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6/18/2004
(ao som de ¿Conquer me¿, por Blues Traveler)

Dessa vez a demora em atualizar veio em diversos pequenos motivos: mudança de função no trabalho,aula da pós, finalizar aprovar as modificações no layout do livro (se tudo der certo até o final da semana que vem marco a data do lançamento,que deve ser em julho); e, por fim, uma virose que me derrubou desde terça. O texto ficou longo talvez por causa de tudo isso, e porque o tema é um dos que mais tenho curiosidade, até por causa da experiência própria:. Eu tentei analisar os motivos que nos fazem trocar um relacionamento em que estamos felizes por outro totalmente imprevisível quanto ao futuro. A idéia veio assistindo ¿Alta Fidelidade¿ semana passada, há um diálogo no final do filme muito interessante onde, numa situação dessas, a mulher tenta explicar ao homem os motivos que o fizeram trocá-la por uma outra.
A música é uma dum grupo ¿do meu tempo¿, o Blues Traveler, que ando ouvindo muito nos últimos dias. Estava colocando apenas letras de baladas, então resolvi colocar uma um pouco mais alegre. Sempre achei essa letra a minha cara, adoro a música.Amor-próprio em alta combina com ela. Bom final de semana a vocês e Carpe Diem!

Procurando motivos

Você está, finalmente, no relacionamento que sempre sonhou: com uma pessoa que gosta e que retribui o sentimento, que corresponde à maioria das suas expectativas,a que, desde o início, acende o alarme do seu palpite interno do coração que diz: ¿pode ser agora¿. A convivência e o tempo trazem os problemas e as vantagens de praxe, e vocês sobrevivem,. Num belo dia de verão, depois de anos de convivência, surge a punhalada inesperada: um dos dois confessa estar apaixonado por outra pessoa e põe fim a tudo, nem dando tempo ao coração do outro entender a avalanche que o soterrou, tamanha a surpresa. Quando acontece com a outra pessoa facilita, porque em verdade o leque de alternativas não é grande. Lamentar, ficar trancado no quarto por alguns dias ouvindo músicas depressivas e tentar, à sua própria maneira, superar o acontecido. Os caminhos a seguir não desviam muito desse principal, pelo menos os normais. E quando somos nós a nos surpreendermos apaixonados por outra pessoa em meio a um relacionamento estável?
A idéia romântica soa plausível, até bonita aos olhos de quem não participa, não vivencia o problema. É muito fácil usar o argumento tradicional do ¿Eu me apaixonei, não posso fazer nada a respeito¿. Fácil, seguro, cômodo. E covarde. Sim, covarde. Evidentemente que há os exemplos que justificam, aqueles em que a pessoa reconheceu na outra alguém especial, sua alma-gêmea, e a troca acabou por se consumar num outro relacionamento mais intenso e pleno que o anterior. A maioria, entretanto, encaixa-se no exemplo da covardia. Ao estarmos num relacionamento seguro, depois de um determinado período de tempo é natural vir o comprometimento, surgirem os problemas naturais decorrentes da convivência. Acontece sempre, com todos os casais que se dão a oportunidade da convivência numa total entrega. A roupa suja jogada no quarto, a toalha molhada em cima da cama, a porta do blindex aberta molhando o banheiro, sempre há um pequeno motivo a irritar um ou ambos em relação ao outro. A idéia do Príncipe Encantado ou da Cinderela vai esvaindo à medida que vamos nos permitindo conhecer o que de verdadeiro existe no outro, e que não deixa de ser instigante e bonito por causa dos pequenos defeitos ou comportamentos que não aprovamos. Sempre há a implicância com algum amigo ou amiga do outro, com a roupa, algum hábito, mania, tique. Mesmo assim prosseguimos, porque sabemos que detalhes não passam de bobagens, e também agradecemos à outra pessoa por tolerar nossas próprias manias. Às vezes a segurança acaba se confundindo com comodismo, e o erro fatal dá as caras. A nova paixão, então acaba sendo conseqüência inevitável, questão de oportunidade aliada a uma pessoa um pouco interessante.
A covardia do coração é expressa ao analisarmos os possíveis motivos que fizeram com que nos deixássemos apaixonar por uma outra pessoa, mesmo estando num relacionamento onde nos considerávamos felizes e seguros. Onde não existe uma razão aparente, geralmente ela surge ao fazermos uma auto-análise das próprias carências e necessidades em relação à pessoa que procuramos pra estar ao nosso lado. Além do tempo não ter desembaçado a visão do novo amor, que ainda entorpece a visão que possuímos da outra pessoa, ele trabalha contra o amor antigo. Algumas pessoas gostam da idéia do coração cigano, que vai atrás de um novo amor tão logo tenha como seu o daquele momento, tão logo se apodere do amor presente. Pessoas que se incomodam com a palavra segurança, porque vêem nela uma idéia fatalista. E assim, de porto em porto, trocam de amor com a consciência tranqüila porque estão sendo sinceros com o coração ¿ a idéia não é essa?
A justificativa de seguir os instintos amorosos é sedutora, porque combatê-los? Porque parar pra pensar que é muito fácil largar um amor por uma paixão nova por causa do primeiro grande problema que surge? Lutar, buscar resolver os conflitos, pra que? Não vale a pena, há sempre um amor novo e fresco à disposição, pronto pra entrega. Amor-delivery, como a junk food que alimenta na hora mas não segura a fome por muito tempo. Deixamos novos amores entrarem em nossa vida não só por culpa da pessoa com quem estamos naquele instante ¿ e como é injusto jogarmos a culpa nos defeitos e atitudes do outro.Queremos só a parte ¿boa¿ do amor, aquela anterior aos problemas, à roupa espalhada pela casa, à calcinha dela pendurada no banheiro que nos incomoda, àquele membro da família dela que não suportamos e temos que aturar. Não queremos os detalhes, e sim a volúpia avassaladora do novo amor que desafia e encanta. A chegada de um novo amor sempre entorpece, o problema é darmos abertura a novas paixões quando o que sempre procuramos está bem à nossa frente. A pessoa resolvida e comprometida sabe que o tédio e a rotina eventualmente chegam, mas vê além, sabe que são inerentes a todo relacionamento, e melhor enfrenta-los com alguém especial que evita-los dando abertura a uma outra paixão. A pessoa amadurecida no amor aprende a gostar da que está ao seu lado com todas as manias e problemas que ela tem, mas com tudo aquilo de maravilhoso que só o tempo traz: a cumplicidade, o amor depois que o vendaval passou, os momentos felizes despercebidos. Aprende a lidar com sua própria segurança e foca o coração na direção da outra pessoa, não na do seu próprio egoísmo.
Num outro belo dia, agora de outono, as folhas secas caídas das árvores nos trazem a lembrança dos erros de julgamento que cometemos, das pessoas especiais que deixamos escapar por outras que nem mais lembramos o nome, e a ¿síndrome do dia seguinte¿ vem forte. Quando nos damos conta do que fizemos a bobagem já está feita, o café esfriou, o show acabou de maneira melancólica enquanto ficamos prostrados, quietos, a lamentar. Um dia cansamos do jogo, a brincadeira perde a graça, e sorte daqueles que têm ao seu lado, nesse instante de redenção, pessoas especiais melhores ou à altura daquelas que ficaram pelo caminho. Nesse instante, felicidade se resume em não precisar olhar pra trás, por sobre o ombro, e vislumbrar uma silhueta que deixamos à margem do caminho por uma outra que também ficou logo em seguida. Quando precisamos de justificativas pra optar entre o amor presente e o novo que se afigura, elas não estarão na palpitação do coração e no encantamento, que toda paixão em seu início é comum nos efeitos colaterais. Quando precisamos de uma razão, que atentemos à própria consciência, não às das partes envolvidas. Que a resposta, sempre, estará no que queremos de nós mesmos, não nas virtudes e defeitos de quem nos relacionamos..
Por Ed as 4:32 AM





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6/7/2004
(ao som de "Love for Sale" por Caetano Veloso)

O texto de hoje veio dum pensamento que me acometeu num dia triste, durante o enterro do pai de dois amigos semana passada. Creio que não carece de maiores explicações.
Entramos na semana mais difícil do ano aos solteiros, aquela que faz parte do Dia dos Namorados. TV, outdoors, os amigos querendo sugestões de presentes, não há como escapar do vírus. Eu estava há algum tempo tentando escolher uma música que simbolizasse meu sentimento à data e ontem acertei em cheio. Escutando o novo CD do Caetano, onde ele interpreta clássicos do jazz americanos (falando em sugestão, uma ótima pro Dia dos Namorados), e de repente me assusto ao topar com a interpretação dele a "Love for Sale". Era uma música que costumava ouvir na voz da Billie, Ella, Nina Simone(que gostava de tocar ao piano, sem cantar). Ficou digna dos grandes intérpretes de antes, já que optou pela simplicidade. Se um dia minha carência e a necessidade chegassem às vias de colocar um anúncio de jornal à procura de um amor, seria exatamente igual ao dessa letra. Tenho certeza que muita gente que está sem par nessa época do ano, como eu, colocaria algo parecido. Pretendo postar ainda um texto antes de sábado, mas de qualquer forma fica aqui meu desejo que todos vocês tenham um Feliz Dia dos Namorados. E, às pessoas que ainda não encontraram seu par, como eu, é hora de colocar o produto em promoção, que sábado já está batendo à porta. Se bem que eu estou com um palpite...


Quando meninos tornam-se homens

Há momentos distintos na existência de cada um que representam passagens a um mundo diferente, com outras perspectivas e responsabilidades. Infância pra adolescência, por exemplo. Uma mais tangível, a da adolescência pra vida adulta. Não me refiro a passagens etárias, que há muitos velhos de corpo mas com uma alma jovem ou até infantil, nos dois sentidos da interpretação. Passagens de espírito, aquelas marcadas por acontecimentos que nos forçam a subir a escada, a mudar de fase. Um revés financeiro, a luta contra algum vício, uma mudança inesperada, um casamento; há sempre um acontecimento que transfigura essa mutação.
Quarta-feira passada testemunhei uma dessas passagens. Fui a um velório e o conseqüente enterro do pai de dois amigos próximos aqui na minha cidade, e pude presenciar um instante que deve ter passado despercebido à maioria. Ao final do enterro, o irmão mais velho dirigiu-se ao encontro da mãe, enquanto baixava o caixão, e pousou suavemente a mão por sobre o ombro direito dela. Assim que sentiu a mão do filho por sobre o ombro, reconfortando-a, a mãe cessou de chorar, enxugou as lágrimas e continuou em silêncio. Não se pronunciou qualquer palavra, mas a troca de olhares entre os dois exprimiu todo o futuro a partir dali. Foi como se o filho dissesse à mãe: "Não se preocupe, eu vou estar sempre aqui, chegou nossa vez de tomarmos conta de você, agora é conosco'. Era o instante em que os filhos assumiam as funções do pai que lhes cabiam, dando um novo rumo à vida de todos. Meninos tornando-se homens.
Saindo dali fiquei conjeturando a semelhança dessa situação em relação a nossas vidas amorosas. Não vivemos também esses instantes (claros ou desapercebidos) de amadurecimento? Passamos mais de uma década naquela vidinha comum de entra-e-sai de paixões, um verdadeiro cassino de apostas que normalmente nos deixavam de mãos, bolsos e pensamentos vazios ao final e ansiando por uma nova rodada. Alguns ficam nessa rotina eternidade afora, até que se cansam de não tirar a sorte grande, pegam um punhado de moedas que lhes foi atirada num dia razoável e retiram-se do mundo das apostas. Outros acabam desistindo por convicção e descrença, ao perceber a dificuldade de tirar o prêmio grande. Uns poucos, entretanto, não. Numa noite aparentemente tranqüila vêem-se rodeados de sensações novas, de uma intuição de que aquela será "a" noite, e acabam tirando a sorte grande num jogo de roleta. Apostam todas as fichas num único número que acaba por ser sorteado, e suas vidas mudam para sempre a partir daquele instante mágico. Saindo da analogia, ao nos vermos acometidos dum amor verdadeiro, a mutação vem inapelável, sem possibilidade de retroceder. Percebemos como foram tolas as paixões que vivemos até aquele instante e imaginamos como amor algumas delas. Se conseguíssemos encaixotar toda nossa vida sentimental de antes, não chegaria perto de preencher a embalagem do amor, que essa embalagem não tem fundo nem tampa. Um amor verdadeiro, com a dor, o sofrimento, decepção e todo sortilégio de sentimentos negativos que o compõem juntamente com os positivos, coloca um grifo "antes de" e "depois de" à nossa existência. Antes a brincadeira, o sentimentalismo sem expectativas, a inocência. Depois, a difícil arte de manter os alicerces ou a eterna procura por outro amor semelhante àquele.
Meninos tornam-se homens depois de um amor que lhes machuque, faça sofrer e deixe cicatrizes, porque sempre terão na alma as cicatrizes lembrando do quão longe podem ir na busca pela felicidade, e o preço a pagar. Moças tornam-se mulheres depois de um amor onde deixam de ser Cinderela à espera do Príncipe Encantado e passam a criaturas volúveis ao sortilégio dum cotidiano que asfixia, dum amor-próprio que as torna mais seletivas e exigentes em relação ao escolhido, a quem terá o privilégio de tê-las ao lado após o amadurecimento do corpo e, principalmente, da alma. Pessoas que amaram e passaram a vislumbrar o amor em sua real perspectiva tendem a não querer errar nas escolhas posteriores que fazem, porque sabem o desespero e a dor que causa livrar-se de um amor que não se faz mais necessário. Nesse desejo de não tropeçar esperam, cansam, sofrem, persistem. Meses, anos, às vezes mais de uma década, mas não se importam. Ao contrário dos outros que crêem numa religião falível apenas pela convicção, os que tiveram um amor na vida já viveram o milagre, já presenciaram a redenção. E sabem, mais do que ninguém, da necessidade de manter as janelas da alma escancaradas às marolas do destino, que num final de outono chega um vento do Sul arrepiando a espinha dorsal e acordando as borboletas do estômago, carregando o corpo e soprando direto ao coração. Vento que não espera, não pergunta, não se anuncia. E, depois de um furacão avassalando os sentimentos, quem é que quer saber das brisas inocentes de antes ?

Love For Sale
(Libby Holman )

Love for sale,
Appetizing young love for sale,
Love that's still fresh and unspoiled,
Love that's only slightly soiled.

Love for sale,
Who will buy?
Who would like to sample my supply?
Who's prepared to pay the price,
For a trip to Paradise?

Love for sale,
Let the poets pipe of love,
In their childish way,
I know ev'ry type of love,
Better far than they.

If you want the thrilll of love,
I've been through the mill of love,
Old love, new love,
Ev'ry love but true love.

Love for sale,
Appetizing young love for sale,
If you want to buy my wares,
Follow me and climb the stairs.

Love for sale,
Love.......for sale.

Amor à Venda

Amor à venda,
Amor jovem e apetitoso à venda.
Amor que ainda está fresco e intacto,
Amor que está só um pouquinho manchado.

Amor à venda,
Quem irá comprar?
Quem gostaria de provar da minha oferta?
Quem está preparada pra pagar o preço
Por uma viagem ao Paraíso?

Amor à venda,
Que os poetas gritem o amor
Em sua maneira infantil.
Eu conheço cada tipo de amor
Muito melhor que eles.

Se você quer o tremor do amor,
Eu tenho andado pelas pelejas do amor,
Amor velho, amor novo,
Todo tipo de amor menos o amor verdadeiro.

Amor à venda,
Amor jovem e apetitoso à venda.
Se você quer comprar minha mercadoria,
SIga-me e suba a escada.

Amor à venda,
Amor...à venda.
Por Ed as 4:52 AM






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