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7/23/2004
(ao som de ¿Somewhere out there¿, live by Our Lady Peace)

Estava com um texto quase pronto pra postar aqui que questionava se realmente aprendemos a amar durante a vida, e de repente me peguei escrevendo o que segue abaixo ao ouvir a música que também vai anexa. Achei melhor colocar esse texto primeiro, já que veio mais espontâneo.O Our :Lady Peace é um grupo canadense que descobri em 2001 e que, desde então, tem sido um dos meus preferidos. O som deles soa como uma mistura de Midnight Oil com Crash Test Dummies, e não entendo porque nunca fez sucesso aqui no Brasil. Essa música (uma balada muito bonita) é uma das minhas preferidas deles, ando escutando muito nos últimos dias. Todos temos alguém ¿somewhere out there¿ à nossa espera. Nem sempre é um amor do passado, como o da letra, que geralmente esse não passa da caixa de Pandora que trata o texto. O que importa é a esperança, acreditar que essa pessoa exista e que, cedo ou tarde, chega e dá sentido a tudo. Eu também tenho a minha caixa, como todo mundo, mas me surpreendo ao constatar como não me apego mais a ela como antes. Sinal dos (bons) tempos Gute woche, como dizem os alemães, e Carpe Diem...

A Caixa de Pandora

Na mitologia grega, a caixa de Pandora era aquela que continha todos os males da humanidade e que foi entregue a Prometeu como presente de casamento enviado por Zeus. A própria Pandora (noiva de Prometeu) abriu a caixa, inocentemente, achando tratar-se de algo bom, e libertou os males. Tentou ainda, sem sucesso, fecha-la, notando que a única coisa que permaneceu presa à borda da caixa havia sido a esperança. No amor, é aquela que representa a lembrança de uma pessoa que não está mais ao nosso lado e à qual devotamos nossos mais sinceros e espontâneos sentimentos, a que achamos tratar-se de nossa outra metade (pelo menos naquele instante) e a quem recorremos durante as trovoadas às quais estamos sujeitos ao nos aventurarmos à procura dum amor correspondido.
Todos têm sua caixa de Pandora particular, pra onde retornam procurando refúgio após (mais) uma desilusão amorosa. Lá dentro estamos protegidos, quentinhos, a salvo de qualquer infortúnio, porque a caixa foi projetada pra se adequar exatamente a todas as nossas ilusões. A lembrança de quem a povoa serve de alicerce de uma maneira injusta, já que sempre estará no terreno das projeções. Nós, na maioria das vezes, não vivenciamos todo o sortilégio de sentimentos que depositamos nessa pessoa da caixa ¿ muitas vezes nem chegamos a expressa-los -, e é justamente isso (o amor mal-resolvido) que faz da caixa um porto seguro: não há risco de quebrar-se ou sermos arrancados dela sem nossa própria permissão. A caixa é de Pandora mas poderia ser de Joana, de Patrícia, de Carolina; o nome não importa, cada um a nomeia de acordo com a pessoa que habita suas projeções românticas.
Numa análise mais fria e profunda, a proteção que nos dá impede que cresçamos em direção ao aprendizado do amor. Uma decepção se avizinha com a pessoa que estamos envolvidos o momento? Voltemos à caixa de Pandora.. Fomos iludidos, enganados? Basta abrir a tampa e voltar ao refúgio. A caixa de Pandora nos traz o sentimento da covardia, do medo em admitir algum problema ou erro e tentar solucioná-lo dentro do campo da realidade. Pra que, se temos o sonho, tão mais plausível? A original continha todos os males da humanidade, a nossa, adaptada, contém apenas aqueles ligados às nossas carências, mas o prejuízo continua enorme.
Às vezes a caixa muda de cenário. Tiramos a lembrança da pessoa que a decorou por tempos e substituímos por outra, ainda mais perfeita e adequada às nossas expectativas (pelo menos na imaginação).. A rotina não muda, só o objeto da afeição platônica. Continuam os pensamentos do tipo ¿Ah, mas com ela teria sido diferente¿, ¿Ela sim me entenderia, afinal é minha Alma-Gêmea¿. Presos, embaçamos a visão ao mundo de fora, não atentamos a possibilidades que poderiam se abrir porque não queremos sair da caixa. Aquela lembrança nos serve, não queremos de volta o mundo real, que esse machuca, que esse não tem graça. O engraçado é que não nos cansamos do que está dentro da caixa. Ela tem o dom da mutação, a ilusão vai se adaptando a cada nova decepção amorosa que sofremos e fica ainda mais intransponível. O objeto da afeição da caixa se surpreenderia acaso descobrisse o conteúdo dela, porque as qualidades, virtudes e expectativas nunca correspondem às que ela realmente carrega. Se correspondesse não poderia ser amor mal-resolvido, não poderia estar na caixa.
Como invejo as pessoas que se cansam da sua própria caixa. Alguns, como borboleta, resolvem cortar o que os une ao casulo e voam, livres, em direção ao incomensurável, à procura de uma morada que não corresponda aos próprios sonhos, mas que os surpreenda e encante da mesma forma. Acabam encontrando algumas não tão perfeitas como a caixa antiga, e acabam se identificando nessas imperfeições. Descobrem que a casa sempre terá uma telha quebrada, um vazamento, algo a ser consertado, e adoram ocupar a vida a consertar esses remendos e fazer da realidade seu porto. Não seguro como o outro, prestes a desabar em muitas ocasiões, mas um lugar que lhes pertence, um relacionamento em que sonhos se constroem e desabam constantemente, mas trazem lições. Ao optar pela vida ¿lá fora¿ diminuímos de maneira progressiva a dependência à caixa de Pandora e percebemos, com o tempo, o quão sem-graça ela era, já que nunca transpunha o liame a separar o imaginário do real.
A caixa, é claro, sempre estará lá, escondidinha nalguma gaveta da alma, à nossa espera. Mesmo seguros e equilibrados, vez ou outra resolvemos adentrá-la por alguns dias (que ninguém é perfeito), mas logo saímos de volta ao terreno dos amores correspondidos. Aí, entretanto, aprendemos a domá-la, a retirar dela somente o que precisamos, que invariavelmente recai sobre um lenitivo à solidão, algo atenuando a carência enquanto nos reconstruímos. Descobrimos nesses instantes que a caixa de Pandora transformou-se na caixa com nosso próprio nome, aquela que podemos, devemos e temos prazer em habitar. Aquela que não carrega mais a utopia dum amor irreal, mas nossas imperfeições e anseios procurando correspondência nalguma alma perdida em algum lugar lá fora. Que tudo se resume, sempre, numa eterna troca de etiquetas e rótulos da mesma caixa, até descobrirmos que a vida fora delas se incumbe de aproveitar nosso tempo de maneira bem mais interessante.
Por Ed as 3:39 PM





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7/15/2004
(ao som de "Baby don't you break my heart slow",by Vonda Shepard)

Ando assustado com o crescimento do orkut, está virando uma mania aqui no Brasil. A comunidade do Amor, por exemplo, que eu criei no final de abril, já está com mais de 500 membros, e eu que achei que ela nunca fosse passar dos 100.. Onde é que o Orkut vai parar?
O texto de hoje é outro dos que ficaram de fora do livro. Além de não gostar dele (achei que ficou parecido com letra de música sertaneja) ele fala dum tipo de amor que todo mundo procura evitar: aquele que, ao mostrar sua vulnerabilidade, mostra também seu lado de inconformismo e apego a uma coisa que não mais existe. Resolvi colocar porque não consegui escrever nenhum outro nos últimos dias. Tenho uma prova muito difícil da minha pós amanhã (sexta), e isso tem me tirado o sono nos últimos dias, além do trabalho. Como, depois da prova, terei aula direto de sexta a domingo à noite, esse é último post da semana, não devo postar mais nada antes de segunda. Prometo voltar na segunda com um texto, ao menos, decente. Falando em livro, agora finalmente falta pouco pra marcar a data de lançamento. Ele já está pronto, só estou aguardando a boa vontade de alguém do Sesc Arsenal (um centro cultural daqui) pra me arrumarem uma data em agosto pra que possa lançar lá mesmo. O pessoal da editora me disse que estão com dificuldades em agendar lá porque o Arsenal já está com a programação praticamente fechada pro mês que vem, mas há esperanças. Do contrário, vou atrás dum outro lugar, não quero esperar até setembro.
A letra é uma das minhas preferidas do seriado Ally McBeal, e está diretamente relacionada ao assunto do texto. Quem gosta de ter o coração partido aos poucos? Ninguém. Se é inevitável, que seja, ao menos, de forma cruel e fulminante. Carpe Diem.


Antes de fechar a porta

Antes de fechar a porta, espera. Levanta a face e olha o que está prestes a deixar,mesmo que apenas pelo derradeiro instante. Ao correr os olhos em meio ao que fica, repara que meu semblante não é apenas esse triste que transparece, que juntamente com a tristeza vem o agradecimento. Pela convivência, pelas lições, e, mais que tudo, por me ensinar a amar. Antes de fechar a porta não esqueça de juntar os cacos das decepções e arrasta-los pra debaixo do tapete, promete que só irá carregar as boas recordações? Deixa as tristezas aqui, no meu ambiente, que sei melhor que você o que fazer com elas.
Antes de fechar a porta não se preocupe em apagar a luz, que preciso dela por algum tempo. Tampouco não arrume nada que esteja fora do lugar, deixa que o tempo se encarrega de reconduzir as coisas aos lugares a que pertencem. Antes de fechar a porta certifique-se de estar levando tudo, nada ficou perdido nalguma gaveta ou embaixo do cômodo dos sentimentos. Não preciso, nem pretendo, de uma desculpa pra ir ao teu encontro devolver algo que ficou pra trás. Nem pense, também, em devolver presentes ou cartas que foram dados perdulariamente, que isso é coisa de amores comuns, e nosso amor foi tudo, menos comum. Não merecemos um final de cinema, com arestas aparadas e diálogos reveladores. Prefiro a vida real, esse instante frio e silencioso de hoje em que não questiono tampouco procuro entender, apenas aceito. Simplesmente acabou.
Antes de fechar a porta verifique as fechaduras e trancas, que não quero correr o risco dela se abrir de forma intempestiva num vento duma tarde fria qualquer, quando menos esperar, a me pegar desprevenido. Leva a cópia das chaves, por segurança, minha e sua. Atente às janelas, não as quero abertas nesse tempo de invernia que se avizinha, melhor esperar até o sol dar as caras novamente em meu coração.
Antes de fechar a porta não assobie a canção, não diga a palavra, não faça o gesto. Deixa o silêncio de agora, que já tenho meus próprios sons interiores a me assombrar. Prometa não olhar pra trás depois, pretendo mudar o ambiente com tua ausência., a começar pela mobília da alma; e, com um pouco de sorte e boa vontade, em alguns meses nem mesmo você iria reconhecer o lugar que está deixando.
Antes de fechar a porta, fique à vontade pra fazer uso dos patéticos discursos habituais de finais de relacionamento. Mas seja, por favor, breve, que em verdade não há nada que teus olhos já não me tenham dito há algum tempo. Depois, se quiser lamentar, lamente; se quiser esquecer, esqueça. Mas antes de fechar a porta, amor, lembra que, dessa vez, é pra sempre.

Baby, Don't You Break My Heart Slow
Vonda Shepard


I like the way you wanted me
Every night for so long baby
I like the way you needed me
Every time things got rocky

I was believing in you
Am I mistaken, do you say,
Do you say what you mean
I want our love to last forever

But I'd rather you be mean than love and lie
I'd rather hear the truth and have to say goodbye
I'd rather take a blow at least then I would know
But baby don't you break my heart slow

I like the way you'd hold me
Every night for so long baby
And I like the way you'd say my name
In the middle of the night
While you were sleeping

I was believing in you
Was I mistaken
Do you mean, mean what you say
When you say our love could last forever

You would run around and lead me on forever
While I wait at home thinking that we're together
I wanted our love to last forever

Well I'd rather you be mean than love and lie
I'd rather hear the truth and have to say goodbye
I'd rather take a blow at least then I would know
But baby don't you break my heart slow

Baby, não parta meu coração aos poucos

Eu gosto da maneira como você me desejou
Toda noite por tanto tempo, baby
Eu gosto da maneira como você precisou de mim
Todas as vezes em que as coisas ficaram difíceis

Eu estava acreditando em você
E me enganei, você diz
Você diz o que você sente?
Eu quero que nosso amor dure pra sempre

Mas eu prefiro que você seja cruel do que amar e mentir
Eu prefiro ouvir a verdade e ter que dizer adeus
Eu prefiro ter a certeza, pelo menos então eu saberia
Mas baby, não parta meu coração aos poucos.

Eu gosto da maneira como você me abraça
Toda noite por tanto tempo, baby
E eu gosto da maneira como você pronunciou meu nome
No meio da noite
Enquanto você estava dormindo

Eu estava acreditando em você
EU estava enganado?
Você sente o que diz
Quando diz que nosso amor poderia durar pra sempre?

Você dissimularia e me dominaria pra sempre
Enquanto eu fico em casa pensando que estamos juntos
Eu queria que nosso amor durasse pra sempre

Bem, eu prefiro que você seja cruel do que amar e mentir
Eu prefiro ouvir a verdade e ter que dizer adeus
Eu prefiro ter a certeza, pelo menos então eu saberia
Mas baby, não parta meu coração aos poucos.
Por Ed as 4:43 AM





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7/12/2004
Hoje não tem texto, letra de música nem comentário que não seja o de celebrar a data que não pode passar em branco: os 100 anos do nascimento de Pablo Neruda. Eu poderia escrever um texto enorme citando a maneira como os poemas do Neruda influenciaram a visão que temos do mundo, mas há muitos sites na net que estão fazendo isso hoje de forma muito melhor e mais apropriada. Pra não deixar passar a data em branco aqui, nada melhor que um poema do mestre. Amanhã o blog volta às atualizações normais.


"Yo te he nombrado reina.
Hay más altas que tú, más altas.
Hay más puras que tú, más puras.
Hay más bellas que tú, más bellas.

Pero tú eres la reina.

Cuando vas por las calles
Nadie te reconoce.
Nadie vê la corona de cristal, nadie mira
La alfombra de oro rojo
Que pisas donde pasas,
La alfombra que no existe.

Y cuando asomas
Suenan todos los rios
Em mi cuerpo,sacuden
El ciclo las campanas,
Y um himno llena el mundo.

Sólo tu y yo,
Sólo tu y yo, amor mio,
Lo escuchamos."
Por Ed as 10:56 PM





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7/7/2004
(ao som de "Victims", by Culture Club)

Como muita gente, eu também tenho alguns preconceitos que assumo. Pagode e cinema nacional, por exemplo. Ontem vi mais um motivo pra reforçar o que se refere ao cinema nacional: assisti O Fabuloso Destino de Amelie Poulain. É um filme francês, daqueles feitos a partir de uma idéia simples, roteiro excelente, pouco dinheiro e muita criatividade. Que fazem perguntar porque não fazemos filmes assim aqui no Brasil. Amelie Poulain é um filme que, à maioria, pode parecer enfadonho, monótono e até vazio. Pra alguns (e me incluo) passa a idéia oposta: um filme leve, delicado, sensível, daquele tipo que nos faz pensar sobre a forma com que lidamos com nossa própria solidão. É um filme, em resumo, sobre a solidão. No caso, da Amelie, que, a partir de uma caixa encontrada acidentalmente em seu apartamento, resolve dar um novo rumo à sua vida, afastando o medo que tinha de se relacionar com as pessoas. Li algumas resenhas de mulheres acerca do filme onde escreveram que toda mulher tem algo de Amelie Poulain dentro de si. Eu já vou além, acho que todo homem sonha em ter uma mulher com um pouco de Amelie Poulain. O texto de hoje veio da forma como esse filme me tocou, e de uma conversa que tive na sexta com minha amiga Jane, onde ela me disse que eu sou a pessoa mais incompetente que ela conhece tratando-se de relacionamentos amorosos. Pensei, pensei, pensei...assisti ao filme e cheguei à conclusão que ela estava totalmente certa. Mea culpa.
Esse final de semana algumas pessoas especiais fizeram niver. Aproveito pra deixar os parabéns atrasados à Karina (20/06), Cíntia (sábado) Noêmia (sábado também) e minha prima Camila, lá de Belo Horizonte (domingo). Quatro mulheres lindas e de personalidade. A música é outra "do meu tempo", a balada que mais gostava do Culture Club, já escutei muito nas madrugadas chuvosas da adolescência... Carpe Diem!


Assumindo a própria incompetência (ou "O fabuloso destino que nos espera")

Há determinados instantes, na vida de todos, em que temos momentos introspectivos produzindo flashes duma realidade que teimamos em não aceitar. A falta de sorte nos relacionamentos costuma ser o tema mais interessante nesse quesito, e quem nunca reclamou do destino ter-lhe reservado a solidão ou apenas a companhia de pessoas desinteressantes? A retórica é perfeita porque o acusado não pode se defender, mas e se olharmos a questão sob outro ângulo e tentarmos enxergar as possibilidades de resposta, mesmo as improváveis? Como nos assustamos ao perceber, então, que, além de culpar algo que está na esfera da crença, resta pouco além de olhar pra própria habilidade de relacionamento com os outros.
Costumamos fechar-nos sob os argumentos-chavões de que "só merecemos alguém especial", ou o tradicional "antes só que mal acompanhado". Será que existem mesmo tão poucas pessoas interessantes por ai? "Ah, mas eu gosto de jazz, leio Shakespeare, conheço diversos países...". E daí? Além de esbarrar na desculpa do preconceito, há um fator que prejudica ainda mais a abertura a pessoas interessantes: a síndrome da concha. A pessoa se fecha no próprio mundo de preferências pessoais e fica esperando que uma varinha mágica de conto de fadas despeje alguém que corresponda exatamente às expectativas que sempre criou em relação à pessoa amada. Quando a coisa demora a acontecer a preocupação aumenta.
Quantas vezes já nos pegamos num comentário do tipo "Mas como é que essa pessoa foi arrumar alguém como aquela pra namorar?" E maldizemos a vida, o destino, reclamamos das coincidências não acontecerem conosco, jogamos a culpa numa casualidade qualquer que ainda não aconteceu. Difícil admitir que a outra pessoa teve mais competência, que se aproveitou dum momento fortuito, soube enxergar uma oportunidade,deixou a timidez de lado, arriscou e ganhou. Ao optar pela síndrome da concha optamos em correr menos riscos e torcer pra que o destino se apiede e faça justiça aos nossos sentimentos honestos. Bom, não é assim que coisa funciona, e muitos estão até hoje esperando pelo momento em que alguém dará um espetacular salto de pára-quedas, depois de algumas piruetas, e cairá no colo dessas pessoas, como nos sonhos.
Ter competência no amor significa tornar-se uma pessoa disposta a correr riscos. A sofrer, decepcionar-se e fazer papel de ridículo durante o processo, mas, num dado momento, ter a impagável sensação de que acertou em cheio. Tornar-se o alvo da inveja alheia, abandonar a turma do "o que ele(a) tem que eu não tenho?" Competência, também, está ligada a marketing pessoal, e aqui se encaixam todas as estratégias possíveis que façam o mundo e a pessoa em quem estamos interessados enxergar exatamente aquela parte do caráter que julgamos aprazível à aproximação. De maneira sutil, evidente. Assumir a incompetência, portanto, significa fazer uma análise dos últimos relacionamentos em que nos envolvemos e perceber que não eram pessoas que normalmente gostaríamos que estivessem ao nosso lado, e querer fazer delas exceções, não regra. Assumir a incompetência significa assumir a timidez no que ela tem de ruim, que é o medo de correr riscos, a tendência aos amores seguros, terreno onde só adentramos depois de saber exatamente o caminho a tomar. Assumir a incompetência compreende assumir que o destino pouca ou nenhuma culpa tem com nossa própria incapacidade de conquistar pessoas, que a falta de sorte é proporcional à falta de ousadia.
Um dia, então, a decepção pelo amor não correspondido do final de semana vira uma gostosa lembrança, não desilusão. Os inúmeros insucessos que teremos cairão como fileira de dominós, um a um, ante aquele que restar, o da pessoa especial. Aquela que ousou apostar em nossa propaganda, pagou pra ver e não nos devolveu depois do prazo vencido. Amor correspondido não vence, não carrega a etiqueta do "consumir antes de" . Nessa hora voltamos a maldizer o destino como antes, mas agora não por estarmos solitários e infelizes, mas sim por não termos acordado mais cedo às próprias limitações, por demorarmos tanto em perder o medo de sermos mais banais, mais previsíveis, mais bobos. O fabuloso destino que nos espera começa quando abrimos a caixa interior presa à alma, cheia de insegurança e timidez, jogamos fora a tampa e a enchemos de otimismo, amor-próprio, bom-humor e confiança. A competência, então, fará a sua parte. Quem irá se lembrar dos insucessos que colecionamos e ficaram perdidos e jogados ao vento, quando sobrou na mão a carta esperada?

Victims
Culture Club

The victims we know so well
They shine in your eyes
When they kiss and tell
Strange places we never see
But you're always there
Like a ghost in my dream
And I keep on telling you
Please don't do the things you do
When you do those things
Pull my puppet strings
I have the strangest void for you

We love and we never tell
What places our hearts in the wishing well
Love leads us into the stream
And it's sink or swim
Like it's always been
And I keep on loving you
It's the only thing to do
When the angel sings
There are greater things
Can I give them all to you

Pull the strings of emotion
Take a ride into unknown pleasure
Feel like a child on a dark night
Wishing there was some kind of heaven
I could be warm with you smiling
Hold out your hand for a while
The victims we know them so well...

Show my heart some devotion
Push aside those that whisper never
Feel like a child on a dark night
Wishing we could spend it together
I could be warm with you smiling
Hold out your hand for a while
The victims we know them so well, so well...
So well...

Vítimas

As vítimas, nós as conhecemos tão bem
Elas brilham em teus olhos
Quando se revelam
Lugares estranhos que nunca vemos
Mas você sempre está lá
Como um fantasma em meu sonho
E eu continuo te dizendo
Por favor não faça as coisas que faz
Quando você as faz
Puxa as cordas do meu fantoche
Eu tenho uma aversão enorme por você

Nós amamos e nunca contamos
O que coloca nossos corações no poço dos desejos
O amor nos leva à correnteza
E é afundar ou nadar
Como sempre tem sido
E eu continuo te amando
É a única coisa a se fazer
Quando o anjo canta
Há coisas maiores
Posso dar todas elas a você?

Puxe as cordas da emoção
Pegue carona num prazer desconhecido
Sinta-se como uma criança numa noite escura
Torcendo pra que exista algum tipo de Paraíso
Eu poderia me aquecer com você sorrindo
Estenda a mao por um instante
As vítimas, nós as conhecemos tão bem...

Demonstre um pouco de devocão ao meu coração
Afaste aqueles que sussurram "nunca"
Sinta-se como uma criança numa noite escura
Torcendo pra que pudéssemos atravessá-la juntos
Eu poderia me aquecer com você sorrindo
Estenda a mao por um instante
As vítimas, nós as conhecemos tão bem...
Tão bem...
Por Ed as 4:46 AM





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7/2/2004
(ao som de "So many stars", by Sarah Vaugham)

O lado profissional tem dado as caras ultimamente e me deixou sem vida social nos últimos dez dias, por isso a falta de atualização do blog. Domingo acaba a correria e tudo volta à normalidade, então espero que também possa voltar a atualizar o blog mais de uma vez por semana, como estava fazendo antes.
A música é uma que ficou famosa na voz de uma das minhas divas, a Sarah Vaugham. Pouca gente sabe, mas a letra (que acho linda), teve a participação dum brasileiro radicado nos EUA há décadas, o Sérgio Mendes. Entrou pra história do jazz. Acho que o que todos queremos, no fim, é o que a letra apregoa: dentre todas as estrelas, escolher a que nos foi destinada, a que nos pertence.
Meu texto dessa semana veio duma conversa de cerca de 15 dias atrás com minha companheira de webcam lá de Porto Alegre, a Carla. Nós estávamos falando sobre pessoas que acabam conhecendo apenas uma faceta nossa e às vezes não descobrem as outras, seja pelo desinteresse dela ou porque achamos que não vale a pena mostrá-las a certos tipos de pessoas.Meu ponto é que às vezes nós nos pegamos fazendo coisas que criticamos nos outros e não sabemos ao certo o porquê de estarmos agindo daquela maneira. Admitir o erro, nesses casos, já é um grande passo a não tornar a cometê-lo. Bom final de semana a todos e Carpe Diem...

Abrindo gavetas

Se pudéssemos fazer um censo entre todas as pessoas com quem já nos relacionamos até o momento, dificilmente o perfil que fariam de nós seria comum a todas. Cada uma delas, à sua própria maneira, conseguiu, graças ao empenho pessoal ou uma circunstância qualquer, formar uma imagem única a nosso respeito. A situação poderia lembrar aquela propaganda de banco onde duas pessoas discutem acerca de qual banco é melhor e no final descobrem que são clientes do mesmo.
Há que se diferenciar mostrar outras facetas de usar máscaras. Quando usamos máscaras a tentativa, geralmente, é a de impressionar ou defender-se de algum aspecto relacionado à outra pessoa. Usamos máscaras pra nos sentirmos mais confortáveis, mais "politicamente corretos", aumentando as chances de interação com o outro. Mostrar outras faces, não. A iniciativa não nos pertence, mas é criada por uma situação ou pelo comportamento alheio à nossa própria vontade, acontece sem que nos apercebamos disso. Às vezes nos sentimos confortáveis e seguros ao desnudarmos um aspecto qualquer dos muitos que possuímos, e a situação acaba nos conduzindo a escancarar mais essa faceta que desconhecíamos. O aspecto sexual, por exemplo. Num relacionamento nos sentimos confortáveis e tranqüilos em relação ao sexo e já no seguinte o vulcão explode, a química acontece numa explosão de desejos e práticas que não nos imaginávamos capazes de sentir e pôr em ação algum dia. De forma natural, como se a pessoa tivesse a chave àquela gaveta de nossa alma que permanecera trancada até aquele momento, e nos assustamos ao vermos o conteúdo que guardava. Nos sentimentos a situação não é diferente. Quantas vezes nos pegamos cometendo os mesmos erros que sempre criticamos nos outros, e, da mesma maneira que eles, cegos à própria desfaçatez? Pregamos o amor sincero, espontâneo, e quando nos acusam de cruéis, ingratos e dissimulados, fica difícil aceitar a crítica porque não nos enxergamos agindo daquela maneira. Abriram uma gaveta cujo conteúdo tentávamos esconder, mais fácil fingir que ela continua trancada.
Aquele amor de verão nos revelou o lado sensual, o outro mais à frente abriu a gaveta do cinismo, da dissimulação, da impaciência. O seguinte teve mais sorte, trouxe a chave que libertou o lado emotivo, da expressão do amor, o lirismo. O outro não, esvaziou toda nossa cômoda de ciúmes, insegurança e atitudes patéticas, e até hoje não entendemos como pudemos, um dia, agir daquela maneira. Dá vontade de ligar a algumas pessoas com quem nos relacionamos só pra dizer: "Hei, eu não sou assim! Não sei o que aconteceu, mas a imagem da pessoa que você pegou de mim não representa o que sou! Devolva e pegue a verdadeira!" Elas não devolvem, a velha máxima de que a primeira impressão é a que fica sempre vence, e pouco resta além de nos conformarmos. O "ficar por ficar" perde a graça justamente nesse ponto: permite que vislumbremos um flash tênue do que a outra pessoa representa, que logo esvaece, logo saímos à procura do seguinte. Não é de espantar a quantidade de erros de julgamento dessas situações. Já aquele que se arrisca numa relação um pouco mais longa também corre o risco de ter revelada apenas uma parte do que representa, e de captar uma que não pertenceria às expectativas que criou.
O que gratifica mesmo, porém, não é a surpresa das próprias gavetas abertas, mas aquela que vem de abrirmos as gavetas alheias. Poder ver a retribuição nos olhos amados por fazer essas pessoas acreditarem novamente em sentimentos que estavam trancados porque alguém do passado, inadvertidamente, fechou aquela gaveta e levou junto a chave. Creio que ouvir "Obrigado por me tornar capaz de amar incondicionalmente" tem mais significado que um "Eu te amo", porque liberta e permanece, mesmo que nós não permaneçamos na vida dessa pessoa.
Qual a melhor das diferentes facetas que mostramos ao longo dos relacionamentos amorosos? Aquela mais passional, explosiva, que irrompeu naquele relacionamento relâmpago; aquela outra serena que transpareceu no outro que tardou a findar; aquela dissimulada, medrosa ante aquela outra paixão que julgávamos a derradeira, a Alma-Gêmea? Em verdade, todas e nenhuma ao mesmo tempo. A verdadeira faceta não é aquela mostrada sob alguma circunstância ou a que nosso senso de julgamento define como a mais aprazível. Quando elas se entrelaçam, surge a definitiva. A melhor é a que vem da junção de todas reveladas a um único amor. A que requer tempo e permite que descortinemos, voluntariamente ou de maneira indesejada, todas as partes que nos compõem, todos os opcionais, bônus e peças defeituosas. Quando menos esperamos estamos nus por dentro à outra pessoa, revelamos todo nosso ser e o orgulho vem de poder dizer: "Isso sou eu, o pacote completo, e foi você quem afastou o medo e trouxe a chave-mestra que me abriu todas as gavetas." Depois escancará-las, deixando que cada uma se abra de maneira sutil de acordo com o convívio, fazendo do tempo um aliado nessa eterna descoberta de si mesmo e do outro. Finalmente percebermos que, melhor que colocar ou tirar máscaras a cada relação que o destino nos acomete, é escolher uma, apenas um relacionamento, e fazer da vida a artir daquele instante um eterno abrir e fechar de gavetas repletas de sonhos, expectativas e ilusões, nossas e alheias, e nos assombrarmos com o que descobrirmos. Que, se existir um amor totalmente verdadeiro, uma Alma-Gêmea à espera de cada um, ela não merece - nem se contenta - com pedaços expostos e atirados à revelia.

So Many Stars
(Sergio Mendes - Alan Bergman - Marilyn Bergman)

The dark is filled with dreams
So many dreams which one is mine
One must be right for me
Which dream of all the dreams
When there's a dream for every star
And there are oh so many stars
So many stars

The wind is filled with songs
So many songs which one is mine
One must be right for me
Which song of all the songs
When there's a song for every star
And there are oh so many stars, so many stars

Along the countless days, the endless nights
That I have searched, so many eyes
So many hearts, so many smiles
Which one to choose, which way to go, how can I tell
How will I know, out of, oh
So many stars, so many stars

So many stars, so many stars.

Tantas estrelas

A escuridão está repleta de sonhos
Tantos sonhos,qual será o meu?
Um deve ser o correto pra mim.
Qual dentre todos os sonhos?
Quando há um sonho pra cada estrela
E há, oh...tantas estrelas
Tantas estrelas...

O vento está repleto de canções
Tantas canções,qual será a minha?
Uma deve ser a correta pra mim.
Qual dentre todas as canções?
Quando há uma canção pra cada estrela
E há, oh...tantas estrelas
Tantas estrelas...

Junto com os dias incontáveis, as noites sem fim
Que eu tenho procurado, tantos olhos,
Tantos corações,tantos sorrisos...
Qual escolher? Qual caminho seguir?
Como posso adivinhar? Como saberei?
Em meio a, oh...
Tantas estrelas, tantas estrelas...

Tantas estrelas, tantas estrelas...
Por Ed as 5:30 AM






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