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2/14/2006
O texto de hoje veio em função dos dois filmes que assisti e que copiei um trecho de cada logo abaixo. Já escrevi antes sobre a dificuldade que temos em aprender a amar, mas quis retratar o assunto novamente sob um ponto de vista diferente. O post de hoje tem, também, um poema no lugar da música. Achei que esse trecho do livro do Oscar Wilde (apesar de não concordar com ele) se encaixa no assunto. Ainda hoje volto a passear pelos blogs amigos e me desculpar pela ausência dos últimos dias. Uma ótima semana a todos e Carpe Diem!

Aprendendo a amar

- Lembra do telhado do apartamento da rua 47? Você dizia que de lá nossos problemas pareciam pequenos.
- Nós tínhamos 19 anos. Nossos problemas eram pequenos.
- Comprávamos uma garrafa de vinho, um pacote de cigarros e ficávamos no telhado. Lembra? O que aconteceu com a gente,Isabel?
- Mark... você é uma criança. Foi isso que aconteceu conosco. Daqui 20 anos você ainda estará tomando vinho e fumando no telhado com garotas que você não sabe como amar.
- E onde você estará?
- Em algum outro lugar.
(Diálogo entre Isabel e Mark em ¿Por Conta do Destino¿ )


Eu avisei a todas elas, desde o início. Sempre disse frases como Tenho que lhe avisar que tenho um carimbo invisível de ´´cuidado´´. Não quero compromisso, nunca me casarei. Apesar dos esforços, estou sentindo pequenas rachaduras na minha capa de proteção. Quando reavalio a minha pequena vida e todas as mulheres que conheci, não consigo evitar de pensar em tudo o que elas fizeram por mim, e no pouco que fiz por elas. Como elas cuidaram de mim, preocuparam-se comigo, e, em troca, nunca retribuí o favor. Costumava pensar que era eu quem me saia melhor no acordo. O que foi que eu ganhei? Sério. Tenho algum dinheiro no bolso, umas roupas legais, um carro maneiro à disposição. E estou solteiro. Sem compromisso, livre como um pássaro. Não dependo de ninguém. Ninguém depende de mim. A vida é totalmente minha. Mas não tenho paz interior. E, se você não tem isso, não tem nada. Então... qual é a resposta? É o que vivo me perguntando. O que é que vale a pena? Entende o que quero dizer? (Alfie em Alfie, o Sedutor)




Curioso fazer uma retrospectiva de nosso passado e observar que mais de uma vez nos deparamos com pessoas que poderiam, sem muito esforço, fazer parte de nossas vidas até hoje. Tendemos a depreciar quem ficou e raramente percebemos que, quando aquele que parte na maioria das vezes somos nós, a culpa talvez não esteja do outro lado, mas aqui. Não sei quanto a vocês, mas eu, pelo menos, nunca aprendi a amar, e me incomodo com isso. Algumas pessoas optam que pegarão apenas o que lhes convém dos relacionamentos que adentram e, ao avistarem a placa vermelha de ¿compromisso à vista¿ partem em busca duma nova aventura. Outras tentam eternizar a juventude da pior maneira possível, resgatando a imaturidade de tempos passados numa banalização de falsas promessas e inquietações vazias, onde o combustível vem do pouco caso que dão aos sentimentos alheios. Há os que encontram pessoas merecedoras de empenho e desprezam o que lhes foi entregue sem esforço ¿ a eterna mania de desvalorizar a segurança que nos é atirada de forma voluntária, sem pedir nada em troca. Alguns não aprendem a amar por preguiça mesmo, comodismo, pela facilidade de encontrar um novo relacionamento fresquinho e cheio de incertezas logo à frente. Outros já vitimam-se no azar de atrair pessoas que, em condições ¿normais¿ (entenda-se amor-próprio em alta) nunca permitiriam que fizessem parte de suas vidas. Após encontrar tantas pessoas erradas, acreditam que o destino lhes pregou uma peça nessa existência, e, na desesperança, não atentam a pessoas que poderiam fazer toda diferença. Há os que não aprenderam a amar por teimosia. Apegam-se no lema do ¿ame-me do jeito que sou¿ e persistem nos mesmos erros, relação após relação, como reis sentados num trono querendo que todos se adaptem a seus gostos e manias, só que sem a contrapartida.
Aprender a amar envolve o conceito de senso crítico apurado a ponto de elevar-se acima do próprio relacionamento e perceber que a pessoa ao nosso lado está em constante mutação ¿ física, de sentimentos, de convicções. Enquanto não percebermos o quanto devemos vergar e nos adaptarmos a todas as mudanças (exteriores e interiores), ficaremos no eterno sonho adolescente do amor platônico ideal ¿ aquele que nos trará apenas bons momentos, sem o pacote completo que inclui dúvida, incerteza e inquietude. Nunca haverão manuais infalíveis sobre a arte de amar porque isso requer interação, que, além de peculiar, é única a cada casal envolvido. Dois mundos distintos de repente encontram-se e a fusão dessas órbitas oculares carregará sempre o medo em relação ao dia de amanhã. E, querem saber? É justamente esse medo que nos ensina. Aprendemos que nada está eternamente garantido, que somos mais substituíveis que pensamos e que a convivência alisa e fere, às vezes simultaneamente, e o comodismo não vem como cicuta, matando em instantes, mas sim como aquele outro veneno suave, que mata lentamente, até que um dia acordamos numa cama solitária e fria.
Nem todos matam o objeto de seu amor, como Wilde apregoava, mas aqueles que sobrevivem não contam o segredo. Pior, o segredo revelado daquele casal feliz que conhecemos muitas vezes não nos tem valia alguma. Resta a esperança, o sonho ingênuo de encontrar a pessoa com coragem suficiente de embarcar em nossos porões e desnudar-nos os dela. Aquele frio na barriga associado à inquietação de estar com alguém que, além de nos completar, encara o desafio porque acredita que pode, sim, existir um relacionamento pra vida toda. Se encontrar alguém assim que represente nossa outra metade já se constitui num milagre, perseverar nessa relação e fazê-la perdurar requer outro. Mas pra quem já teve o primeiro, a distância entre desejo e realidade tornou-se tênue. Sim, eu - como muitos de vocês - não aprendi a amar. Mas tenho fé, muita fé.


A balada do cárcere de Reading (fragmentos)
(Oscar Wilde)

No entanto,todo homem mata aquilo que adora,
Que cada um deles seja ouvido.
Alguns procedem com dureza no olhar,
Outros com uma palavra lisonjeira.
O covarde fá-lo com um beijo,
Enquanto o bravo o faz com a espada!

Uns matam o próprio amor quando ainda jovens,
Outros o fazem na velhice;
Uns estrangulam com as mãos da luxúria,
Outros com a mão de Ouro,
O que é bondoso faz uso do punhal,
Porque a morte assim vem mais depressa.

Uns amam pouco tempo,outros demais,
Uns vendem,outros compram;
Alguns praticam a ação com muitas lágrimas
E outros sem um suspiro,sequer:
Pois todo o homem mata o objeto do seu amor
E, no entanto, nem todo homem é condenado à morte.
Por Ed as 2:31 AM





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2/1/2006
Nunca escrevi nada de muito pessoal no blog, então peço desculpas pelo post de hoje. A falta de atualização teve, dentre alguns motivos costumeiros, um mais sério que me levou a uma reflexão que me permiti compartilhar com as pessoas que me visitam aqui. Às vezes o destino nos prega sustos que nos lembram de dar mais atenção às pessoas mais importantes de nossa vida. Como o post é totalmente pessoal, queria agradecer às pessoas próximas que sabiam dos problemas de saúde do meu pai e nos apoiaram nos últimos dias com as ligações e o carinho. Como também mencionei o destino, foi em meio à revoada de acontecimentos que voltei a acreditar em algumas coisas que só conhecia através de sonhos e esperanças. Obrigado, Maíra, por dar formas reais a tudo isso. Sábado o blog retorna aos textos habituais. Uma boa semana a todos e Carpe Diem.


Como nossos pais (a casa)

Meu pai passou por um sério problema no coração nas últimas semanas. Ele estava particularmente receoso quanto aos procedimentos a que teria que se submeter durante o tratamento que está fazendo no interior de São Paulo e, como qualquer um nessa hora, pensou que poderia morrer. Recebi uma ligação dele na quinta-feira à noite com instruções acerca do que fazer caso algo inesperado acontecesse a ele. Estou tirando o lado emocional do relato porque a reação que tive e a agonia pela qual minha família passou não diferem da que qualquer pessoa teria em situação semelhante, e não é esse o motivo do texto. Dentre as recomendações habituais de todo pai preocupado, uma, confesso, me pegou de surpresa: ele me pediu que não vendesse a casa onde moramos. Felizmente o tratamento teve êxito, ele provavelmente viverá pra ver os filhos envelhecerem, nossa preocupação deu vazão à alegria pela recuperação, mas aquele pedido não me saiu da cabeça. Não perguntei nem pretendo perguntar, quando ele retornar daqui um mês, quais os motivos que o levaram a me fazer o pedido de não vender a casa, mas tenho meu palpite.
Moramos na mesma casa há mais de trinta anos. Meu pai a construiu aos poucos,ao longo do tempo. Morei aqui até os quinze anos de idade, depois mudei-me pra outra cidade, depois pra outro país, voltei, casei, divorciei-me, continuei morando sozinho e, finalmente, cerca de seis anos atrás, voltei a morar aqui, com meus pais. Nossa casa sempre foi o relicário onde guardamos os valores que nos foram ensinados durante a vida. Testemunha muda das ondas de felicidade e tristeza, dos instantes de alegria compartilhados, dos encontros com amigos, amores que passaram, silêncios constrangedores e outros enternecidos, discussões que logo se esvaziavam à mesa de jantar. Ela representa tudo aquilo de que fugimos por tanto tempo e depois buscamos desesperadamente adquirir de volta, como filhos pródigos. A casa nos lembra que fomos cruéis e injustos muitas vezes, mas que essa aspereza levou sempre à redenção e ao perdão daqueles a quem amamos, e como amamos as pessoas nessa casa. A Bíblia na sala não representa religião alguma, mas bondade, paz de espírito, a sensação de dever cumprido ao fim do dia. Não é a casa de sonhos e esperanças vazias, mas de projetos realizados e outros não bem-sucedidos, mas sempre empenhados de esforço. É a casa da família.
Minha geração passou pelo crivo da contestação, dos paradigmas, do rompimento com o tradicional e busca da independência e liberdade. Cresci, como meus amigos, convicto de que teria que orientar minha vida a uma boa formação profissional que me levasse não só à independência financeira, mas também ao rompimento de comportamentos infantis e laços familiares. Ao mesmo tempo, a ideologia do "young hearts run free" dava as caras mostrando a beleza de perder preconceitos que acompanharam a geração anterior e questionar tudo que nos foi ensinado. Não o questionamento ingênuo e despreocupado dos hippies dos anos 60, mas aquele outro, cheio de cobranças e atitudes de rompimento com o passado. E, justamente aí, na busca incessante pelo reconhecimento e auto-afirmação, começamos a nos perder em nossa própria democracia de expressão de sentimentos. Minha geração queria contestar os caminhos anteriores mas não encontrou um caminho próprio pra trilhar. Lutamos por uma liberdade de expressão e depois nos perdemos nessa mesma liberdade, sem saber o que fazer ao certo com ela. Rompemos com o passado, criamos um mundo novo de relacionamentos relâmpagos, traições consentidas e valores direcionados ao sucesso, deixando pra trás o que realmente importava: o prazer da convivência com as pessoas que amamos. Modificamos os meios e nos esquecemos do principal: de nada adiantam caminhos diferentes se eles não levam a lugar algum.
O engraçado é que, quanto mais o tempo passa, mais me aproximo de tudo que lutei contra durante grande parte da vida. Mais próximo volto a ficar da família, mais importância presto às pequenas coisas, mais tempo quero dedicar às pessoas que fazem diferença. De repente ficar próximo aos amigos e pessoas que amamos tem um peso crucial que supera qualquer perspectiva financeira futura que implique no abandono dessas pessoas. Mudar passou a não ter mais tanto sentido assim quando descobrimos que mudar pelo simples hábito da mudança não é maneira de conduzir um destino se as conseqüências não resgatarem o sentido que tanto procuramos nessa existência.
Ninguém precisa de uma casa pra lembrar desses valores, é evidente, mas precisamos de algo tangível, sempre à mostra, que nos traga recordações em momentos de questionamento. Uma bicicleta, um caderno antigo, um brinquedo de infância, uma caneta de 12 cores, uma carta guardada. Precisamos olhar pra essas coisas e perceber que fomos especiais em diversos momentos, e que esses instantes de alegria valeram mais que os tristes, mesmo que em número menor. Lembrar, aprender, sentir. Abraços que ainda mantém o cheiro da esperança muitos anos depois, frases que ficaram grudadas na poeira assentada da alma. Minha casa me lembra que é sempre moda lutar pelos valores ingênuos contestados por nossa própria geração, que não preciso me envergonhar de querer algo melhor pra mim e praqueles que me cercam, que essa falta de perspectiva assola muitos que não foram ensinados a perder o medo de errar, demonstrar sentimentos e dar bom dia a estranhos.
Minha casa não me fez uma pessoa melhor, mas carrega a vontade que tenho de ser essa pessoa. Enquanto puder conservar essa utopia, não haverá dinheiro que pague a alegria de saber que a vida tem, finalmente, um propósito. Enquanto também puder transmitir essa perspectiva a meus filhos e netos, como aprendi com meus pais, a casa permanecerá. A janela do quarto sempre estará aberta ao som da chuva batendo na terra, do rio correndo abaixo, dos pássaros, das crianças brincando ao longe. É muito bom ter uma visão dessas numa era de culpas alforriadas do perdão, amores com prazo de validade, valores esquecidos e esperanças perdidas.
Por Ed as 3:45 AM







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