Segue abaixo um poema, que gosto muito(na verdade, o meu preferido dele) do JG de Araujo Jorge. Achei, acidentalmente, hoje, procurando um outro poema. Gosto desse poema porque ele trata dos mistérios das pessoas que nos cercam. Ele atira a dura realidade que, por mais que pensemos o contrário, nunca realmente conhecemos totalmente a pessoa ao nosso lado. Afinal, quem não carrega um quê de melancolia vida afora? Até sábado atualizo com um texto novo.
Não te gosto em silêncio JG de Araujo Jorge
Não te gosto em silêncio porque te sinto distante.
Entre tua boca e a palavra mora talvez minha angústia
como entre o dia e a noite
vacila a longa dúvida do crepúsculo.
Não te gosto em silêncio, quando há em teus olhos, pousados,
dois estranhos pássaros noturnos,
e teus lábios emudecem como a fonte nos ásperos
e intermináveis invernos.
Não te gosto em silêncio quando te envolves com as coisas
que te cercam, como se fosses uma delas,
quando estás como as águas paradas, cuja beleza
é apenas o reflexo das estrelas.
Por isto te provoco e te atiro perguntas
como pedras quebrando a impassibilidade do lago,
como pancadas no gongo que estremece e vibra
e te traz à tona para mim.
Não te gosto em silêncio, porque parece que atrás de tua voz
ainda se esconde alguém que tu própria não conheces,
alguém embuçado a ameaçar nosso sonho
e que só tuas palavras poderão expulsar.
Não te gosto em silêncio, porque preciso ainda de tua palavra
para te descobrir,
lanterna adiante de meu passo, alvorada desenterrando
na noite emaranhada meu indeciso caminho.
Porque preciso ainda que tua palavra chegue como um vento forte
arrastando nuvens, limpando céus e horizontes,
levando folhas doentes, te descobrindo ao sol...
.
Um dia te gostarei em silêncio. E então me recolherei em teu silêncio,
e procurarei a sombra, como o pássaro na hora da tarde,
e porque o sol estará em nós e nada turvará meu pensamento,
entre tua boca e a palavra haverá apenas o meu beijo.
(ao som de " I'm glad there's you", by Jamie Cullum)
O texto veio em decorrência do post anterior, é a minha visão sobre pessoas substitutas. A música é um clássico do jazz que voltou à tona na voz do Jamie Cullum, um cara que reinventou a maneira de interpretar algumas dessas canções tradicionais. Eu não gostei do resultado de algumas, mas essa é minha preferida. Aproveito pra transcrever mais um trecho de uma das cartas da correspondência entre Zelda e Scott Fitzgerald. Uma ótima semana a todos e carpe diem!
Os substitutos
"Detesto gente que não consegue fazer nada com calma. Quando encontro pessoas que agem como se tudo, qualquer coisa, fosse exatamente do jeito como esperavam e queriam que fosse, me encho de admiração. Elas sempre me fazem sentir que a irresponsável sou eu, e que são elas as que merecem pena. Adoram se imaginar sofrendo, são quase todas hipocondríacas morais e mentais. Se ao menos se dessem conta de que a culpa e a explicação para elas é a necessidade de um elemento perturbador entre os homens, seriam todas mais felizes, e os homens, bem mais infelizes, o que é exatamente do que eles precisam para a melhoria geral das coisas." (Trecho de carta enviada de Zelda para Scott Fitzgerald em abril de 1919, Montgomery,Alabama)
Analisando os relacionamentos ao longo da vida, poucos de nós não encontram um momento onde, mesmo sem saber, tornaram-se substitutos à vida de alguém. Substitutos são aqueles que estão sempre em segundo plano na vida de outras pessoas. Constantemente trocados por outro amor, pelo trabalho, por um hobby qualquer, aceitam a condição de coadjuvantes e formam um atípico clã de relacionamentos mornos. Há vários exemplos ao redor: a amiga que mantém há anos um caso com uma pessoa casada, a vizinha que descarrega na internet a frustração pela desatenção do companheiro, o olhar fatigado daquele parente preso a um relacionamento agonizante porque não consegue vislumbrar alternativas, onde o medo da solidão é maior que a necessidade de mudança. O dilema surge da inevitável pergunta: a aparente falta de pressão compensa a perspectiva de vida das pessoas substitutas?
Os substitutos apóiam-se na teoria das poucas expectativas: desejar menos evita a decepção futura. Afinal, ninguém perde o que nunca teve em mãos. Estóicos, diminuem as expectativas a fim de sofrer menos, restringindo a lista de ambições ao que lhes parece seguro. Acomodam-se num papel coadjuvante em relação às pessoas que lhes cercam e têm, até certo ponto, uma sensação de felicidade que convém. Esquecem que relacionamentos amorosos precisam de testemunhas, não pessoas substitutas, e há um grande abismo entre essas duas definições. As testemunhas acalentam o sentimento de retribuição, a ternura de acompanhar a outra pessoa ao longo do relacionamento, como um confessionário onde ambos depositam suas esperanças, frustrações, vulnerabilidades, a vida em comum. A companhia que revigora e aconselha muitas vezes sem palavras, com gestos anuentes ou a cumplicidade do silêncio. Testemunhas que, em meio à série de problemas que todo relacionamento carrega, mantém intacta a admiração pela pessoa que o outro representa aos olhos dela.
Precisamos ser admirados por algum aspecto de nossa personalidade - mesmo aqueles que consideramos defeituosos -, e aí reside o grande problema das pessoas substitutas. A rua é de mão única. O pouco amor-próprio que carregam dilacera a imagem da alma refletida no espelho da outra pessoa. Enquanto os substitutos admiram, recebem em troca comodismo e apatia, muitas vezes acompanhados de aspectos ainda mais negativos. E pior, sabem que a qualquer momento a ilusão de segurança pode se transfigurar na solidão que tanto evitaram. Tornam-se descartáveis. A armadilha fatal vem na constatação de que, ao substituírem pra outras pessoas suas famílias, amizades ou carências diversas, têm também substituída a própria vida que sonharam como protagonistas, aquela das esperanças sinceras e ingênuas. Que me desculpem aqueles que se sentem seguros nessa condição, mas ninguém nasceu pra ser substituto na vida de outra pessoa. Há tanta diversidade ao redor que assusta a idéia de vivermos atrelados a alguém que não reverbera nossos anseios.
A palavrinha "mudança" adormece nos lábios dos substitutos. Não há varinha mágica que descortine as opções à frente mostrando onde levará cada caminho, é verdade. Sair da condição de substitutos pode levar a lugares perigosos, a abismos colossais ou paisagens magníficas, mas sempre imprevisíveis. Só que os substitutos nem tentam. Eles não apenas deixam de sonhar com novos roteiros; sepultam os próprios caminhos, mantendo os pés na mesma rodovia reta e sem-graça de sempre. Se o segredo da felicidade está mais na convivência que na conquista, fórmula alguma resiste a uma vida substituta. Na busca pelo sorriso interno do coração, os pecados da omissão são os que mais agridem. Falhamos porque perdemos oportunidades, o destino nos rouba outras tantas, mas que os sonhos - ao menos eles -, sobrevivam.
I'm glad there is you
Said i many times, "love is illusion,
a feeling result of confusion
with knowing smile and blasé sigh",
a cynical so and so, am I
I feel so sure, so positive,
so utterly unchangeably certain
though I never was aware of loving you
'til I suddenly realised there was love in you, and oh...
In this world of ordinary people,
extraordinary people,
I'm glad there is you
In this world of overrated pleasures
and underrated treasures,
I'm glad there is you.
I live to love,
I love to live with you beside me
this role, so new
I'll muddle through with you
if you'll guide me through.
In this world where many play at love
and hardly any stay in love,
I'm glad there is you
More than ever, i'm glad there is you
Sou feliz por você existir
Eu disse muitas vezes, "o amor é ilusão,
Um sentimento resultante de confusão
com sorriso conhecido e nostalgia blasé"
Um cínico assim, eu sou.
Me sinto tão certo, tão decidido,
tão absolutamente e imutavelmente certo
Apesar de nunca ter me apercebido de amar você
até que finalmente notei que havia amor em você, e oh...
Nesse mundo de pessoas comuns,
pessoas extraordinárias,
Sou feliz por você existir.
Nesse mundo de prazeres superestimados
e tesouros depreciados,
Sou feliz por você existir.
Eu vivo pra amar,
Eu amo pra viver com você ao meu lado.
Essa função, tão nova,
Eu me ajeitarei com você
Se você me guiar.
Nesse mundo onde tantos brincam no amor
e dificilmente alguém permanece no amor,
Sou feliz por você existir.