Pra não deixar o blog tanto tempo sem atualização, resolvi postar um poema (ainda sem título) que fiz hoje. Pois é, depois de tenebroso inverno, voltei a me aventurar pela poesia. Minha pós acaba nesse final de semana, então dificilmente atualizarei o blog antes de domingo porque tenho que finalizar a minha parte da monografia até quinta-feira, pra apresentá-la durante as aulas do final de semana. Ia colocar, pra acompanhar o poema, um trecho do novo livro do John Updike que estou lendo, "Busca o meu rosto", onde as protagonistas divagam sobre aspectos interessantes do amor. Pra quem gosta do estilo do Updike, aliás, o livro é ótimo, além de ser uma verdadeira aula de arte. O trecho que queria transcrever é um pouco longo e a madrugada já vai alta, então fica prum post futuro. Minhas desculpas pelo post fora de contexto,prometo que no próximo paro com as incursões poéticas e retorno com os textos e as letras de música. Um bom feriado a todos...
Maíra
Os itinerários remetiam a imitações baratas do mesmo amor,
Sempre repetidas, sempre com final datado.
Agora o verão, que se aproxima,
Colore as folhas secas do outono
Estendidas em minha solidão de antes.
Hoje a esperança está em busca, não acomodada;
O coração assentado dispara flechas que dobram os sinos
Onde o volume que os ouvidos suportam é maior que minhas
Expectativas.
Ao som da badalada, renasço
Através de ti, sonhando.
E quando o vento em minhas veias pressente a chuva
Abrindo os olhos e disparando o coração...
O teu vulto inconseqüente, moça dos cabelos cacheados,
É o único que almejo seguir
Nessa vida redescoberta.
(ao som de "Your mirror" ,acoustic by Simply Red)
Hoje o post está enorme e um pouco diferente, mas como não pretendo atualizar o blog antes do fim de semana, já fica de crédito futuro. Há 15 dias recebi um mail da Mônica, de Portugal, com esse poema do Eugênio de Andrade, e desde a primeira vez que o li sabia que teria que compartilhá-lo com vocês. A cada vez que relia achava uma ponta solta de explicação, de beleza, de simplicidade reveladora. Como é bonito lembrar dos pássaros que criamos quanto estamos apaixonados e observar os espaços que adentram.
Os amantes sem dinheiro Eugênio de Andrade
Tinham o rosto aberto a quem passava.
Tinham lendas e mitos
e frio no coração.
Tinham jardins onde a lua passeava
de mãos dadas com a água
e um anjo de pedra por irmão.
Tinham como toda a gente
o milagre de cada dia
escorrendo pelos telhados;
e olhos de oiro
onde ardiam
os sonhos mais tresmalhados.
Tinham fome e sede como os bichos,
e silêncio
à roda dos seus passos.
Mas a cada gesto que faziam
um pássaro nascia dos seus dedos
e deslumbrado penetrava nos espaços.
Em julho recebi um e-mail da Carla, lá de Porto Alegre(outra responsável pelo blog continuar), e a pergunta que ela me fez ficou latejando, incomodando, até hoje. Eu nunca tinha parado pra pensar na resposta .O que me incomodava era a certeza de que eu jamais tive pretensão de escrever pra impor meu ponto-de-vista, pra buscar reconhecimento, fama, era justamente o contrário. Não que agora tenha chegado a uma resposta conclusiva, mas acho que já posso dormir um pouco mais sossegado em relação a isso. Com a permissão dela, copio um trecho do mail que me enviou e depois o meu rascunho de resposta..
"Um mês atrás assisti na TV uma entrevista com o José Saramago. Na hora lembrei de ti e pensei: vou comentar isso com o Edu. O repórter perguntou por que ele, Saramago, escrevia. Saramago respondeu que todo escritor bola uma resposta bacana para esse tipo de pergunta. Que antigamente ele respondia que escrevia para deixar registrada sua presença. Agora, ele disse que compreende que escreve porque deseja que as pessoas o conheçam um pouco, através de suas palavras. E você Edu, por que escreve?"
Eu escrevo por causa dessa palavrinha chamada identificação.Escrevo porque sinto falta do hábito. Escrevo pra desabafar, pra ser questionado, pra rever meus conceitos, pra me contradizer, pra jogar a parte que me cabe das estrelas de volta ao oceano. Escrevo pra poder conhecer pessoas como você, Carla, e algumas outras poucas que me mostram as nuances, que me ensinam a olhar um pouco além das aparências. Eu escrevo, então, pra aprender. É isso.
O texto, finalmente. Ele veio dum pequeno diálogo do filme "Closer" que deve ter passado despercebido a muita gente mas que me incomodou a ponto de escrever sobre ele. A resposta do Dan, apesar de soar egoísta à primeira vista, é a resposta inconsciente de muitos de nós aos motivos que nos fazem gostar ou desgostar de uma pessoa. A música do Simply Red(uma das minhas preferidas deles) se encaixa no assunto porque pede que olhemos à beleza que temos dentro de nós mesmos. Aproveito pra avisar que durante a semana estarei corrigindo os links daqui, reparei que muitos blogs amigos mudaram de endereço ou desapareceram. Se alguém quiser o blog ou fotolog relacionado aqui, é só me mandar um mail ou escrever o endereço nos comentários do post de hoje. Também estarei retribuindo as visitas. Semana passada visitei o blog novo da Silene e é incrível como ela escreve cada vez melhor. Queria ter a autenticidade que você tem ao escrever, Si. Minha amiga Carol-chan (outra que tem um blog sensacional) me convidou pra participar dum projeto novo dela, um blog onde as pessoas convidadas por ela têm que criar uma história a partir duma letra de música. Achei a idéia sensacional e fiquei muito feliz com o convite. Pra quem quiser dar uma olhada, o "Por trás daquela música" já deu as caras. Uma boa semana a todos e Carpe Diem!
Encarando o espelho
- Why do you love her?
- I love her because she doesn't need me.
(- Porque você a ama?
- Eu a amo porque ela não precisa de mim.)
(diálogo entre Anna e Dan no filme "Closer")
Muitas vezes não sabemos exatamente o que nos aproxima de determinadas pessoas, qual a fagulha que desperta o incêndio em que nos consumimos depois. Sabemos, sempre, o que nos afasta dessas mesmas pessoas. O final de todo relacionamento está diretamente ligado a um ponto comum: deixamos, em algum momento, de admirar o outro; sentamos sobre a segurança dum amor correspondido e caímos na armadilha fatal do comodismo, que aprisiona o objeto de adoração e rompe as tênues amarras da perspectiva de convivência futura.
Nós precisamos admirar algo na outra pessoa além dum par de covinhas, da cor dos olhos ou um corpo esguio. Algo inato, que perdure, que faça parte do pacote básico e não dos acessórios. A noção de independência, então, se encaixa perfeitamente no perfil desejado. Não independência financeira, que essa não tem valia alguma nos assuntos do coração, mas a independência sentimental, aquela que deixa sempre acesa a luz do amor-próprio e da certeza de que, se não formos tratados da maneira que merecemos, preencheremos os espaços vazios em outra vizinhança. A partir do momento em que precisamos da outra pessoa para, primeiro, suprir uma carência pessoal ou desmistificar algum trauma passado, o relacionamento adentra pela ladeira previsível dum fim anunciado. Admirar o outro requer a noção de que temos que entregar nosso próprio amor da forma mais desinteressada possível: sem expectativas, sem rótulos etiquetados no passado, sem pedir nada além de sermos aceitos da mesma maneira com que nos mostramos a partir daquele instante. A admiração começa justamente aí, trazendo o outro ao nosso foco, às nossas próprias qualidades que muitas vezes camuflamos mas sabemos que sempre nos acompanharam. Não precisar de uma pessoa soa estranho quando sabemos que amar é uma constante entrega, mas é justamente aí que reside a resposta: a satisfação vem do que entregamos, não do que pedimos em troca. Da doação, não do sentimento retribuído na mesma proporção. Admiramos as qualidades da outra pessoa e esse encantamento volta como imagem refletida de nós mesmos. Tornamo-nos mais fortes e confiantes porque sabemos que estamos nos relacionando com alguém acima da média, e melhor, - essa pessoa, entre todas as possibilidades que tinha, apontou o dedo em nossa direção.
A independência alheia amedronta, é claro. Um temor gostoso, que dá calafrios na alma e sussurra a todo momento pra nunca tomarmos nada como garantido, pra cuidarmos da insegurança em pequenas e diárias doses de amor-próprio e respeito às necessidades do outro. O ruim é descobrir que a dosagem correta só vem com o tempo, com as decepções que ficaram pelo caminho, e o remédio é sempre falível. Quando percebemos que não precisar de alguém não é uma atitude egoísta mas sim de confiança e amor-próprio, o mapa se abre à nossa frente, a rota enfim tem uma bússola confiável. O caminho continua longo e traiçoeiro, mas a sensação de encontrar alguém que nos desperte a vontade de querer envelhecer ao lado dela vale qualquer preço, cobre qualquer custo. Não, o mundo aqui fora não é feito de relacionamentos ideais, pessoas perfeitas e bem-resolvidas. Mas se não olharmos nossa própria imagem refletida no espelho da alma de tempos em tempos sem aquele sorriso de canto de boca que diz "Que pessoa formidável"... como poderemos convencer os outros disso?
Your Mirror (Simply Red)
i've got to stand up for myself
this society don't care about no body else
i got to be strong
even if i know that this feeling is wrong
i got to not care
even if i know that this world was meant to share
wait a minute. this is wrong.
even the birds still sing their faithful song
and your beauty lies within you
look in the mirror baby.
look in the mirror baby.
what you gonna do when your friends have gone away
and deserted you?
you'll have to be strong
24 hours can seem so long...
you're taught to not care
and then not realise this world is meant to share
wait a minute. it's wrong.
even the birds still sing their faithful song
and your beauty lies within you
look in the mirror baby.
look in the mirror baby.
we got to stand up for ourselves
even if the leader so cold wants to glory himself
we've got to be strong
even if our reasons seem wrong...
we've got to not care
even if the world that we know may not even be here
Hold it. Its wrong.
even the birds still sing their faithful song
and your beauty lies within you
look in the mirror baby.
look in the mirror baby.
Teu espelho
Tenho que ficar em pé pra mim mesmo
Essa sociedade não liga pra mais ninguém
Tenho que ser forte
Mesmo que eu saiba que esse sentimento está errado
Tenho que não me importar
Mesmo que eu saiba que esse mundo foi feito pra compartilhar
Espere um pouco. Está errado.
Até os pássaros ainda cantam suas melodias fiéis
E tua beleza repousa por dentro de você mesma.
Olhe no espelho, baby.
Olhe no espelho, baby.
O que você fará quando teus amigos tiverem partido
e te abandonado?
Você terá que ser forte
24 horas podem parecer tão longas...
Você foi ensinado a não se importar
E então não perceber que esse mundo é feito pra compartilhar
Espere um pouco. Está errado.
Até os pássaros ainda cantam suas melodias fiéis
E tua beleza repousa por dentro de você mesma.
Olhe no espelho, baby.
Olhe no espelho, baby.
Temos que ficar em pé pra nós mesmos
Mesmo que o líder, tão frio, queira apenas glorificar a ele mesmo
Temos que ser fortes
Mesmo que nossos motivos pareçam errados...
Temos que não ligar
Mesmo que o mundo que conhecemos possa nem estar mais lá.
Espere aí. Está errado.
Até os pássaros ainda cantam suas melodias fiéis
E tua beleza repousa por dentro de você mesma.
Olhe no espelho, baby.
Olhe no espelho, baby...