-resolvido da adolescência forma-se à nossa frente, sem que ninguém mais perceba, pra evaporar em seguida. Outra nos mostra as pessoas que machucamos, a seguinte as que nos deixamos magoar. O carrossel é interminável, há sempre um pedaço de reminiscência que se fixa às canções que nos acompanham vida afora.
Ouvimos música nas ondas espumando à margem da praia, na arrebentação do mar, no pulsar do próprio coração, no caminhar da outra pessoa, afastando-se, depois de uma discussão. Aparece no intangível da solidão abafada da mágoa, na poça vazia pela pisada raivosa, no espanto, na surpresa; nas gotas caindo, devagar, da torneira mal-fechada das nossas recordações. O som insurge-se e nos modificamos sem saber ao certo em que direção. Mas nos movemos. Música confunde, entorpece, muda sentimentos, ao menos por aqueles eternos minutos aspirados pela alma. Inspira textos megalômanos e outros simplistas rabiscados num caderno de receitas. Deprime de uma maneira em que jamais pensaríamos estar, e arrefece a dor com a mesma velocidade. Muda a duração dos segundos, tornando alguns poucos, eternos. Derruba lágrimas na madrugada, que disfarçamos durante o cotidiano e a rotina diários. Convida a um baile que evitamos participar. Música sussurra aos ouvidos que façamos a ligação que tanto tememos, a escrever a carta proibida, a viajar (na mente ou à rua mais próxima), a desculparmo-nos. A voltar sempre aos mesmos erros que juramos jamais cometer novamente.
Música desnuda o arrependimento, quebra a teimosia, dá um tiro à queima-roupa no amor-próprio. E acerta. Faz com que escrevamos textos desconexos à procura de algo que não temos idéia do que seja, mas que, esperamos, ponha um fim a toda amargura que teima em ziguezaguear em nossos escombros. Ou ao menos derrame, como a melodia da chuva caindo, o conforto de que tomamos as decisões corretas, e mostre que o porvir que se anuncia é menos sombrio, confuso e triste que a ansiedade amanhecida de hoje.
Texto de hoje veio em decorrência de uma pergunta e uma passagem do filme “ The air I breathe” (que em português ganhou o título horroroso de “Ligados pelo crime”). É um filme com pretensões de ser um Crash e, evidentemente, não atinge o objetivo, mas nem por isso deixa de ser um bom filme. O filme veio se misturar à minha vida pessoal de dois casamentos desfeitos (dos quais me arrependo e não guardo nenhuma boa lembrança, infelizmente) e a pergunta que a maioria dos amigos me fez nos últimos meses: “Você ainda pensa em um dia se casar novamente mesmo depois dessas duas grandes decepções?” O texto vem pra responder isso. Norman Mailer, que cito no texto, está numa ótima retrospectiva de uma hora com trechos de diversas entrevistas ao Charlie Rose (seu amigo de longa data), e exibida a partir dessa semana no ManagemenTV. Vale a pena assistir. Durante a semana vou arrumar os links quebrados dos sites parceiros, retribuir a gentileza das pessoas que colocaram o link pro meu blog no delas, assim como visitar os blogs das pessoas que comentam aqui. De vez em quando aparecem alguns comentários, como os do post anterior, que fazem tudo valer a pena. Vocês não imaginam como é gratificante saber que algumas pessoas se identificam com o que você escreve. Não há dinheiro no mundo que se compare a essa sensação. Um ótimo início de julho a todos e Carpe Diem!
O propósito
“Todo mundo tem um propósito. Às vezes, a pessoa passa a vida toda sem saber qual é o seu propósito. Eu não. Aos dez anos, já sabia. Meu propósito era amar a pessoa certa por completo e por inteiro.” (Kevin Bacon em ”The air I breathe” )
Norman Mailer, um dos polêmicos autores que admiro e considerado pela crítica entre os 5 maiores escritores americanos de todos os tempos, morreu no final do ano passado, aos 84 anos. Casou-se 6 vezes. Até aí nenhuma novidade, nosso poetinha Vinícius chegou aos 9 casamentos e pelo menos outros 4 “não-oficiais”. O curioso em Norman Mailer foi o tempo de duração de seus casamentos: dois deles acabaram em menos de um ano, outros 3 duraram relativamente mais, até o derradeiro, que durou 33 anos, com Norris Chuck, a quem ele considerava sua alma-gêmea e o acompanhou até seu leito de morte. Mailer passou por toda espécie de decepções durante seus casamentos, chegando a internar-se num hospício logo após o fim do primeiro. Nunca desistiu de procurar a mulher que o completasse até achar em Norris essa figura, e foi durante esse último casamento que produziu, em sua própria opinião, seus melhores livros. Lembrei-me de Mailer porque sua história reúne muito desse inconcebível universo de relacionamentos: entrega, decepção, persistência, esperança, felicidade, um propósito de vida.
Dar um sentido à vida transformou-se no Graal da humanidade desde o início dos tempos. A religião usa muito o argumento pra justificar a crença no Deus particular que cada uma apregoa. Há que existir um Deus, afinal de que maneira explicaríamos o sentido de tudo, defendem. Cada um de nós tem um propósito que fica acima dos demais, tentando aprisionar os sonhos. Um pequeno vinhedo na França, uma medalha olímpica, uma empresa que faça a diferença, amigos leais. O meu, assim como o de muita gente, sempre foi encontrar a mulher a quem pudesse me entregar sem desconfianças e que me devolvesse não um amor do mesmo tamanho - que isso não se mede – mas a tranqüilidade advinda da certeza de que fiz a escolha certa e derradeira.
Os conflitos daqueles que também escolhem uma pessoa que as façam querer envelhecer ao lado delas são constantes. Romantizamos em demasia o objeto da paixão quando assumimos que a outra pessoa está impregnada do mesmo propósito que nós, e o erro das expectativas alia-se ao da presunção. A paixão sonhadora de um espanta-se com o coração ateu do outro, e o espaço que se forma no cotidiano é preenchido com elementos estranhos a ambos. Não temos o direito de assumir que os anseios de vida da outra pessoa estejam em sintonia com os nossos, e, mesmo que assim fosse, essa sintonia de nada garante a reciprocidade no amor àqueles que acreditam que nada de interessante existe em realizar os sonhos se não há alguém com quem possam compartilhá-los.
O propósito, sempre, tem que ser maior que o seu objeto. Há momentos em que o tomamos como utopia, inatingível, esquecendo-nos que o problema não está no que definimos, mas em quem escolhemos pra alcançá-lo. Há centenas de casos como os de Norman Mailer rodeando os exemplos, pessoas que tiveram na experiência o motivo pra desistir mas transformaram-na em otimismo, até que, bem devagar, o propósito ganhou cores e mostrou-se presente.
Beecher escreveu que “assim como as ondas, nenhuma emoção consegue manter sua forma particular por muito tempo”, e nessa metamorfose revela-se a maldade do destino, porque nunca sabemos o que a convivência trará: a cumplicidade graciosa e a felicidade de canto de boca de ambos ou as amarras invisíveis que dilaceram e mostram o pior que temos nos subterrâneos. Aqueles que escolhem o amor como propósito sabem dos riscos maiores, mas repousam a cabeça com tranqüilidade a cada noite porque dormem na certeza de que, mesmo que venha no fim da vida, por poucos instantes, a espera terá valido a pena. E ninguém tem o direito de roubar-lhes esses sonhos, porque é deles o sono dos justos, ubíquo no espaço, formando o inadiável exercício que alguns chamam de tolice, e eles, de viver.