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11/16/2005
(ao som de ¿Water¿s edge¿, acoustic by Cindy Lauper & Sarah McLachlan)

A primeira sensação que tive, além de enxugar as lágrimas depois de assistir ¿Peixe Grande¿ foi o inevitável: ¿Como é que ninguém me falou desse filme antes?¿. Peixe Grande é um filme tão bonito e tão cheio de simbolismos que merece ser revisto pelo menos umas 10 vezes pra que entendamos todas as nuances que o diretor quis expressar em cada passagem. Eu estou na segunda, mas chego lá. O texto de hoje, então, tem influência direta das divagações que me acometeram ao final dele. A música faz parte do novo cd da Cindy Lauper, com os maiores sucessos da carreira dela em versão acústica. Achei a melhor do cd, já que ela não regravou ¿Unconditional Love¿, minha preferida. A letra, que perde um pouco da beleza na tradução, fala de solidão, esperança, lembranças e libertação pela ternura. Hoje foi o aniversário de uma pessoa muito especial e importante pra mim, mesmo à distância; talvez a única que entenda e aceite essa minha inconstância no blog e na vida pessoal (no que se refere a dar atenção às pessoas que nos são importantes). Feliz aniversário, Carla, e obrigado pelo incondicional entre nós.
Carpe Diem e uma ótima semana a todos.


O que fica

O que perdura de nossos relacionamentos passados? A verdade (crua e muitas vezes sórdida) das decepções, dor, brigas e questionamentos que filtramos após o fim da relação? Os lampejos de felicidade, momentos de ternura, aqueles instantes mágicos de cumplicidade que eternizam a lembrança dos amores mal-resolvidos? A mentira que criamos pra nos conformarmos e aceitar o fim? O politicamente correto que repetimos aos conhecidos e testemunhas da relação que findou? Rancor e amargura, ou a amizade, o desprendimento, o desejo de felicidade recíproca?
De cada final de relação fica o que queremos guardar na lembrança, o que a consciência rabisca no caderno de anotações do nosso próprio medo e dos rótulos que, mesmo sem intenção, criamos à medida que a convivência cria raízes e forma nossa personalidade. Guardamos o rascunho que imaginamos encapsular cada relacionamento passado, colocando etiquetas explicativas e reescrevendo o manual de conduta pra relacionamentos futuros. Que de nada adianta, é verdade. A realidade de cada paixão que findou é distinta não apenas ao mundo de fora, mas tem versões diferentes em cada um dos envolvidos. Enquanto um prefere guardar as lições aprendidas nos erros de percurso, o outro se ocupa em achar culpados. Enquanto um faz do passado um espelho que dá formas ao amor-próprio, o outro prostra-se em frente à própria imagem com a íntima convicção de que nunca será feliz da maneira que merece. Não gostará do que vê refletido porque a imagem que enxerga é a de uma pessoa descrente e ao mesmo tempo louca para se entregar ao primeiro cavalo encilhado ou à princesa adormecida mais próxima. E, fica, assim, numa eterna linha circular ao redor das projeções de amores perfeitos e ideais, até descobrir que eles não existem.
Se podemos optar, porque não apimentar as desilusões com um pouco de aprendizado? As histórias que guardamos são como um turbilhão d¿água que o tempo se encarrega de evaporar. O filete que fica, no final, é a sentença, a prova da importância daquela pessoa em nossa existência. Às vezes o filete se transfigura numa gostosa nostalgia, num ponto de referência onde afirmamos, sem pestanejar: ¿aquela pessoa fez diferença, foi especial¿. Noutras se resume numa lembrança destemperada e ruim que mostra amargura, inconformismo e culpa por um fracasso que ambos criaram e cujos fatores não podem ser levados à tona porque o naufrágio está consumado e não há como resgatar fantasmas. Sim, há pessoas que não nos acrescentam muita coisa, de quem não carregamos nada além de tristeza e arrependimento. Mas a opção em dar um valor desmesurado a elas é nossa, pra que carregarmos isso quando há outras que nos foram tão mais importantes? Somos mais substituíveis que imaginamos à lembrança daqueles que já nos foram imprescindíveis, então por que não usar da mesma estratégia em dar valor ao que se apresenta agora, às pessoas que se avizinham, sem deixar que nossos estereótipos atrapalhem o senso de julgamento?
Lidar com as próprias lembranças não significa mentir nem modificar fatos, mas sim colocar as mãos na caixa de Pandora de cada relação e retirar delas o que nossa consciência sugere que carreguemos pela vida. Podemos ser acusados de sonhadores simplistas por carregar apenas lembranças boas e construtivas e atirar pela janela os momentos ruins, ou de eternos mal-amados se as lembranças ficam permeadas de pessimismo, descrença e culpa, num filtro que impede a visão de qualquer aspecto positivo das pessoas que passaram por nossas vidas. Já que amar sempre requer esperança, confiança e entrega das vulnerabilidades, nada mais justo que pegar de cada relação passada instantes de felicidade aos de decepção. Se o painel de vida que mostramos aos outros é do tamanho das nossas próprias expectativas,melhor que ele tenha a aparência da ternura e do agradecimento àqueles que ajudaram a construi-lo.

Water's Edge
Cyndi Lauper

I went to the water's edge, forgot I couldn't swim
I went to the water's edge, all ready to jump in
I saw the water shimmer
I heard the wind howl
I saw my own reflection
I just can't see it now

You say it's the way of the world
To somehow co-exists
That eventually life unfurls
A path to happiness

So I whisper your little secret
And repeat it under my breath
I'll save it for you in my heart
In case we both forget

Oh, I wish you could wrap yourself around me
I am gripped by a loneliness
Oh, I wish you could wrap yourself around me
I'd be released in your tenderness
I'd be released in your tenderness

I went to the water's edge and saw my life eclipse
I went to the water's edge and then felt myself slip
I dreamed that I was floating, just coast until I grew fins
I want to catch this tide back home and feel you again

Oh, I wish you could wrap yourself around me
I am gripped by a loneliness
Oh, I wish you could wrap yourself around me
I'd be released in your tenderness
I'd be released in your tenderness


Beira d'água

Eu fui até a beira d'água, esqueci que não poderia nadar
Eu fui até a beira d'água, pronto pra pular
Eu vi a água brilhar
Ouvi o uivo do vento
Eu vi meu próprio reflexo
Eu simplesmente não consigo enxergá-lo agora

Você diz que o mundo é assim
Para co-existir de alguma forma
Que eventualmente a vida abre
Uma estrada à felicidade

Então eu sussurrei teu pequeno segredo
E o repeti por debaixo da minha respiração
Irei guardá-lo pra você em meu coração
Para o caso de ambos esquecermos.

Oh, eu queria que você se prendesse à minha volta
Eu estou preso por uma solidão
Oh, eu queria que você se prendesse à minha volta
Eu me libertaria em tua ternura
Eu me libertaria em tua ternura

Eu fui até a beira d'água e vi o eclipse da minha vida
Eu fui até a beira d'água e então senti que escorreguei
Eu sonhei que estava flutuando,apenas surfando até colocar nadadeiras
Eu quero pegar essa maré de volta pra casa e te sentir novamente

Oh, eu queria que você se prendesse à minha volta
Eu estou preso por uma solidão
Oh, eu queria que você se prendesse à minha volta
Eu me libertaria em tua ternura
Eu me libertaria em tua ternura.
Por Ed as 4:43 AM






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