Mensagens de final de ano costumam ser previsíveis, cheias de votos dum futuro melhor pra cada um. Eu pensei em escrever algo nesse estilo, como fiz nos últimos anos, mas de repente me peguei numa prosa poética um pouco confessional e diferente. De qualquer maneira, ela expressa o que quero, pra mim, e pra cada um de vocês. Acho que todos, de certa forma, temos saudade de lugares onde nunca estivemos, principalmente daqueles lugares dentro de nós mesmos. Que em 2006 consigamos, todos, visitar ao menos um desses lugares. Feliz ano-novo a todos e Carpe Diem!
Os lugares onde nunca estivemos (Mensagem de Ano-Novo)
¿Dos lugares onde nunca estive, o que mais gosto é o oceano.¿ (Christian Slater em ¿Julian Po, o contador de mentiras¿)
Tenho saudade de lugares onde nunca estive. Tenho saudade de Viena, de Florianópolis, de Porto Alegre, de Portugal. Saudade das praias da Baviera francesa, do cheiro que antecede a chuva de fim de tarde em Praga, das areias escaldantes próximas às pirâmides do Egito, daquele bairro ao lado do meu que nunca adentrei, das casas que ficam do outro lado do rio. Saudade do sorvete de tâmara de Marraquesh, da brisa gostosa de Bali, de ir a um show do REM só pra ouvi-los cantando minha música predileta, dos olhos anônimos das mulheres cobertas do Paquistão. Saudade de pegar meu carro e sair de férias pro Caribe, sem dia pra voltar, as janelas abertas e o vento batendo no rosto, ouvindo as músicas que preparei pra viagens como essa. Saudade de pular de pára-quedas, bungee-jumping, do alto daquela cachoeira. Tenho saudade da lua.
Sinto muita falta dos lugares interiores onde nunca estive, também. Saudade do amor incondicional, verdadeiro e retribuído. Saudade da minha alma-gêmea que nunca conheci. Queria chegar até ela e dizer: ¿Muito prazer, bem-vinda ao meu mundo¿. Saudade das grandes paixões não tenho, porque as conheci, aos montes, e todas perderam a graça ao longo do tempo porque não se transfiguraram no ponto luminoso que sussurra: ¿é essa¿.
Tenho saudade de Deus (não por desconhecê-lo, desacreditá-lo ou senti-lo distante, mas saudade de.Suas palavras a me indicar os caminhos corretos, com menos sofrimento e dúvida). Tenho saudade de viver perigosamente nos sentimentos. Saudade de ligar pra algumas pessoas e dizer que não as esqueci, ou não as entendi, ou que queria tê-las conhecido melhor, e a timidez, a oportunidade ou o destino não deixaram .Engraçado, tenho muita saudade de coisas que nunca fiz.
Não quero viver de nostalgia do que não aconteceu, mas optei, finalmente, por conhecer alguns desses lugares, interiores e exteriores. Tentar, ao menos. Quero juntar dinheiro pra ir a Viena em três anos e Porto Alegre em menos de um. A Florianópolis, em março. Tomar o vinho do Porto em seu nascedouro alguns meses depois. Quero chegar aos meus vizinhos e oferecer-lhes uma xícara de café, ou convidar-me a tomar uma com eles. Quero as pessoas que gosto por perto. Todas elas. Se não fisicamente, quero cultivá-las em telefonemas, visitas, cartas, faxes, e-mails, sinais de fumaça. Tudo que não fiz nos últimos anos. Quero trocar mais olhares, furtivos e dissimulados, mas cheios de segundas intenções. Ou terceiras. Quero a cumplicidade de volta.
Eu resolvi que esse ano que nasce é o meu ano, e ninguém ¿ mas ninguém mesmo - me tomará mais o direito de cometer meus próprios erros. Quero viver minha vida, não a outra imaginária e sem-graça que me tentam atirar a todo momento, aquela dos fracassos e erros amaciados pela experiência dos que me querem bem. Nesse ano que se anuncia não quero ter saudade das resoluções que fiz todos os anos anteriores e, teimosamente, deixei de cumprir, nem das mudanças externas que esperei acontecerem sem sucesso, e culpei depois o destino por minha prostração e omissão.
De todos esses lugares por onde nunca caminhei, se me fosse dado o poder de escolher um - apenas um -, não titubearia. Tomaria em minhas mãos o cálice do amor verdadeiro e sorveria tudo, num único gole; que a saudade de todo o resto (real ou imaginária), não tem valia alguma sem alguém pra compartilhar das nossas mais importantes recordações. Tenho uma enorme saudade de todos os lugares que conhecerei.
O template novo veio lá de Porto Alegre, foi um presente que ganhei da Carla. A foto da praia foi tirada por ela mesma, é a praia de Barrinha, em Santa Catarina. O template novo está mais leve que o anterior e facilita a leitura, além de manter o tema marítimo. Pensei em diversas maneiras de agradecê-la pelo presente, mas nenhuma chegaria próxima ao sentimento que tive de "era exatamente isso que eu queria". É muito bom quando você recebe um presente de alguém que te conhece o suficiente pra adivinhar até teus pensamentos.
O ano de 2006 será de muitas mudanças pra mim no lado profissional, acho que passarei apenas 3 meses na minha cidade, o resto dele fora daqui (provavelmente no Rio de Janeiro e em Portugal). Não sei como farei pra atualizar o blog nesse período em que estiver fora, mas pretendo não deixá-lo tão abandonado como esse ano. As poucas pessoas que me visitam através do blog e eventualmente deixam até algum comentário aqui ou no orkut me fazem um bem tão grande que eu não me imagino mais um ano tão inconstante em atualizações. A idéia é escolher um ou dois dias fixos da semana pra atualizar, assim que resolver eu conto aqui.
O texto de Natal ficou um pouco pessoal, foi a maneira que encontrei de agradecer às pessoas que fizeram a diferença em minha vida durante o ano. Como estou de férias até dia 02 de janeiro, semana que vem pretendo aproveitar e atualizar mais uma ou duas vezes, aproveitando a novidade do template novo.
A música, que descobri também através da Carla, retrata o que a maioria das pessoas solteiras procura numa outra. É o que eu procuro, é o que a maioria de nós procuramos. Como é Natal e o blog tem como tema os assuntos do coração, nada mais apropriado. Feliz Natal e Carpe Diem!
Sobre listas, desejos e reflexões natalinas...
O Natal é a época do ano mais povoada pelas listas. Pessoas fazem listas pra tudo:presentes, desejos, resoluções. É uma época especial, não há dúvida. Os sonhos ficam mais tangíveis, por instantes mágicos acreditamos que o inconcebível se transformará em real. Alguns desejos realmente tomam formas reais. Não como um milagre, mas como aquele futurólogo que prevê uma série de acontecimentos para o ano vindouro e, por mais que erre, um par deles sempre acontece, mais pela lei das probabilidades que pelo faro adivinhatório ou sobrenatural do vidente. Esperança, acho que essa é a palavra que melhor define essa época. Esperança de que nosso grande amor finalmente aparecerá, a inflação baixe, nosso time de futebol vença todos os campeonatos, a família e os amigos continuem com saúde, o salário aumente. Os dias e meses seguintes tornam a colocar nossos pés no chão, os acontecimentos trazem notícias boas e ruins - como em todos os anos - e esperamos até o próximo Natal para fazer outras listas e alçar vôos calçados nos sonhos esperançosos que certamente alimentaremos.
Eu, então, nesse Natal, não desejo nada a ninguém, até porque meus desejos em nada mudariam as voltas da Roda da Fortuna na vida de cada um. Eu agradeço. Aos amigos de infância que se confundem com irmãos de alma, aos nem tão antigos mas que fizeram muita diferença em minha vida esse ano e em todos os outros; à minha família, por motivos que nem preciso enumerar; às amizades anônimas e virtuais, que com uma frase ou comentário às vezes despercebido fizeram uma baita diferença, mesmo sem saber. Agradeço à sinceridade das pessoas que magoei, porque me mostraram aspectos da minha personalidade que eu não sabia serem capazes de ferir ou marcar de forma negativa. Ou até sabia, mas não queria enxergar. Não sei se aprendi com os erros, mas não usarei mais a desculpa de desconhecê-los.
Até o próximo Natal pessoas continuarão entrando e saindo da vida de todos nós. A ânsia da alma-gêmea se transfigurará em um relacionamento que se tornará real ou fenecerá na semana seguinte; amores continuarão platônicos, outros se esborracharão nas recusas mas encontrarão ressonância numa única pessoa, que valerá mais que todos os amores platônicos do mundo. Nosso time ganhará partidas impossíveis e perderá outras mais impossíveis ainda; a decepção virá através de pessoas que nunca imaginávamos capazes delas, e na mesma proporção virá a alegria, felicidade, espanto e esperança com outras que farão mágica em nosso coração. Uns continuarão estáticos aguardando a interferência divina pra que suas vidas tomem um rumo diferente, outros mudarão a perspectiva do futuro cometendo erros e mais erros, até que um deles se transforme em acerto e faça o destino adentrar aquele outro caminho menos movimentado que fará toda diferença, como o poema do Frost.
O Feliz Natal não vem num desejo, mas na certeza da diferença que cada pequeno momento ao longo do próximo ano fará na vida de todos. Admirar a beleza desses momentos ou escolher os mais felizes é opção de cada um. Se o Natal é feito de listas, sonhos, e esperanças, pra que então escolher os momentos tristes? É Natal, os sinos interiores badalam, que ressoem o melhor que pudermos apresentar ao mundo.
Segredos (Frejat)
Eu procuro um amor que ainda não encontrei
Diferente de todos que amei
Nos seus olhos quero descobrir uma razão para viver
E as feridas dessa vida eu quero esquecer
Pode ser que eu a encontre numa fila de cinema
Numa esquina ou numa mesa de bar
Procuro um amor que seja bom pra mim
Vou procurar eu vou até o fim
E eu vou tratá-la bem
Pra que ela não tenha medo
Quando começar a conhecer os meus segredos
Eu procuro um amor uma razão para viver
E as feridas dessa vida eu quero esquecer
Pode ser que eu gagueje
Sem saber o que falar
Mas eu disfarço
E não saio sem ela de lá
Procuro um amor
que seja bom pra mim
vou procurar, eu vou até o fim.
(Ao som de "O amor", por Renato Braz)
Novidades. O blog, finalmente, vai mudar de aparência. Fui presenteado com alguns templates (logo revelo a autora) que eu nunca conseguiria fazer(nem imaginar) sozinho. Como não pretendo atualizar até o próximo final de semana(tenho que terminar minha monografia até sábado), e semana que vem será a mais atarefada do ano no trabalho, vou explorar a boa vontade da moça criadora dos templates e tentar colocar o próximo post já na moldura nova. Aproveito de novo pra me desculpar por não ter ainda respondido os comentários do último post, mas não podia deixar passar em branco a oportunidade de dizer o quanto eu admiro o estilo de escrever de algumas pessoas que eu tenho a sorte de receber a visita aqui no blog de vez em quando. A Rafaella é uma dessas pessoas, queria ter metade do bom gosto dela pra escrever com concisão e combinar tão bem imagens e textos. Essa semana foi o niver da minha irmã de internet, Carol-chan. Já dei os parabéns pelo orkut, mas não custa cumprimentar de novo por aqui.
Sobre o texto, agora. Eu iria escrever mais uns 2 ou 3 baseados em Peixe Grande, mas essa música do final me incomodou. Escutei no show do Renato Braz aqui na minha cidade, a letra latejou na cabeça, queria entender o significado. Descobri o poema do Maiakovski que a inspirou, mas não ajudou muito. Resolvi, então, escrever sobre pessoas resssucitadas pelo amor(retribuído ou não) de outras. Um ótimo final de semana a todos e Carpe Diem!
O encontro das almas ressuscitadas
Todos precisamos ressuscitar por amor pelo menos duas ou três vezes ao longo da vida, do contrário não resistiríamos à desesperança dos relacionamentos comuns. A retórica do amor-próprio é ótima e verdadeira, mas não vai tão fundo quanto ressuscitar através do amor de outra pessoa (ou de nossa esperança em relação a esse amor). Como qualquer religião com deus falível, precisamos do milagre pra acreditar novamente, pra servir de coberta aquecendo nossos pés à noite, quando o convívio do mundo real lá fora dá vazão à serenidade comedida dos sonhos de dias melhores.
Amor gostoso não é o que acelera o coração, dopa os sentimentos, arrepia a alma. É o que resgata. Ressuscitar, no fim das contas, é isso: resgatar. Um castelo de areia da infância, um beijo roubado na adolescência, um segredo, uma esperança. As paixões sempre se assemelham nos efeitos que nos causam internamente, mas algumas - bem poucas - vão além. Tocam na epiderme previsível(e nem por isso menos deslumbrante) da sensação de invencibilidade, dum objetivo de vida, de aproveitar o momento. Tocam e às vezes rompem-na, e então a verdadeira graça começa. Essas poucas paixões ou amores reencontrados iluminam escombros interiores que as outras não se importaram em navegar. O resultado desse passeio pela alma vem no resgate de aspectos de nós mesmos que estavam flutuando adormecidos. O amor vem, assenta-se e joga a bóia, trazendo de volta a surpresa e estupefação quando recordamos do quanto fomos diferentes em outras épocas da vida.
Não ressuscitamos num pedido, num grito desesperado de ajuda, mas pelo espanto. Abrimos os olhos e a perspectiva modificou-se, a torre antes soterrada reluziu à nossa frente de portas abertas, convidando-nos a passear os sentimentos em seu interior depois de tanto tempo, apenas pra que vejamos a beleza que adormecia e, orgulhosa, quer fazer-se presente novamente. Ressuscitar por amor sugere reencontrar fantasmas abatidos sob um novo prisma, e fazer desse reencontro uma ponte ligando a pessoa que queríamos ser com aquela mais burocrática nos sentimentos que nos tornamos, e perceber que sempre é tempo pra resgatar os sonhos de antes. Ressuscitamos não apenas aos olhos de outros, mas às nossas convicções internas. O amor enraíza-se e, além de trazer aquela vontade incontrolável de nos tornarmos pessoas melhores, traz valores, recordações, a inquietude que quer apenas acalmar-se e reviver tanto do que sentimos falta. Pessoas ressuscitadas carregam sob a costela um selo de qualidade invisível mas facilmente detectado, com a mensagem de "cuidado, o pacote é completo, eu já passei por tudo isso e sobrevivi".
A ciranda se completa quando uma alma revivida reconhece outra igual. O instante dessas horas mágicas é cúmplice. Não há duelo porque ambos conhecem todas as opções. Ah, o coração inquieto... Melhor ficar com o copo de leite morno de todas as manhãs, mas depois que provamos do líquido fosco do cálice, criou-se a base pra comparação. As alternativas continuam as mesmas, os caminhos com os desfiladeiros de sempre, as pessoas atravessando a fila de esperanças. Mas os ressuscitados têm o dom do reconhecimento, enxergam nuances que a maioria releva. E isso faz toda - mas toda mesmo - diferença.
Talvez
Quem sabe um dia
Por uma alameda do zoológico ela também chegará
Ela que também amava os animais
Entrará sorridente assim como está
Na foto sobre a mesa
Ela é tão bonita
Ela é tão bonita que na certa eles a ressuscitarão
O século trinta vencerá
O coração destroçado já
Pelas mesquinharias
Agora vamos alcançar
Tudo que não podemos amar na vida
Com o estelar das noites inumeráveis
Ressuscita-me
Ainda que mais não seja
Porque sou poeta
E ansiava o futuro
Ressuscita-me
Lutando contra as misérias
Do cotidiano
Ressuscita-me por isso
Ressuscita-me
Quero acabar de viver
O que me cabe,minha vida
Para que não mais existam
Amores servis
Ressuscita-me
Para que ninguém mais tenha
Que sacrificar-se
Por uma casa, um buraco
Ressuscita-me
Para que a partir de hoje
A partir de hoje
A família se transforme
E o pai
Seja pelo menos o universo
E a mãe
Seja no mínimo a terra
A terra
A terra...
O amor Maiakovski
Um dia, quem sabe,
ela, que também gostava de bichos,
apareça
numa alameda do zoo,
sorridente,
tal como agora está
no retrato sobre a mesa.
Ela é tão bela,
que, por certo, hão de ressuscitá-la.
Vosso Trigésimo Século
ultrapassará o enxame
de mil nadas, que dilaceravam o coração.
Então,
de todo amor não terminado
seremos pagos
em incontáveis noites de estrelas.
Ressuscita-me,
nem que seja só porque te esperava
como um poeta,
repelindo o absurdo cotidiano!
Ressuscita-me!
Nem que seja só por isso
Ressuscita-me!
Quero viver até o fim o que me cabe!
Para que o amor não seja mais escravo
de casamentos,
concupiscência,
salários.
Para que, maldizendo os leitos,
saltando dos coxins,
o amor se vá pelo universo inteiro.
Para que o dia,
que o sofrimento degrada,
não vos seja chorado, mendigado.
E que, ao primeiro apelo:
- Camaradas!
atenta se volte a terra inteira.
Para viver
livre dos nichos das casas.
Para que
doravante
a família
seja
o pai,
pelo menos o Universo;
a mãe,
pelo menos a Terra.