Confesso que nunca pensei que o blog chegaria, um dia, às 100 mil visitas.Como me pediram pra escrever um post especial pela ocasião, acabei tratando de uma de minhas paixões, o mar. Ficou intimista, é verdade, mas enfim, achei apropriado. O texto em prosa poética que acompanha é o do Neruda que mencionei no post anterior. Ganhei um presente semana passada – o novo template pro blog, e, embora ela tenha me pedido pra não mencionar, é impossível. Obrigado mesmo, Carla, por tudo que tem feito por mim ao longo dos últimos anos. Carpe Diem!
O mar e o tempo (o paradoxo do crescimento)
”Dizem que perguntaram a Whistler quanto tempo lhe fora necessário para pintar um de seus noturnos, e ele respondeu: “A vida toda.” (Jorge Luis Borges, Discussão)
" La mer, la mer, toujours recommence!"
O mar, o mar, recomeçando sempre! (Paul Valéry, trecho do poema “Le Cimetière Marin”
Tentei, boa parte da vida, entender o fascínio que o mar exerce em mim. Toda aquela impassibilidade logo transformada em tormenta, a intempérie de divagações que ele desperta: o dia e a noite, o instante e o eterno, vida e morte, desapego, saudosismo, esperança. Não me basta observar o mar, preciso da atmosfera completa: o cheiro, o toque da areia macia, o som das ondas arrebentando e borbulhando, o gosto do sal na boca. Espécie de santuário onde jogo todo sortilégio de afeições, deixando que as ondas tragam aquelas que me interessam no exato momento em que elas se tornam necessárias.
Nunca encontrei refúgio espiritual em igrejas, templos religiosos, construções idílicas ou forjadas à contemplação. O mar, esse sim, sempre foi meu confessionário remissivo e esconderijo de idéias. Como uma religião sem deus, me basta a certeza de que ele estará sempre lá, presente, anônimo. Por vezes tomo emprestada uma concha de alguma praia, como o fiel à procura da imagem santificada que, a milhares de quilômetros, reverbera seu som e sereniza pela certeza da compreensão, de que alguém escuta. Sua presença invisível me acompanha do primeiro beijo à separação mais recente, espécie de paradoxo do crescimento que aconselha a seguir, cometendo os mesmos erros, porque a próxima onda se transfigura completamente diferente da anterior e das demais que agonizaram à praia. Sabe que experiência tem pouca valia quando exposta ao vigor fresco de cada manhã, metáfora aos amores que virão. O mar não me quer crescendo, mas sonhando.
Estou, agora, longe do mar e ao mesmo tempo encharcado de suas minúcias. Desconheço quais os elos que me prendem tanto ao oceano, mas tenho ciência que sob influência dele vou traçando o roteiro da minha própria liberdade. Embora tenha a desculpa de certa experiência pra me consolar, a epígrafe que fica permeia-se de tons otimistas. Porque muitos se esquecem de que ele é bem mais que água salgada, que é feito de descompassos. Descompassos de lamúrios, descompassos de incertezas, descompassos de pedidos de pessoas tão dissimuladas que esquecem que são apenas pessoas, falíveis e otimistas, e, - exatamente por isso -, de uma complexa beleza infinita.
O barco dos adeuses (Pablo Neruda)
Navegantes invisíveis me levando da eternidade através de estranhas atmosferas, sulcando mares desconhecidos. O espaço profundo cobiçou minhas viagens que jamais acabam. Minha quilha rompeu a massa móvel de icebergs relumbrantes que intentavam cobrir as rotas com seus corpos poeirentos. Depois naveguei por mares de bruma que estendiam as suas névoas em meio a outros astros mais claros que a Terra. Depois por mares brancos, por mares rubros que tingiram o meu casco com as suas cores e suas brumas. Às vezes cruzamos a atmosfera pura, uma atmosfera densa, luminosa, que empapou o meu velame e o tornou fulgente como o Sol. Longo tempo nos detínhamos em países dominados pela água e pelo vento. E um dia - sempre inesperado -, meus navegantes invisíveis levantavam minhas âncoras e o vento inflava minhas velas fulgurantes. E era outra vez o infinito sem caminhos, as atmosferas astrais abertas sobre as planícies imensamente solitárias.
Cheguei à terra, ancoraram-me num mar, o mais verde sob um céu azul que eu não conhecia. Acostumadas ao beijo verde das vagas, minhas âncoras descansam na areia dourada do fundo do mar, brincando com a flora retorcida das suas profundezas, sustentando as alvas sereias que nos dias longos vêm nelas cavalgar. Meus altos e retos mastros são amigos do Sol, da Lua e do ar amoroso que os prova. Pássaros que nunca viram detêm-se neles depois de um vôo de flechas, riscam o céu, afastando-se para sempre. Comecei a amar este céu, este mar. Comecei a amar estes homens.
Mas um dia, o mais inesperado, chegarão meus navegantes invisíveis. Levarão minhas âncoras arborescidas nas algas da água profunda,encherão de vento minhas velas fulgurantes...
E será outra vez o infinito sem caminhos, os mares rubros e brancos que se estendem em meio a outros astros eternamente solitários."
Post de hoje trata dos finais de relacionamento. Além do texto, segue a letra, que também trata de separação, da (na minha opinião) melhor música do novo cd da Alanis Morissette. Incrível a capacidade que ela tem de escrever letras assim. Quantos de nós têm a consciência de, ao final, agradecer? Pra quebrar um pouco o clima pessimista, acrescentei um pequeno poema que escrevi ontem. No final da semana volto com outro post e um texto em prosa poética do Neruda que acabei de ler, e só não acrescentei porque o post de hoje já estava pronto. Estou com um problema em fazer upload de fotos, no decorrer da semana tentarei acrescentar algumas pra separar o texto da música e do poema. Uma ótima semana a todos e Carpe Diem!
Pingentes jogados pelo quarto
Muitas vezes sou tomado pelo desejo incontido de encarcerar o sentimento e o comportamento humano em bulas que podem ser confundidas com guias, como se tudo se tornasse fácil assim, remediado por algum manual de conduta barato dum jornal ribeirinho. Como a teimosia vem mais forte que a sensatez, sigo. Conversando ontem com uma amiga sobre relacionamentos que acabam, surgiu a inevitável pergunta: o que deve ficar de cada um deles? A mágoa, o rancor, ou a lembrança dos bons momentos, o agradecimento pelo período de sonho (que todo relacionamento sério tem um, por mais curto que seja). Até pouco tempo atrás eu responderia, sem titubear, que a segunda hipótese era a correta. Deveríamos esquecer todo período conturbado, e levar de cada relacionamento apenas a parte boa, aquela que nos deu vivência e rescaldo aos futuros relacionamentos. A idealização do objeto de adoração, pouco antes da queda do pedestal cotidiano. Não é isso, entretanto.
Vejo cada relacionamento findado como uma série de pingentes jogados pelo quarto de dormir, onde, querendo ou não, temos que retornar a cada noite. Ao final, somos apresentados a centenas deles. Frágeis, de porcelana, impossível pisar sem atingir ao menos um. Eles sempre estiveram lá, mas a presença se delineou com o fim. Cada um carrega um momento específico do relacionamento: o Natal inesquecível a dois, o primeiro beijo, a briga irreconciliável, o dia da separação. Escolhemos quais devemos pegar e quais destruir. Há uma lógica em descartar ou apegar-se a um específico? Evidente que não, muitas vezes tomamos alguns desses pingentes pra carregar meses afora sem saber ao certo o motivo deles estarem conosco. Mas continuam, até serem substituídos por outro que estava mais distante, ou por um terceiro antigo, que trouxe sensações parecidas de relacionamentos distintos. O pingente do coração arrebatado no inicio por vezes dá lugar ao do silêncio injustificado, das palavras não proferidas, da mágoa imperdoável. E formamos nossa experiência, atingida pelo orvalho dos preconceitos que alguns desses pingentes produziram.
O que resta, à hora do sono reparador, não é um coração blindado e cego às pancadas, tampouco um estereotipado com generalizações dessas mesmas pancadas. Sobra a esperança, que – essa sim – nunca nos abandonou. Percebemos que é de esperança o chão que segura nossos pingentes, e então eles já não têm mais tanta importância assim. Sabemos que uma hora a brisa retorna, o coração voltará a bater acelerado na esperança de que - finalmente – a pessoa certa se transfigure, embora não tenhamos a mínima idéia do pacote em que ela virá envolvida. E os antigos pingentes penduram-se ao aparador, lá em cima, esperando o momento certo de despencarem novamente.
Poeminha
Frágil e delicada,
Enfeitaria pra sempre de ti meu cotidiano
Como uma cesta de crisântemos no outono.
E porque cabes inteirinha em meus desejos,
Tomo-te com as mãos em concha perto do coração,
Pra que percebas
A medida correta do medo que carrego.
Madness (Alanis Morissette)
I've been most unwilling
To see this turmoil of mine
The thought of sitting with this
Has me paralyzed
With this prolonged exposure
To near and averted eyes
I think that I've been waiting
Such mileage for empathizing
Now I see the madness in me
Is brought out in the presence of you
Now I know the madness lives on
When you're not in the room
Though I'd love to blame you for all
I'd miss these moments of opportune
You simply brought this madness to light
And I should thank you
Oh, thank you
Much thanks for this bird's eye view
Oh, thank you
For your most generous triggers
It's been all too easy
To cross my arms and roll my eyes
The thought of dropping all arms
Leaves me terrified
And now I see the madness in me
Is brought out in the presence of you
Now I know the madness lives on
When you're not in the room
Though I'd love to blame you for all
I'd miss these moments of opportune
You simply brought this madness to light
And I should thank you
Oh, thank you
Much thanks for this bird's eye view
Oh, thank you
For your most generous triggers
I'd have to give up knowing
And give up being right
You, inadvertent hero
You, angel in disguise
And now I see the madness in me
Is brought out in the presence of you
And now I know the madness lives on
When you're not in the room
And though I'd love to blame you for all
I'd miss these moments of opportune
You simply brought this madness to light
And I should thank you
Oh, thank you
Much thanks for this bird's eye view
Oh, thank you
For your most generous triggers
Loucura
Estive na maior parte negando
Pra enxergar essa minha confusão
A idéia de me sentar com isso
Paralizou-me
Com essa exposição prolongada
De olhos próximos e desviados
Acho que estive esperando
Tamanha milhagem pela empatia
Agora vejo que a loucura em mim
Vem à tona na tua presença
Agora eu sei que a loucura sobrevive
Quando você não está no quarto.
Achei que adoraria te culpar por tudo
Eu sentiria falta desses momentos de conveniência
Você simplesmente trouxe essa loucura à luz
E eu deveria te agradecer.
Oh, obrigado
Muito obrigado por essa vista do olho do pássaro
Oh, obrigado
Pelos teus gatilhos mais generosos
Tem sido tudo muito fácil
Cruzar meus braços e levantar meus olhos
A idéia de soltar meus braços
Me aterroriza
E agora vejo que a loucura em mim
Vem à tona na tua presença
Agora eu sei que a loucura sobrevive
Quando você não está no quarto
Achei que adoraria te culpar por tudo
Eu sentiria falta desses momentos de conveniência
Você simplesmente trouxe essa loucura à luz
E eu deveria te agradecer.
Oh, obrigado
Muito obrigado por essa vista do olho do pássaro
Oh, obrigado
Pelos teus gatilhos mais generosos
Eu teria que desistir de saber
E desistir de estar certo
Você, herói(heroína) inadvertida
Você, anjo disfarçado
E agora vejo que a loucura em mim
Vem à tona na tua presença
Agora eu sei que a loucura sobrevive
Quando você não está no quarto
Achei que adoraria te culpar por tudo
Eu sentiria falta desses momentos de conveniência
Você simplesmente trouxe essa loucura à luz
E eu deveria te agradecer
Mais de um ano sem atualização, a justificativa é única: eu não tinha nada de interessante pra escrever. Só que nesse tempo recebo um recadinho aqui, um e-mail ali, e a coceira volta. O blog, então, dá as caras novamente. Eu gostaria de poder escrever com autoridade que a partir de agora o blog será atualizado ao menos uma vez por semana, mas não tenho esse direito. Na verdade eu não sei. É difícil escrever sobre relacionamentos quando você não se constitui propriamente num exemplo de como mantê-los, sabe? Talvez os textos funcionem mais como exteriorização da aprendizagem de minhas experiências pessoais que, de fato, divagações sobre trechos soltos de filmes e letras de música. O velho espírito mid-30, entretanto, não muda nunca: o otimismo, a vontade de aprender com os erros e o bom-humor. O Carpe Diem não é só a tatuagem, é mote de vida. Daqui a pouco farei uma das coisas que mais gosto: pegar a estrada, sozinho, numa viagem longa. Dessa vez, levando meia dúzia de livros e o note com as idéias jogadas em alguns textos; até sábado organizo ao menos uma pra (re)inaugurar o canto que andava empoeirado. Então, um ótimo fim-de-semana àqueles que ainda lembram do blog, e Carpe Diem!