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5/22/2006

(ao som de ¿The more I see you¿, live by Sarah Vaughan)

Que as crianças nos ensinam a simplificar as coisas, não é nenhuma novidade. Quis escrever, então, sobre amores que nos reconduzem a tudo que há de bom na infância. Algumas pessoas têm essa magia de despertar essas preciosas sensações em outras, e um amor que nos faz crianças novamente, no coração, sempre é bem-vindo. Apesar de não gostar de comentar minha vida pessoal, vou me permitir um agradecimento público àquela que me trouxe, desde janeiro, todo sortilégio de emoções que tentei transparecer no texto. Obrigado, Maíra, por despertar tanta coisa boa em mim, por essa gostosa sensação de que meu barco, finalmente, encontrou um porto seguro e definitivo a toda inconstância de antes.
A música, cuja beleza vem, além da melodia, na letra simples e cheia de significado, era uma das minhas preferidas na voz da minha amiga Jane, que agora canta pro privilegiado público carioca. Uma ótima semana a todos e Carpe Diem!

Quando éramos ingênuos, tolos e felizes

¿- Ela tinha algo... pureza,inocência, honra.
- Virtudes que levam um homem a beber.¿(diálogo entre Gig Young e Cary Grant em ¿Carícias de Luxo¿ (1962)



Adoro ver crianças brincando. Torço pelo dia em que os psicólogos trocarão a receita do Prozac pela de ficar sentado 15 minutos observando um grupo de crianças correndo despercebidas e divertindo-se num parque qualquer. Tenho a impressão de que os relacionamentos mais felizes são os que mais nos aproximam das crianças, em todos os sentidos. Simples, otimistas, sonhadoras, ingênuas, francas ao extremo. A sinceridade delas é tamanha que até machuca. Olhar para o rosto de uma criança brincando remete à lembrança do quanto perdemos durante o processo, do aprendizado que foi enrijecendo os sentimentos e tornando nosso senso de julgamento mais cruel, medroso, pernicioso, e cheio de preconceitos.
Crianças não colocam rótulos em seus relacionamentos, estão sempre dispostas a estender a mão antes de presumir se a ajuda trará algo em troca. Quando gostam de alguém, o sorriso e a ansiedade estampam-se na face. Não há como disfarçar, a linguagem corporal entrega o sentimento. Quando não gostam, fecham o semblante e afastam-se. Não há jogos, suposições, palavras mal-interpretadas ou incompreendidas. Elas simplificam. Já imaginaram como nossos próprios relacionamentos mudariam de perspectiva se aprendêssemos as lições que elas nos ensinam?
Acredito que não há amor melhor que aquele que nos força a voltar os olhos à infância. Um amor que nos remete à infância forma as mais doces lembranças que carregaremos na despensa da alma, como aquela caixa universal de remédios a quem recorremos sempre que o desânimo insiste em dar as caras. Na infância, a lembrança do aniversário com a turma de amigos, do passeio pelo zoológico, da viagem de carro em família. No relacionamento amoroso, a recordação do atabalhoado primeiro beijo, da declaração, da comemoração dos meses de namoro, das mãos entrelaçadas na entrada do cinema, da sensação de combustão interna quando o telefone toca e sabemos que, do outro lado, está quem esperamos. As pequenas coisas, aqueles instantes aparentemente bobos mas de uma singeleza única. Momentos que, reunidos, funcionam como a cola que gruda e assenta o sentimento, que passa da paixão volátil ao amor sereno. Lembrar que, naqueles efêmeros instantes, fomos reis do nosso próprio universo; capitães, como Henley, de nossa própria alma. O reinado pode cessar, mas o sorriso de canto de boca fica eternamente como troféu de uma batalha sem vencedores, cuja finalidade principal é a de produzir saudades quando precisarmos delas.
Amores que nos remetem à infância estão incrustados de esperança e pureza. Sabemos que eventualmente nos acompanharão a dor, a frustração, a banalização da rotina, a perda, o fim. Mesmo assim sonhamos, malandramente desprezamos qualquer sentimento de presunção futura. Queremos o agora, aguçar a percepção ao que acontece ao redor, tomar descalços o banho de chuva sem receio da pneumonia, fazer hoje as manchetes que veremos depois estampadas nos jornais esquecidos no consultório sentimental da consciência.
¿- Aquiesça, que tudo passa.¿, a experiência nos sussurra depois. Sim, o amor pode acabar de intermináveis maneiras, a ternura infantil transforma-se com os filtros que o amadurecimento nos impõe, muitas vezes nos deparamos com uma pessoa totalmente distinta daquela que fomos em tempos mais pueris. Aprendemos a recuar na entrega, a desconfiar, a retesar o braço que joga a bóia de salvação. Então, quando mais acuados estamos, aparece um amor que nos resgata essa infância perdida, e é inevitável pensarmos ¿ e sonharmos ¿ que aquele mundo, sim, é ao qual pertencemos, e não esse outro adulto e fragilizado que insiste em nos enclausurar.
Por Ed as 2:42 PM





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5/1/2006
(ao som de "No worries", by Simon Webbe)
Demorar pra atualizar tem um desafio inglório, o de tentar a concisão em meio a tanta coisa que gostaria de compartilhar com vocês. O post, então, ficará longo, mas prefiro pecar pelo excesso. Vi alguns filmes nesse mês que passou e um me impressionou muito: Crash. Saí do cinema com a certeza que, dessa vez, a Academia acertou em cheio no prêmio de melhor filme. É sempre bom assistirmos filmes que nos lembram que as pessoas nunca são boas ou más o tempo todo, e Crash é perfeito nesse sentido. No campo das comédias românticas não tive tanta sorte, achei as duas últimas que vi muito fracas. Armações do Amor e Terapia do Amor até possuem algumas cenas engraçadas, mas eu esperava mais pelo elenco dos filmes.
Quero também compartilhar com vocês duas notícias que li durante a semana relacionadas ao tema do blog. O casal que foi preso por se apaixonar e outro que morreu em acidentes diferentes na mesma hora. Claro que há coincidências, mas muitas vezes fica aquela estranha sensação de que há uma teia acima de nós de linhas já traçadas que nunca entenderemos.
Estou lendo "Por que amamos", da Helen Fisher. Eu gosto muito dessa autora porque ela foi uma das pioneiras a estudar as alterações químicas que o amor produz em nossos corpos. Lembro que, no final dos anos 90, senti um misto de espanto e negação quando li "Anatomia do Amor" , o primeiro livro dela sobre o assunto. Acabei de passar das 100 primeiras páginas do livro, mas estou com a triste impressão que "Por que amamos" é uma cópia atualizada de "Anatomia do Amor". De qualquer maneira, ainda há muito a ler, e é uma abordagem diferente e interessante a que a Helen faz - embora eu não concorde - definir o amor como um sistema de motivação primária no cérebro, regulado por alterações de substâncias químicas.
Fiz uma reforma nos links de blogs e sites. De vez em quando, olhando o contador de visitas, me deparo com sites e blogs que, gentilmente, linkaram o meu ou reproduziram algo que escrevi aqui. Queria pedir às pessoas que me linkaram e que não estejam na lista de blogs indicados, que me avisassem, pra que eu possa retribuir a gentileza e colocar o blog de vocês também na minha lista.
O texto e a música, finalmente. Na verdade eles não se relacionam. O texto não carece de explicações, eu acho. A música é uma daquelas que escutamos, simpatizamos na hora e ficam martelando na cabeça depois. Saio cantando sempre que ouço, ela reflete muito da minha vida pessoal nos últimos 3 meses. Preocupações até existem, mas quem quer saber delas quando a vida pessoal está naquela fase do "se melhorar estraga"? Uma ótima semana a todos, "no worries, no worries" e Carpe Diem!


A silenciosa geração dos pés descalços

Eu adoro andar descalço. Quando pequeno lembro-me de correr pelo gramado de casa, os pés com solas grossas de tanto pisar na terra fofa e úmida de cada início de ano. Andar descalço na chuva era diferente, servia de confessionário natural a todos os pecados infantis. A chuva libertava, redimia, perdoava, carregava pra longe todos os problemas e desventuras daqueles instantes. O outono sempre foi minha época preferida pra andar descalço. A sensação de pisar nos montes de folhas secas espalhados de maneira disforme pelo chão, o som das folhas quebrando-se nas pisadas... pensar na vida andando descalço em folhas secas trazia àquela mente pré-adolescente mais serenidade, otimismo e perseverança que qualquer psicólogo do mundo poderia sugerir. Os amores, naqueles tempos, seguiam a mesma trilha ingênua e despretensiosa dos pés descalços: paixões inocentes, platônicas, logo substituídas por outras também inalcançáveis. De que serviriam os sonhos se pudéssemos alcançá-los, afinal?
A infância foi logo substituída pela adolescência contestadora, mas os pés descalços continuaram, firmes, a ditar o ritmo das pegadas. Aos poucos, entretanto, íamos aprendendo que andar descalço era errado. Proteção, diziam nossos pais. Os calçados nos protegiam do frio, das doenças, dos ferimentos. A vontade de andar descalço de repente adquiria um novo elemento: o medo de que aquilo nos fizesse mal. O coração acompanhava o raciocínio, e, à medida que os amores platônicos foram trocados pelos tangíveis, levamos a proteção e o medo ao coração. Com uma carapaça invisível de desconfiança e juízo criávamos a sensação de proteção, trancávamos nossas portas interiores mais singelas e frágeis. O cartaz interior de "cuidado, coração desconfiado" afastava incautos e dava ares de super-homem aos sentimentos, insinuando um equilíbrio que, em verdade, nunca existiu. Mas fomos ensinados ao jogo seguro, a evitar grandes decepções, a racionalizar antevendo comportamentos que, fatalmente, fariam parte do arsenal invisível de qualquer pessoa que pretendesse adentrar nosso convívio. "Nunca se exponha demais", "Mulheres são assim", "Homens são assado", os rótulos já vinham prontos. Andar com a alma descalça, definitivamente, não fazia parte do receituário de comportamentos esperados num relacionamento.
Há, felizmente, toda uma geração de pés descalços espalhada pelos mais recônditos cantos do universo. Disfarçados em diversas cores, idades e credos, eles batem à nossa porta em preciosos instantes e nas formas mais inesperadas. Quietos, despercebidos à maioria, assoviando alegres canções do passado, aproximam-se e ensinam. Mostram que a busca pelo amor passa pela reconquista da infância, pelo prazer de andar descalço. Amar, talvez, então, seja retornar a essa inocente infância. Andar com o coração descalço. Encontrar uma pessoa que nos conduza pelos campos, que afaste o medo de expormos nossa fragilidade, nosso lado mais vulnerável e, por isso mesmo, mais precioso. Eles ensinam que proteger o coração afasta incautos mas afasta, também, aquelas pessoas que mais gostaríamos que permanecessem. O medo da entrega diminui riscos, por certo faremos escolhas erradas e a rejeição virá no assombro de outras pessoas que não saberão lidar com essa segurança tão perdulária. Ou pior, que utilizarão essa segurança contra nós mesmos, manipulando-nos sordidamente. Calçando os sentimentos, afastamos também aquela outra parte, justamente aquela que passamos a vida a procurar. Corremos o risco de passarmos por comuns, sem pontos de identificação, sem frestas que revelem nossas carências e acenem pedindo uma mão salvadora. Preservamos nossa vulnerabilidade colocando pó em nossas convicções esquecidas na infância, e qual a valia disso se continuamos sozinhos ou presos a relacionamentos de conveniência?
Sim, há uma geração de pés descalços louca pra nos dizer que sempre há tempo pra retornar ao ponto de origem, sussurrando que a entrega é fundamental porque toda decepção esvaece quando encontramos outra pessoa de pés descalços, esperançosa e sem medo. Há uma geração de pés descalços afirmando que felicidade sem desacertos e recomeços não existe, porque precisamos do errado para distinguir e valorizar quando o certo se avizinha. Há uma geração inteira de pés descalços pedindo pra andarmos, como eles, descalços, e isso significa expor toda vulnerabilidade e lidar com as conseqüências disso. E, quer saber? Eu acredito neles.

No Worries
Simon Webbe

(I just know your life's gonna change)
(Gonna get a little better)
(Moving on the darkest day)
(I just know your life's gonna change)
(Gonna get a little further)
(Right up until the feeling fades)

So, is this how it goes,
Think you've come this far,
And then it'll show,
But that aint so, oh no,
You don't see where you are,
And if you don't wanna look back
You'll never know,
Cuz you think that you've been here
Just treading water
Waiting in the wings for the show to begin
But I always see you searching
And you try that bit harder
Getting closer, oh yeah
To the life you're imagining

(I just know your life's gonna change)
Maybe not today, maybe not today,
But some day soon you'll be alright,
(I just know your life's gonna change)
Turn the other way, turn the other way,
Feels like luck is on your side,
(Just wanna live)
No worries, no worries,
(Don't wanna die)
No worries, no worries,
Sing for me, sing for me,
We all need somebody,
(Yeah you can sink)
No worries, no worries,
(Or you can swim)
No worries, no worries,
Sing for me, sing for me,
We all need somebody

So, baby keep drifiting on
Getting there ain't just selfless wasted time
Seek and find, yeah
You're not that far from
What you hoped and wished for
All along,
Cuz you think that you've been there,
Just treading water
Waiting in the wings for the show to begin
But I always see you searching
And you try that bit harder
Getting closer, oh yeah
To the life you're imagining

(I just know your life's gonna change)
Maybe not today, maybe not today,
But some day soon you'll be alright,
(I just know your life's gonna change)
Turn the other way, turn the other way,
Feels like luck is on your side,
(Just wanna live)
No worries, no worries,
(Don't wanna die)
No worries, no worries,
Sing for me, sing for me,
We all need somebody,
(Yeah you can sink)
No worries, no worries,
(Or you can swim)
No worries, no worries,
Sing for me, sing for me,
We all need somebody

I just know your life's gonna change
Sing for me, sing for me,
We all need somebody...

Sem preocupações

(Eu só sei que sua vida irá mudar)
(Ficará um pouco melhor)
(Sobrevivendo ao dia mais escuro)
(Eu só sei que sua vida irá mudar)
(Ficará um pouco mais profunda)
(Anime-se até a sensação desaparecer)

Então, é assim que acontece
Pensar que você chegou tão longe
Então irá te mostrar,
Mas não é tanto assim, oh não,
Você não vê onde está,
E se você não quer olhar pra trás,
Você nunca saberá,
Porque você acha que já esteve aqui,
Apenas molhando os pés,
Esperando nas asas que o show comece.
Mas eu sempre te vejo procurando,
E você tenta com mais vontade,
Chegando perto, oh sim,
Da vida que você está imaginando.

(Eu só sei que sua vida irá mudar)
Talvez não hoje,talvez não hoje,
Mas logo você estará bem
(Eu só sei que sua vida irá mudar)
Mude de direção, mude de direção,
Parece que a sorte está do seu lado,
(Só quero viver)
Sem preocupações, sem preocupações,
(Não quero morrer)
Sem preocupações, sem preocupações,
Cante pra mim, cante pra mim
Todos nós precisamos de alguém
(Você pode naufragar)
Sem preocupações, sem preocupações,
(Ou você pode nadar)
Sem preocupações, sem preocupações,
Cante pra mim, cante pra mim
Todos nós precisamos de alguém.

Então baby, deixe a correnteza te levar,
Chegar lá não é só uma abnegada perda de tempo,
Procure e ache, yeah,
Você não está tão longe
Do que você esperou e desejou
Por tanto tempo.
Porque você acha que já esteve lá,
Apenas molhando os pés,
Esperando nas asas que o show comece.
Mas eu sempre te vejo procurando,
E você tenta com mais vontade,
Chegando perto, oh sim,
Da vida que você está imaginando.

(Eu só sei que sua vida irá mudar)
Talvez não hoje,talvez não hoje,
Mas logo você estará bem
(Eu só sei que sua vida irá mudar)
Mude de direção, mude de direção,
Parece que a sorte está do seu lado,
(Só quero viver)
Sem preocupações, sem preocupações,
(Não quero morrer)
Sem preocupações, sem preocupações,
Cante pra mim, cante pra mim
Todos nós precisamos de alguém
(Você pode naufragar)
Sem preocupações, sem preocupações,
(Ou você pode nadar)
Sem preocupações, sem preocupações,
Cante pra mim, cante pra mim
Todos nós precisamos de alguém.

Eu só sei que sua vida irá mudar,
Cante pra mim, cante pra mim,
Todos nós precisamos de alguém.
Por Ed as 6:10 AM







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