(ao som de ¿Nightswimming¿, acoustic by REM)
Texto e comentários mais curtos, estou tentando ser mais conciso. Quis tratar do assunto da famosa espera que angustia e do momento em que alguém aparece pra nos resgatar do marasmo e dar sentido à idéia de que ninguém nasceu pra viver sozinho. Sexta volto com um texto novo e o convite pro lançamento do livro.
Outro dia estava teclando com uma amiga pelo Messenger e ela me perguntava o porquê de eu gostar tanto do REM, já que ela não via tanta graça assim nas músicas do grupo. Respondi algo relacionado à identificação com as letras, além das melodias. Ontem estava uma madrugada bem abafada e quente aqui na minha cidade (pra variar),e eu resolvi sair do quarto pra nadar e pensar um pouco na vida. A letra anexa foi testemunha do que acontece a algumas pessoas nessas horas, e a noite estava bem tranqüila. Era a isso que me referia, Cláudia, quando falei em identificação. Carpe Diem.
O resgate
Desde pequenos esperamos pelo resgate. As moças, Rapunzéis, são ensinadas a deixarem as tranças estendidas à janela do destino esperando pelo Príncipe Encantado que, um belo dia, aparecerá pra escalar a torre e libertá-las pro sonho.. Nós, homens, aprendemos que um dia Cinderela vem, quando menos esperarmos, pedindo pelo sapato perdido há muito tempo numa esquina solitária qualquer, a mesma esquina em que o encontramos e guardamos desde então à espera da dona. Algumas pessoas se prendem em sonhos comuns, encontram pessoas comuns, têm relacionamentos comuns e são felizes à sua própria maneira. Até o dia em que acordam, muitos anos depois, e descobrem que o comum que lhes foi ensinado não era aquele que lhes pertencia, o inato, então partem numa correria desenfreada em busca do tempo, da juventude, e, muitas vezes, de uma vida, perdidos num momento em que disseram um ¿sim¿ por conveniência ou cansaço da alma. Não, isso não é uma apologia aos amores bandidos e entregas inconseqüentes, mas à descoberta da própria noção de felicidade predestinada a cada um.
Há pessoas que vêem em cada semblante alheio a fisionomia de quem lhes salvará da rotina no castelo ou do sapato escondido no sobretudo. De entrega em entrega acabam rotulando o destino como insolente e cruel, até que decidem fechar, por tempo indeterminado, as janelas da alma. Quando, geralmente, mais próximas estavam do resgate derradeiro. Há um terceiro tipo, o das arrogantes e dissimuladas (e me incluo nessa), que se escondem numa aura de amor-próprio e apego à solidão. Decidem que apenas se entregarão a pessoas que se encaixem nos pré-requisitos que elaboraram, geralmente aqueles ligados à inteligência, bom-humor e identificação. Adoram falar que são donos de si, que aprenderam a conviver com a própria companhia, mas quando bate aquele vento gelado de outono... A máscara afrouxa e admitem que fariam qualquer coisa pra estarem ao lado de alguém que lhes aqueça o coração, e que se danem os pré-requisitos. Esses são aqueles que esperam, esperam, e esperam. Nisso, pelo menos, o amor-próprio fez algum bem. Teimosa, a esperança que carregam não desiste fácil assim.
Se alguém encontrou a fórmula mágica de vislumbrar o momento do resgate, aviso que cubro qualquer oferta. Mesmo, basta abrir o preço. A espera angustia porque carrega todos aqueles fantasmas de pessimismo, desilusão e utopia. Cansa. Então olhamos as opções que nos restam e escolhemos perseverar por simples falta de uma alternativa mais razoável: clichês à parte, ninguém nasceu pra viver sozinho. E quando ele vem e não reconhecemos a fisionomia da pessoa? Ah, que me desculpem aqueles que têm essa dúvida, mas nós sabemos, sim. Sempre. As nossas Cinderelas ou os Príncipes Encantados das moças não têm o ponto luminoso no ombro, mas a identificação não tarda. Desmistificam de cara a idéia da perfeição, fazendo com que nos identifiquemos justamente nos defeitos que possuem. E como adoramos esses pontos de encontro, saber que podemos alcançá-las até nisso. A cumplicidade vem dar a sentença final, a certeza de que sapatos podem ser devolvidos ou madeixas atiradas, que essa pessoa dará conta do recado.
Resgate consumado? De forma alguma, a dificuldade só aumenta. Entre brigas, incertezas e questionamentos interiores do relacionamento que se aprofunda, cresce o sentimento de posse transitória. Lembramos que há muitas Rapunzéis a serem resgatadas e muitos Príncipes disponíveis no mercado, e passamos o resto da vida a tentar convencer a outra pessoa que nós, sim, somos o derradeiro resgate. Mais tarde descobrimos que o resgate foi duplo, desempenhamos o mesmo papel na vida daquela pessoa, e a felicidade, enfim, está consumada. Mas dessa parte final eu só conheço a teoria, e o vento de outono anda forte como nunca nos últimos dias.
Esse post não poderia começar de outra maneira que não fosse um agradecimento a duas pessoas muito especiais, e coincidentemente ambas de Porto Alegre. A Liana, que me mandou um e-mail muito engraçado e cheio de elogios (estou rindo até agora de ter sido chamado de "Martha Medeiros de calças") , daqueles que você tem que guardar pra ler nos dias em que se sentir desmotivado. Liana, receber e-mails como esses dois que você me mandou entram naquela área do "fazer tudo valer a pena" que me referi na resposta que te enviei. A outra surpresa veio da Carla, que deve ter perdido um bom par de horas fazendo o arquivo em flash que me mandou hoje com os motivos que eu tenho pra conhecer Porto Alegre. Se eu já tinha a idéia fixa de conhecer a cidade antes, agora então está perto da obsessão. Adorei também as fotos do pôr-do-sol em Porto Alegre, só não coloco aqui pelo tamanho delas. Tudo isso me surpreendeu e animou de uma maneira que vocês duas não imaginam, principalmente pela semana complicada que passei.
O livro já está à venda pra quem mora fora da minha cidade (Cuiabá), quem mora aqui só depois do lançamento oficial. Coloquei o link pro site da editora no menu à direita. Se alguém se interessar é só acessar, preencher o formulário que a editora entra em contato pra definir forma de pagamento e envio. O livro custa, pelo site, R$ 20,00 (mais despesas de envio), achei que ficou um preço razoável. No resumo do site há um sumário de todos os textos e poemas que estão lá. Os textos que passei do blog pro livro são os que têm o mesmo nome. Depois do lançamento, dia 07 de outubro (no próximo post coloco o convite aqui), ele vai estar à venda em algumas outras livrarias que também vendem pela net. Essa semana estarei enviando os exemplares que prometi às pessoas que, de forma direta ou indireta, contribuíram pra que ele virasse realidade. Já estou trabalhando no projeto novo, que mencionei alguns posts atrás, nessa sexta começam as aulas de italiano. (Vou ser colega de classe da minha amiga Puella.) As poucas horas livres vão ficar menores ainda, mas o blog não vai ficar abandonado.
Sobre o texto, esse é um dos assuntos que mais me incomodam no amor e que sempre quis abordar desde que criei o blog. Achei que seria uma espécie de mea culpa, mas acabei descobrindo que não sou o único a ter dificuldades em lidar com isso. A música é a minha preferida do Lifehouse, voltei a escutar muito na última semana.
O maior dos pecados
Minha noção de um relacionamento ideal passa longe de pessoas com idéias comuns, estilos de vida semelhantes, as famosas coincidências e semelhanças que muitos confundem com amor. Tampouco a idéia dos opostos que se atraem soa plausível; o amor não se apega em estilos de vida, precisa de mais que isso pra sobreviver. Um relacionamento ideal é aquele em que ambos, além de entregarem toda sua vulnerabilidade ao outro, sabem lidar com o frágil pacote que recebem. Não se acomodam na certeza do amor retribuído, porque sabem que, assim como nos negócios, o amor precisa ser cuidado, reavaliado e modificado constantemente. Na inércia acabam não acompanhando o ritmo do outro, acomodam-se na certeza, no garantido, e ai começa a derrocada. Amar exige empenho, sempre.
O maior pecado do amor é não saber lidar com a segurança que proporciona um amor que nos é entregue sem expectativas. Amar é fácil, qualquer um ama. Amamos coisas, pessoas, idéias, times de futebol, animais, praticamente tudo que se interpõe à imaginação. Embora raro, amamos perdulariamente, também. Aquele amor inocente e sonhador que não está preocupado em receber, quer apenas dar, mostrar à outra pessoa e ao mundo o bem que fazem por simplesmente existirem. E quando, ao invés de dar, nós recebemos um amor assim? Você conhece a pessoa e tudo acontece de maneira tão rápida que chega a assustar. Recebe, de forma ingênua e sincera, o pacote fechadinho e embrulhado pra presente. Abre e descobre nele o que sempre esperou encontrar em alguém. Não fisicamente, que suas próprias preferências mudam com o tempo, mas a outra beleza, a imune às rugas, gravidade e contas a pagar. Pisca os olhos e todo amor que aquela pessoa tem pra dar está lá, em suas mãos, escorrendo pelos dedos. Despejado de uma só vez, como se dissesse: "Toma, eu sou tudo que está aqui dentro e quero entregar a você, pra que cuide e faça o que quiser de mim, porque eu confio em você."
Há pessoas que vivem de desafios sentimentais. Tão logo sentem que o amor presente lhes pertence, passam a pensar na vítima seguinte. Abutres dos sentimentos, vagam de relação em relação destruindo cada uma assim que a têm entregue a seus pés. Acreditam que um dia chegará aquela que os fará desistir da aventura, pra poderem, finalmente, permanecer. A ironia vem do fato de que essas pessoas que produzem esse pressentimento de eternidade nunca são aquelas que entregam seu amor de maneira gratuita. Nós somos esses abutres em muitos períodos da vida.
Amar, então, é uma eterna brincadeira de esconder e revelar emoções no tempo certo? Uma dúvida aqui pra que o outro não se acomode, uma demonstração de afeto à frente pra transmitir segurança. Só um pouco, é verdade, porque logo depois vem mais uma palavra com duplo sentido, um questionamento fora de hora, apenas pra confundir. Não deveria, mas essa idéia de jogo acontece. Pior, funciona. Estufamos o peito pra dizer que detestamos joguinhos no amor mas caímos em contradição quando nos atiram na cara que, muitas vezes, estamos fazendo exatamente o que abominamos nos outros. Qual a saída, o comportamento correto? Eu não tenho a resposta, e posso destilar uma série de argumentos contrários a quem achar que as tenha.. Cada pessoa com quem nos envolvemos carrega um pequeno universo particular a ser abordado, explorado e entendido, até que consigamos achar o liame que nos ligará àquela existência. Adaptação; se é que existe uma resposta, tem que passar por essa palavra. Adaptação esbarra em mudança interior, que por sua vez passa pelo perigoso caminho de vir a tornar-se algo diferente da nossa própria natureza humana, o que também colocaria tudo abaixo. Ninguém quer se relacionar com pessoas sem convicção nem identidade própria.
A solução é parar de perguntar, de tentar emparedar o amor pra tirar dele suas nuances e peculiaridades. Trazê-lo à simplicidade que deveria ter. Voltamos à questão inicial, ao ponto máximo da simplicidade: entregar, receber e saber lidar com um amor expresso que transmita toda a segurança que sonhamos ter. Qual o problema então? O problema é que eu não sei lidar com isso, você não sabe, nenhum parente distante, tampouco ninguém do seu círculo de amizades. Vez ou outra aparece um casal que aparenta ter a fórmula mágica, a solução do enigma. Mas eles não contam o segredo, nem sob tortura.
Breathing Lifehouse
I'm finding my way back to sanity again
Though I don't really know what
I'm gonna do when I get there
Take a breath and hold on tight
Spin around one more time
And gracefully fall back to the arms of grace
'Cause I am hanging on every word you say
And even if you don't want to speak tonight
That's alright, alright with me
'Cause I want nothing more than to
Sit outside Heaven's door
and listen to you breathing
Is where I want to be, yeah...
Where I wanna be...
I'm looking past the shadows
In my mind into the truth and I'm
Trying to identify
The voices in my head
God, which one is you?
Let me feel one more time
What it feels like to feel
And break these calluses off of me
One more time
I don't want a thing from you
Bet you're tired of me, waiting
For the scraps to fall
Off of your table to the ground
'Cause I just want to be here now
'Cause I am hanging on every word you say
And even if you don't want to speak tonight
That's alright, alright with me
'Cause I want nothing more than to
Sit outside Heaven's door
and listen to you breathing
Is where I want to be, yeah...
Where I wanna be...
Where I wanna be...
Where I wanna be...
Respirando
Estou encontrando meu caminho de volta à sanidade novamente
Embora eu realmente não saiba o que
Irei fazer quando chegar lá.
Puxar o ar e segurar com força
Dar um giro por aí mais uma vez
E graciosamente cair de volta nos braços da misericórdia.
Porque estou me apoiando em cada palavra que você diz
E mesmo que você não queira falar essa noite
Está tudo bem, tudo bem comigo.
Porque eu quero nada mais que
Me sentar do lado de fora das portas do Céu
E te escutar respirando
É onde eu quero estar, sim...
Onde quero estar...
Estou olhando acima das sombras
Em minha mente através da verdade e estou
Tentando identificar
As vozes em minha cabeça
Deus, qual delas é você?
Deixe-me sentir mais uma vez
Qual a sensação de sentir
E arrancar de mim esses calos
Mais uma vez
Não quero nada de você,
Aposto que está cansada de mim, esperando
As migalhas cairem
Da sua mesa para o chão.
Porque eu só quero estar aqui agora...
Porque estou me apoiando em cada palavra que você diz
E mesmo que você não queira falar essa noite
Está tudo bem, tudo bem comigo.
Porque eu quero nada mais que
Me sentar do lado de fora das portas do Céu
E te escutar respirando
É onde eu quero estar, sim...
Onde quero estar...
Há algum tempo queria escrever sobre a inveja sadia que tenho das pessoas que já passaram por grandes desilusões amorosas na vida, tentei então no texto abaixo dar formas ao que penso a respeito. Aproveito pra pedir desculpas às pessoas com quem costumo conversar nas madrugadas da vida pelo messenger, mas esse final de semana foi atípico porque não achei que seria boa companhia. Todos temos nossos momentos introspectivos vez ou outra, o meu foi nesse final de semana. É engraçado também como alguns amigos e conhecidos percebem esse tipo de mudança de comportamento, e sabem a hora exata de nos massagear o ego. Obrigado àquelas pessoas que fizeram esse papel comigo, um elogio sincero funciona mais que qualquer curso motivacional. Obrigado também àquelas pessoas que me mandam e-mails e deixam scraps no Orkut mencionando o blog, eu sempre me surpreendo com esse tipo de mensagem. Falando em surpresa, a comunidade do Amor no Orkut passou dos 4000 membros hoje, reparei que algumas pessoas que sempre deixam recados aqui também estão lá, obrigado a vocês também pela participação. Estou aproveitando muitas das discussões como temas pra futuros textos, a comunidade já tomou vida própria por causa do número de pessoas, então minha função agora é de apenas controlar os excessos e apagar mensagens repetidas. A editora me informou que o lançamento do livro foi confirmado pro dia 07 de outubro no Sesc Arsenal (aqui na minha cidade). Acho que a partir da semana que vem a editora já vai estar vendendo através do site pra quem morar fora daqui, quem morar em Cuiabá vai ter que ir ao lançamento, principalmente os que costumam deixar recados no blog! Faço questão de agradecer pessoalmente. Depois do lançamento o livro vai estar à venda nas livrarias da rede Adeptus em MT, além do site da editora e talvez a livraria Cultura(ainda não obtivemos resposta deles). Quando houver confirmação eu coloco toda a info no blog.Desde semana passada consegui uma conta do g-mail e tenho 5 convites pra distribuir a quem se interessar, é só me mandar um mail lá que eu envio o convite. Pra quem não conhece, o g-mail é o mail gratuito do google que dá 1 Giga de espaço livre (que diferença pros 2 Mb do hotmail, hein?), além de uma série de outras vantagens.Dá pra ficar uma década sem precisar apagar e-mails. Só que, assim como o orkut, você só consegue uma conta se receber o convite de alguém que já possua uma. Aproveito pra pedir às pessoas que costumam me enviar mails que troquem meu endereço pra esse aqui, com o tempo quero descontinuar os outros e deixar só esse. A letra de música é da minha cantora preferida, a Macy Gray. Fazia parte do seriado Miss Match, que não passou da primeira temporada e acabou. O problema é que, como é uma gravação não oficial e rara da Macy, não existe a letra dessa música na net (fiquei 3 dias procurando), então tive que tirar de ouvido a partir do mp3, e já me desculpo por algum eventual erro. Qualquer coisa me avisem que eu corrijo. Escolhi essa porque, além de ser fã da Macy, o refrão combina muito com meu momento de agora. Palpite. Bom começo de semana a todos e Carpe Diem!
Os fazedores de chuva
"As pessoas feridas são perigosas. Elas sabem que podem sobreviver." (Juliette Binoche no filme Perdas e Danos)
Eu tenho uma inveja danada das pessoas que já sofreram por amor. Mesmo. Não um sofrimento qualquer, evidentemente, mas aquelas histórias de amor que fazem jus à denominação, aos exemplos abstratos como a entrega de Julieta, a espera de Guinevère ou a loucura desenfreada de Ophelia . Não uma decepçãozinha cotidiana de algum amor platônico ou mal-resolvido, mas aquela outra; a que dilacera o peito, a alma, o senso de orientação. A que, ao final, o que resta é um suspiro de alívio engasgado na certeza de que o amor não se fará mais presente. O amor que asfixia lentamente até que se apercebam que o esforço é inútil, a dor consentida, o suicídio da esperança - que teimam em cometer - temporário.
Pessoas que passaram por um grande amor, e uma conseqüente grande decepção pela perda, são as mais lúcidas nos assuntos do coração, porque já conheceram o fundo do poço e retornaram, e sabem o quão doloroso é o caminho de volta. Conhecem os atalhos e desvios a tomar porque aprenderam da maneira mais difícil: fazendo escolhas imprecisas, tomando as decisões erradas, perdendo o timing de dizer a coisa certa no momento adequado, deixando o destino e o tempo escolherem a rota à frente. A percepção de tempo que têm é segura, sabem a hora exata de dizer que ficam, de demonstrar dúvida, de entregar a vulnerabilidade que guardam, de abandonar o novo relacionamento ante um palpite. Não costumam errar nos palpites, no sexto sentido, aprenderam a refutar de início o que não lhes interessa e centrar atenção nas pessoas especiais, nas que fazem diferença. Dão muito valor ao amor-próprio, também. Lembram com clareza que, quando a corda lhes foi jogada pra que emergissem ao mundo real, o amor-próprio era a estaca fincada no chão a segurar a corda. Decepções comuns trazem depressão, passividade, sentimento de impotência ante o universo. Grandes sofrimentos vão além, estreitam a linha que separa dor da crença num futuro plausível. O destino nem sempre é plausível, descobrem. A palma da mão esfria, o coração esfria e a alma, intermitente, hiberna. Nessa prostração indefinida cria-se o casulo que vai lhes acompanhar pela eternidade, nascem as asas com os sensores aguçados, ativa-se o radar dos amores possíveis . A pessoa, enfim, amadurece.
Se os casais apaixonados vivem sob uma terna chuva de sonhos e castelos repletos de desejos e sentimentos expressos, os sobreviventes de um grande amor pairam acima das nuvens carregadas. Como já estiveram abaixo delas sorvendo toda estupefação das gotas que escorriam pelo corpo, anunciando a paixão presente, agora dão-se o privilégio de preparar o próprio temporal. São os fazedores da chuva, controlam a intensidade das águas, alternam entre o guarda-chuva aberto e o banho despudorado de braços abertos num chão barrento. A sensação de liberdade contrasta com a melancolia do rosto marcado de cicatrizes internas, que não desaparecem. Perduram como sinais de advertência, lanterna apontando o horizonte, lembrança de um passado que, embora ausente, pode dar as caras novamente a qualquer instante, mesmo disfarçado numa (aparentemente) nova relação. Não têm mais heróis, imagens no pedestal, crenças eternas. A idéia da Alma Gêmea não acabou, mas fragmentou-se em múltiplas esperanças. Já tiveram o encontro com uma das tampas da panela, e... Ah! Como esperam pela próxima, mais presente, mais intensa ainda, mais real, que machuque mais que a anterior mas que traga todo o resto do pacote incluído. Os travesseiros em que repousam a cabeça, toda noite, são recheados não de penas ou espuma, mas dessas pequenas esperanças.
Minha inveja das pessoas marcadas por um grande amor é autêntica, mas não masoquista. Não anseio o sofrimento tampouco a infelicidade no amor de ninguém, mas se tivesse a oportunidade de ter que escolher entre uma pessoa vinda dessas grandes decepções e outra pura, inocente e casta nas experiências vividas, não hesitaria em tomar a primeira. As segundas geralmente são escolhidas por nós, enquanto que as primeiras não, elas nos escolhem. Observam, pacientes e dissimuladas, até o instante de pousar suas raízes em nosso destino. Preparam com delicadas mãos a chuva que atingirá a existência de ambos. Resta a nós, os escolhidos, apenas entregar o amor numa retribuição que cura, apaga cicatrizes e reinventa o destino, torcendo pra que essa chuva, ao menos essa, perdure.
Love Is Gonna Get You (Theme from Miss Match)
I want to, want to be with you,
but I'm working night and day.
I came all this way to see you
and you tell me you need space.
See, everyone I've known is compatible
with somebody I know.
I can never get it right,
and I don't know where to go.
Stay away from me
Don't you ever leave me alone, no!
Love is gonna get you, baby.
Someday, one day,
it will be a good love that gets me.
Love is gonna get you, baby.
Someday, one day,I will find
somebody for me.
I have talked to all the experts
All the psychcs of love
I have prayed for all the answers
to the king of love above
And they all say it's unanimous,
There's somebody for me.
But none of them will tell me where she is
Where she might be
I want to be with you
I just want to be alone,oh!
Love is gonna get you, baby.
Someday, one day,
it will be a good love that gets me.
Love is gonna get you, baby.
Someday, one day,I will find
somebody for me.
I believe in destiny
I believe in symmetry
All been saved with your kiss
But all my past will lay down
From saying I'm looking greater
Won't you, won't you just save me with your kiss?
Save me with your kiss
Love is gonna get you, baby.
Someday, one day,
it will be a good love that gets me.
Love is gonna get you, baby.
Someday, one day,I will find
somebody for me.
O amor vai te pegar
Eu quero, quero estar com você,
mas estou trabalhando dia e noite.
Vim por todo esse caminho pra te ver,
e você me diz que precisa de espaço.
Olhe, todo mundo que já conheci é compatível
com alguém que conheço.
Eu nunca consigo acertar,
E não sei pra onde ir.
Fique longe de mim,
Nunca me deixe sozinho, não!
O amor vai te pegar,baby.
Algum dia, um dia,
Será um bom amor que me pegará.
O amor vai te pegar,baby.
Algum dia, um dia, eu encontrarei
alguém pra mim.
Já falei com todos os experts,
Todos os psiquiatras do amor.
Rezei por todas as respostas
para os deuses do amor lá de cima.
E todos eles dizem que é unânime,
Existe alguém pra mim.
Mas nenhum deles me dirá onde ela está,
Onde ela possa estar.
Eu quero estar com você
Eu só quero ficar sozinho, oh!
O amor vai te pegar,baby.
Algum dia, um dia,
Será um bom amor que me pegará.
O amor vai te pegar,baby.
Algum dia, um dia, eu encontrarei
alguém pra mim.
Eu acredito em destino,
Eu acredito em simetria,
Tudo que já foi resgatado em teu beijo.
Mas todo meu passado vai se recusar
A dizer que pareço melhor.
Será que você, você não irá me salvar com teu beijo?
Salve-me com teu beijo.
O amor vai te pegar,baby.
Algum dia, um dia,
Será um bom amor que me pegará.
O amor vai te pegar,baby.
Algum dia, um dia, eu encontrarei
alguém pra mim.
O texto de hoje veio em decorrência do trecho de filme que transcrevi abaixo, o mesmo que motivou o texto anterior. No diálogo, Alie se vê dividida entre o amor de duas pessoas e tem que optar por um dos dois. Noah, ao final, pede que escolha com o coração, e não apenas tome o caminho mais fácil. O texto é exatamente sobre isso, sobre o caminho mais fácil que muitas vezes optamos em seguir por conveniência.. Resolvi mudar um pouco e colocar um dos meus poemas preferidos, e um dos mais conhecidos da literatura americana, do Robert Frost, que trata exatamente sobre o mesmo assunto: a diferença entre optar pelo caminho menos movimentado. Como minhas aulas de pós desse final de semana foram canceladas,até domingo eu atualizo o blog novamente. Hoje recebi os exemplares do livro a que tenho direito, amanhã começo a enviar às pessoas de fora daqui que ajudaram no projeto e não poderão vir ao lançamento(que ainda não foi marcado,até a próxima sexta eu informo a data e o local aqui). O livro, a pedido meu, ainda não está à venda, quero que isso aconteça somente depois do lançamento, não abro mão da presença dos amigos e das pessoas que ajudaram a colocar as flores na janela. Bom início de feriado a todos e Carpe Diem!
-Would you just stay with me?
- Stay with you? What for? Look at us, we're already fighting!
- Well that's what we do, we fight... You tell me when I am being an arrogant son of a bitch and I tell you when you are a pain in the ass. Which you are, 99% of the time. I'm not afraid to hurt your feelings. You have like a 2 second rebound, then you do the next pain-in-the-ass thing.
- So what?
- So it's not gonna be easy. It's gonna be really hard. We're gonna have to work at this every day, but I want to do that because I want you. I want all of you, for ever, you and me, every day. Will you do something for me, please? Just picture your life for me? 30 years from now, 40 years from now? What's it look like? If it's with that guy, go. Go! I lost you once, I think I can do it again. If that's what you really wanted. But don't you take the easy way out.
-Você poderia simplesmente ficar comigo?
-Ficar com você? Para que? Olhe pra nós, já estamos brigando!
-Bem, é o que nós fazemos, nós brigamos... Você me diz quando eu estou sendo um filha da mãe arrogante e eu te digo quando você está sendo uma babaca. O que você é 99% do tempo. Eu não estou com medo de machucar seus sentimentos. Você me rebate em 2 segundos, então você faz a próxima babaquice.
-E daí?
-Daí que não vai ser fácil. Vai ser realmente difícil. Nós teremos que trabalhar nisso todos os dias, mas eu quero fazer isso porque eu quero você. Quero tudo de você, pra sempre, você e eu, todos os dias. Pode fazer algo por mim, por favor? Apenas imagine sua vida pra mim? 30 anos a partir de agora, 40 anos a partir de agora. Como ela é? Se é com aquele cara, vá embora. Vá! Já te perdi uma vez, acho que posso fazer isso de novo, se é o que você realmente quer. Mas não tome o caminho mais fácil.
(Diálogo entre Noah e Allie em Diário de uma Paixão (The Notebook) )
O Caminho mais fácil
Há alguns momentos peculiares em nossa vida em que tomamos uma determinada direção,muitas vezes sem perceber, e mudamos, definitivamente, o rumo a que estávamos predestinados. O engraçado (e triste) é que só nos apercebemos desses momentos muito tempo depois, quando,ao analisarmos o motivo de alguma infelicidade ou infortúnio, paramos num estalo atentando à constatação: "Foi ali que tudo começou".
Os caminhos, sempre eles a exigir uma escolha. Uma proposta profissional leva a uma encruzilhada, um dilema moral a outra, uma questão amorosa pode abrir diversas trilhas, mas uma, apenas uma, tem que ser a escolhida. A maioria opta pelo comodismo nas questões do amor, pelo caminho mais fácil. Escolher o caminho mais fácil significa tomar a rota mais plausível, mais politicamente correta, a que trará menos infortúnios e questionamentos das pessoas ao redor. Muitos desses caminhos realmente revelam-se os melhores ao longo do tempo, após uma análise fria. O problema acontece quando o caminho mais fácil não é aquele que o coração aconselha. O coração, surdo às pressões externas, dificilmente opta pelo óbvio. Um dia chega e nos avisa que cansou do amor presente, pede uma troca. Caminhos. Noutra vez, num gesto altruísta, avisa o amor-próprio que aquela paixão momentânea não está fazendo bem a ele, e, mesmo contrariado, pede que partamos. Caminhos. Há, é claro, o abandono inesperado, o fim proporcionado pela outra pessoa, então o caminho torna-se de mão única, não há o que barganhar. Há caminhos mais sinuosos onde o coração não nos aponta uma direção clara, dá apenas um palpite irresponsável, e a responsabilidade da decisão desaba sobre nossa cabeça.
Tomar o caminho mais fácil contrariando o coração carrega junto a pergunta que nos acompanhará pela eternidade, o famoso "O que teria acontecido se...". Ao optarmos por um amor mais ¿seguro¿ corremos o risco de, décadas depois, percebermos que o caminho escolhido trouxe estabilidade, segurança, uma certa ternura, sucesso profissional e financeiro. Tudo, menos felicidade. O coração nunca mais palpitou, as noites chuvosas tornaram-se não apenas chuvosas,mas instantes de recordação. E, vivendo dum passado que negligenciamos, o presente não tem como fazer-se melhor. Tomar o caminho mais fácil não requer coragem tampouco riscos desnecessários, mas quem realmente quer uma vida previsível? E o inusitado, a surpresa, o que chegou sem anúncio? Tomar o caminho mais fácil é pintar as cores da alma no mesmo tom da sociedade ao redor, só que há pessoas que nasceram pra ser diferentes. Há aquelas que não querem o anil do lugar onde se encontram, preferem uma alma colorida, multiforme, sem um tom que se encaixe numa definição. Querem aproveitar e pintar a alma de todas as tonalidades possíveis até que descubram a que melhor se adapta à silhueta.
Optar pelo caminho mais difícil não quer dizer, também, optar pelo caminho correto. Ceder a um rompante emocional pode trazer dor, incerteza e arrependimento. A paz de espírito obtida quando esse caminho se mostra o correto, entretanto, vale todo o risco e o preço pelas escolhas erradas de antes. Uma pessoa, ao recolher os próprios fragmentos de décadas anteriores, imerge em lembranças que remetem às escolhas que foi obrigada a fazer, consegue delinear claramente os caminhos fáceis e difíceis que teve que adentrar até aquele instante. Uns mais importantes que outros, cerca de um ou dois fundamentais, que mudaram o curso. Um caminho fácil às vezes leva a uma vida de realização profissional, um casamento longo, filhos e amigos. Difícil mesmo é constatar que tudo isso poderia ser trocado pela incerteza do outro caminho, o que não ousou tomar, aquele que levava à volúpia, à paixão, ao instinto de que a felicidade se encontraria no canto duma alma batalhadora mas em paz consigo mesma. É por isso que os caminhos fáceis me aterrorizam, a sensação de covardia de espírito forma névoa na esperança duma vida sem arrependimentos. Algumas poucas pessoas optam pelo lamaçal, pelas trincheiras, pelo desconhecido, mas pelo que lhes ilumina por dentro, o caminho que acende, que faz viver, que sussurra: "Não importa o que aconteça, é aqui que o amor se encontra e vai te socorrer ao final de tudo." A simplicidade do caminho mais fácil nos dá a segurança, mas quem quer saber dela ao avistar um par de olhos que se enredam pela outra trilha? Se o amor nos guia, as estradas que tomamos dificilmente serão as menos movimentadas. E amor não combina com vidas previsíveis, destinos planejados, vida de aparências e caminhos fáceis.
The Road Not Taken Robert Frost
Two roads diverged in a yellow wood,
And sorry I could not travel both
And be one traveler, long I stood
And looked down one as far as I could
To where it bent in the undergrowth;
Then took the other, as just as fair,
And having perhaps the better claim,
Because it was grassy and wanted wear;
Though as for that the passing there
Had worn them really about the same,
And both that morning equally lay
In leaves no step had trodden black.
Oh, I kept the first for another day!
Yet knowing how way leads on to way,
I doubted if I should ever come back.
I shall be telling this with a sigh
Somewhere ages and ages hence:
Two roads diverged in a wood, and I -
I took the one less traveled by,
And that has made all the difference.
A estrada que não tomei Robert Frost
Duas estradas num bosque amarelo divergiam;
Triste por não poder seguir as duas
Sendo um só viajante,muito tempo parei
Olhando uma delas,até onde podia alcançar,
Pois,atrás das moitas,ela dobrava.
Então tomei a outra que me pareceu de igual beleza,
Uma vantagem talvez oferecendo
Por ser cheia de grama,querendo ser pisada;
Embora nesse ponto o estado fosse o mesmo
E uma,como a outra,tivesse sido usada.
E naquela manhã todas duas tinham
Folhas ainda não escurecidas pelos passos
Ora! Guardei a primeira para um outro dia!
Mas sabendo como uma estrada leva a outra,
Duvidei poder um dia voltar!
Contarei esta estória suspirando,
Daqui a séculos e séculos em algum outro lugar:
Duas estradas,num bosque,divergiam;e eu
Tomei a que era menos freqüentada;
E foi isso a razão de toda a diferença!