O texto de hoje foi baseado no diálogo do filme abaixo, queria tratar da questão do medo que temos em nos mostrarmos às outras pessoas como realmente somos, e de como tudo seria mais interessante se a sinceridade desse as caras quando nos aproximássemos de alguém. A música não tem muita relação com o texto além do título, mas fazia algum tempo que queria postá-la aqui. Ficou famosa na voz do Ray Charles, mas essa interpretação da Jann Arden é mais melancólica, adequada aos dias nublados e frios das últimas semanas. Aproveito pra agradecer às pessoas que comentaram o texto do garçom Emerson, eu às vezes esqueço mesmo a sorte que tenho em ver pessoas especiais como vocês perdendo um pouco de tempo aqui de vez em quando. Queria agradecer em especial à Monica, que me enviou ontem um e-mail (de Portugal, pelo que deduzi) me apresentando a poesia do Eugênio de Andrade, que eu não conhecia. Monica, depois do teu e-mail já reli aquele poema diversas vezes, ele é de uma beleza e simplicidade sem fim. No próximo post quero compartilhá-lo com vocês. Quero ver se no próximo post consigo responder, também, à pergunta que a Carla me fez e que eu estou tentando achar uma resposta há quase 6 meses. Como terei aula esse final de semana todo e viajo na segunda, creio que só atualizarei o blog a partir da próxima sexta-feira. Um ótimo fim-de-semana a todos e Carpe Diem!
- Que tal pularmos esse papinho?
- O que?
- Pular esse papinho.Pular totalmente. O "Quem é você?", "Quem sou eu?" Eu tenho uma teoria de que quando você conhece alguém devemos ser totalmente honestos. É muito mais difícil sermos sinceros. Podemos ir pelo caminho mais fácil tipo "feliz aniversário", puro fingimento; mas podemos também ser honestos nesse momento, nos desnudar aqui e agora. Não quero ter que esperar 4 ou 5 anos pra dizer: ¿Mas eu não sabia disso¿.Eu estou te assustando, não é?
- Um pouquinho. Você é interessante e encantador, tem muita energia. Mas é um pouquinho assustador.
- Certo, aqui vai minha história. Acabei de me divorciar. Tive meu coração partido
por uma mulher que eu amava. Eu acho que nosso coração cresce depois que algo assim acontece. Sei que é duro passar pela dor e sofrimento, mas eu acho que temos que passar por isso para irmos para um lugar melhor. E você, o que te fez ficar triste? Vamos, você consegue. É só dizer a verdade. Seja honesta, o que tem a perder? Podemos apertar as mãos depois e ir embora sem nunca mais nos vermos.
- Tudo bem. Ele deixou de me amar. Não sei o que eu fiz ou deixei de fazer. Ele apenas deixou. Eu nunca disso isso em voz alta antes.
- Viu como foi ótimo? Fomos sinceros e agora podemos comer.
(diálogo entre Jake e Sarah em ¿Procura-se um amor que goste de cachorros¿)
A sinceridade que nos une
Muitos primeiros encontros assemelham-se a um teatro tamanha a preocupação em causar uma boa impressão aos olhos da outra pessoa. Tomamos cuidado com cada palavra, os gestos soam premeditados, tentamos mostrar apenas o lado bom que há em cada um de nós, o politicamente correto que garanta, ao menos, uma curiosidade do outro em conhecer-nos um pouco mais. Criamos uma desculpa interior aos nossos próprios fracassos sentimentais anteriores e pior, acreditamos nessa mentira. O círculo vicioso de desculpas vazias e justificativas lustra a aparência mas encobre, ao mesmo tempo, a parte mais importante: nossa sinceridade. Temos medo de expor fraquezas, mostrar o quanto somos volúveis, inconseqüentes, passíveis de erros de julgamento. O quanto somos normais. A preocupação em apresentar uma primeira impressão agradável que penetre nos recônditos da mente da outra pessoa e desperta nela o interesse por nós muitas vezes tem efeito contrário, assusta a outra pessoa ou banaliza nossa própria imagem. Ela não encontra identificação,um defeito onde possa dizer: ¿Puxa, eu também sou assim¿.
Uma das cenas mais interessantes de ¿Must Love Dogs¿ é aquela em que Jake pede a Sarah, durante o primeiro jantar entre eles, que, ao invés das apresentações costumeiras, ambos contem apenas a verdade acerca deles mesmos e de seus relacionamentos passados. A sinceridade assusta, nossa ou alheia. Ao invés de ¿Eu gosto de jazz, daquele seriado novo da Sony, spinning, yoga e faço uma ótima massagem¿ um ¿Sou teimoso, instável emocionalmente, não consigo me apegar a relacionamento algum e não sei o porquê disso, magoei muitas pessoas e só me apercebi depois do mal que as havia causado.¿ Os subterrâneos, não a superfície. Não acredito que a reação dos outros seria negativa. Expor a própria vulnerabilidade cria cumplicidade, algo em que a outra pessoa pode se identificar porque já passou pelos mesmos problemas e sabe que, no mundo dos relacionamentos reais, os finais sempre diferem daqueles que assistimos no cinema. Expor a verdade manda à outra pessoa uma mensagem inconsciente de esperança, de consciência das próprias limitações e a noção de que aprendeu com os erros passados e não deseja repeti-los com uma outra pessoa especial como a que se avizinha. O passado é sempre tão proveitoso justamente por isso: por mais que tenha nos trazido amargura, sofrimento e desesperança, trouxe a experiência na mesma medida; apurou o senso de orientação e escolha das pessoas certas, ligou aquele radar interior que logo identifica e afasta futuros relacionamentos que sabemos os caminhos que podem trilhar porque já conhecemos todas as rotas alternativas, atalhos e desvios.
A nudez dos sentimentos, a transparência completa é a melhor forma de apresentação, então? A mais justa, pelo menos. A que nos trará aborrecimentos porque eventualmente encontrará descrédito e afugentará incautos. Mas querem saber? Ficamos melhores sem pessoas que só querem os rótulos preconcebidos, as cartas marcadas, a superficialidade, o relacionamento padrão garantido e perfeito que logo evapora com as primeiras dificuldades. Não se trata de esconder o amor-próprio, omitir as virtudes, mas deixar que apareçam naturalmente, com a convivência. Um relacionamento com uma pessoa especial exige entrega desde a primeira troca de olhar. Não apenas entrega de paixão, de amor, essa nem é a mais importante. Amar é fácil, pessoas apaixonam-se todos os dias até por objetos. A entrega das vulnerabilidades, que essa sim requer coragem e esperança. Mas quem está disposto a isso hoje em dia?
Eu tinha que escrever ainda hoje sobre esse filme, que acabei de ver no cinema. Procura-se um Amor que Goste de Cachorros é um filme sobre primeiros encontros e segundas chances. Tem todos os elementos que as pessoas separadas (ou saídas dum relacionamento) encontram na vida real: os amigos tentando arrumar encontros mesmo que a pessoa não queira, a família palpitando, a pessoa certa na hora errada, a pessoa errada antes da pessoa certa, erros de julgamento causados pela carência e a certeza de que, sem um amor pra dividir nosso cotidiano, a vida não tem realmente um significado. Alguma identificação? :o)
Quero fazer um texto mais elaborado inspirado no filme até o final dessa semana, principalmente sobre um trecho especial dele. Hoje, entretanto, quero apenas reproduzir e comentar o poema que se encaixa e define perfeitamente o espírito do filme. Em uma festa, o pai de Sarah, a protagonista, declama o poema abaixo, que merece um post só dele. É um poema do Yeats (um dos meus poetas favoritos) escrito em 1910, que eu li pela primeira vez em 96 e tive a grata surpresa de reencontrar no filme.
Brown Penny William Butler Yeats
I whispered, 'I am too young,'
And then, 'I am old enough';
Wherefore I threw a penny
To find out if I might love.
'Go and love, go and love, young man,
If the lady be young and fair.'
Ah, penny, brown penny, brown penny,
I am looped in the loops of her hair.
O love is the crooked thing,
There is nobody wise enough
To find out all that is in it,
For he would be thinking of love
Till the stars had run away
And the shadows eaten the moon.
Ah, penny, brown penny, brown penny,
One cannot begin it too soon.
Moeda marrom
Eu suspirei: "sou jovem demais"
E depois: "já tenho idade suficiente";
Em todos os lugares em que joguei uma moeda
Para descobrir se deveria amar.
"Vá e ame, vá e ame, jovem rapaz,
Se a dama for nova e justa"
Ah moeda,moeda marrom,moeda marrom
Estou preso nos laços do cabelo dela.
O amor é coisa torta,
Não há ninguém esperto o suficiente
Pra descobrir tudo que nele existe,
Porque ele estaria pensando no amor
Até que as estrelas tivessem partido
E as sombras devorado a lua.
Ah moeda, moeda marrom, moeda marrom,
Ninguém começa cedo demais.
É um poema aberto a diversas interpretações, como toda obra do Yeats. A minha é a de que o amor é sempre atemporal e devemos correr riscos ao invés de tentar entender seus motivos.A moeda representa nossas tentativas de encontrar o amor vida afora. Nunca sabemos se estamos na fase de vida certa pra receber um amor especial, uma alma-gêmea. Na verdade, isso pouco importa. Esquecemos que o amor não está nem aí pra essas divagações: ele aparece quando menos o desejamos, foge quando mais carentes nos encontramos, é sempre inconstante. A última estrofe nos incita a pensar menos e arriscar mais porque nunca chegaremos a uma conclusão definitiva, e, enquanto divagamos, perdemos algumas chances de nos apaixonarmos. O "nova e justa" não se refere a uma pessoa jovem fisicamente, mas lembra que devemos entregar nosso amor a pessoas que valham a pena, que nos completem, e não a qualquer uma. O poema nos manda jogar a moeda (correr riscos) na fonte e acreditarmos sempre que é lá que nosso sonho, nosso projeto de vida, estará. A indecisão e a incerteza sempre estarão presentes, mas o que importa mesmo é saber que um verdadeiro amor nunca escolhe hora pra chegar. Então, que joguemos nossas moedas pra descobrir logo o que virá em troca delas.
Às vezes nos deparamos com pequenas surpresas que acabam mudando tudo que havíamos planejado, e os responsáveis por isso acabam nem se apercebendo do bem que nos fizeram. Eu queria compartilhar uma história com vocês que acabou de me acontecer. Eu estava um pouco cansado da vida de blogueiro e até de poeta, por uma série de motivos, a maioria pessoais. O tempo sem atualizar é a prova disso. Pensava mesmo em escrever um post anunciando o fim do blog e dar um tempo nos textos e poemas, me sentia mais à vontade ultimamente trabalhando que escrevendo.
Hoje à noite aconteceu o relançamento do meu livro, Flores na Janela, numa feira literária aqui da minha cidade, a Literamérica. O editor havia me convidado pela oportunidade, e eu, é claro, topei. Fiquei muito contente pela presença dos amigos, alguns até compraram o livro novamente, e pelos anônimos que se interessaram pelo livro, as vendas foram boas. Mas uma dessas pessoas, sem saber, acabou fazendo toda a diferença.
Logo que cheguei, uma das proprietárias da editora veio me contar uma história sobre um garçom que aparecia no stand da editora todos os dias desde o início da feira, antes de começar a trabalhar, e cada dia lia um pouco do meu livro. Ela achou curioso aquilo e o abordou ontem. Ele disse a ela que estava juntando dinheiro das gorjetas pra poder comprar meu livro, porque o salário ele tinha que levar pra sustentar a família. Eu, é claro, fiquei tocado e surpreso, mas achei que havia um pouco de exagero na história. No final da noite de autógrafos, mais de 10 da noite, a feira já vazia, o garçom aparece. Margareth( a sócia da editora) me apresenta a ele, que me confirmou a história. Emerson é uma pessoa muito simples e simpática. Disse que havia se identificado com os textos, que eles o fizeram lembrar de muitas coisas, citou alguns poemas que tinha gostado, fez alguns elogios imerecidos. No final, tirou do bolso, todo contente, 10 notas amassadas de R$ 1,00 e algumas moedas, dizendo que só aquela hora havia conseguido juntar o suficiente em gorjetas pra comprar o livro, queria dá-lo de presente à esposa. É claro que eu não deixei que ele comprasse, peguei um e dei de presente a ele pra que entregasse à esposa. Não gosto muito de chavões, mas o bem que ele me fez, sem saber, não haverá dinheiro que pague. Nunca. Ao Emerson, então, meu eterno agradecimento por me lembrar de como é bom saber que alguém, mesmo que uma única pessoa, gosta daquilo que fazemos, e não temos o direito de decepcionar essa pessoa. O blog continuará. Um excelente final de semana àqueles que ainda eventualmente visitam o blog. Carpe Diem.