Esse foi o final de semana mais ¿temático¿que tive na vida, e atípico também. Minha irmã ficou noiva na sexta, meu seriado preferido chegou ao final com o casamento dos protagonistas e um casal amigo resolveu juntar os trapinhos e marcar a data do casamento também. Gosto de momentos assim,passam a impressãod e que, em meio a todas as mazelas à nossa volta, as pessoas sempre irão acreditar,a aposta no amor sempre irá prevalecer sobre o pessimismo de uma vida solitária. O blog nunca ficou tanto tempo sem atualização,obrigado pelas broncas dos comentários, vou tentar não deixar isso acontecer novamente.
O texto fiz depois de assistir, durante a semana, ao filme ¿Minha vida sem mim¿, que está passando nos cinemas. O trecho que gostei eu coloquei antes do meu texto.
A música,um clássico do jazz, escolhi por causa da onda de manifestações amorosas que está acontecendo com as pessoas ao meu redor. É uma letra que sempre gostei muito, do tempo em que as letras eram simples e profundas. Minha irmã pediu uma sugestão de música pra tocar no casamento dela, queria uma ¿diferente¿, então eu sugeri essa. Se ela não gostar eu guardo pro meu. That¿s all. Bom começo de semana a todos e carpe Diem.
O problema dos 10%
O quanto conhecemos de nós mesmos? Todos os dias lemos pesquisas relatando o pouco desenvolvimento que fazemos de nosso cérebro, dos limites do corpo que estamos ainda longe de conhecer. Que dizer, então dos sentimentos? Quantas vezes nos surpreendemos com atitudes que tomamos opostas ao nosso modo peculiar de pensar e agir? Já pararam pra analisar o quão pouco conhecemos das pessoas com quem nos relacionamos? Estamos solitários e carentes, desapercebidos do mundo mas com uma vontade louca de retornar ao círculo vicioso das ilusões amorosas e, num dia anunciado, a vontade toma formas reais no corpo de outra pessoa. Correspondido ou não, platônico ou expresso, em algum momento capturamos uma fotografia do instante de vida daquela pessoa e o penduramos na estante dos sonhos de consumo, rasgando o cartaz de ¿procura-se¿ que andava pendurado na alma.
Tudo estaria resolvido se nos contentássemos com aquela fotografia, aquele instante, aquela ponta do iceberg que descobrimos ¿ muitas vezes nem isso ¿ da pessoa amada. Percebemos, numa visão otimista, talvez cerca de 10% de tudo que ela representa, e queremos ir adiante, descortinar o resto. Pior que isso, não são 10% aleatórios, mas aquela parte que interessa às nossas expectativas, a que corresponde à nossa carência. Criamos a ilusão de que os outros noventa por cento terão a mesma magia, um encantamento parecido, e, é claro, os alicerces acabam corroídos conforme progredimos. Há pessoas ardilosas, entretanto, e essas devemos temer. Aquelas que nos mostram uma parte aparentemente desinteressante, manipulam o que querem passar de si mesmas ao mundo de fora. Guardam a melhor parte pra desnudar a poucos escolhidos, aos privilegiados que passarem pelas difíceis etapas que conduzem ao prêmio da confiança irrestrita. Nem sempre funciona. Da mesma forma que há pessoas ardilosas em manipular a própria imagem, há aquelas especializadas em descobrir tesouros ocultos. Arqueólogos dos sentimentos, têm o dom de perceber detalhes da alma alheia soterrados em areias movediças de dissimulação. Muito raramente pensam ter encontrado um tesouro incalculável sob alguma forma humana, e põem-se a escavar à procura do restante, sonhando com a aposentadoria que essa descoberta pode representar. Todos, arqueólogos ou ardilosos, sinceros ou dissimulados, nenhum grupo escapa ao problema dos 10%.
Querer adentrar no universo que existe além dos dez por cento da pessoa amada implica largar a segurança e o cobertor que nossas expectativas criaram e ficar à revelia num novo mundo frio, inóspito e que, muitas vezes, acaba por sufocar aquilo que procurávamos adentrar. Mórbida sensação. Porque nunca nos satisfazemos com o que temos às mãos, ao que nos foi permitido enxergar, ao que nos fascinou? A ambição desenfreada quer ir além, quer o controle, a sensação de entorpecimento total que ¿ imagina ¿ levará à certeza de ter encontrado a pessoa certa. Poderíamos ficar com o seguro, com os 10% originais, e crescer ao redor deles. Barganhar. Revelar 7% de nós mesmos em troca de mais 2% da outra pessoa, que sempre nos desvalorizamos nesses assuntos. O que acontece depois, o final da história, os clichês descambam no mesmo ponto: em algum momento descobrimos uma parte que nos assusta ou desagrada e quebra-se a magia, o liame se desfaz e já não mais queremos nem os 10% originais. Outras vezes não. Em poucas, raras e intempestivas tentativas, o coração persiste. Lá pelos 17% encontramos um ponto de apoio que anula a decepção mais adiante, nos 21%. Perto dos 35% uma surpresa que mantém o interesse até a metade, até os 50%, que não acredito ser possível alguém conhecer mais que a metade de outra pessoa. Se passamos a vida tentando descobrir metade de nós mesmos, que dirá revelarmos a alguém o que desconhecemos? Impossível
Como seria fácil se o Amor fosse como o produto de prateleira do supermercado que pegamos, lemos a descrição, prazo de validade e preço, então decidimos ou não em adquirir ou passar a outro produto. ¿Quero esse aqui porque não custa tanto e dura mais que aquele. Aquele é mais bonito, mas vence semana que vem, não vale a pena.¿ Não é assim. Compramos às cegas, só pela embalagem, sem provar do conteúdo. O dilema reside em concluir que não existe solução. Ficarmos passivos contemplando aquilo que nos foi permitido desvendar ou ir além dos dez por cento, não faz diferença. Os olhos amendoados e as sardas do colo que encantaram à primeira vista irão permanecer, ao invés duma porcentagem.. A saudade dum amor perdido, a lembrança daquela face, da lágrima escorrendo até a boca, dos cabelos longos molhados na chuva, tudo isso permanece. Podemos desvendar todos os segredos que antevíamos da outra pessoa, ter a nítida convicção de que a conhecemos e tirarmos proveito da situação. Sim, podemos. Mas do que lembraremos naquela noite fria de alguns anos à frente? O que fica, sempre, são os 10% iniciais, as primeiras impressões. Não a parte que nos foi oferecida, ou a outra que teimamos em desvendar. Fica aquela que adivinhamos, aquela parte da outra pessoa que, mesmo que ela nunca saiba, sempre nos pertenceu.
( ao som de "Everything", by Alanis Morrisete)
Arrumei os links do menu à direita, colocando os blogs em ordem alfabética e acrescentando também alguns de amigos, assim fica mais prático. O texto de hoje não tem assunto específico,foi mais um que comecei a escrever nas noites de insônia de maio e terminei hoje. E não, esse não é confessional, ou melhor, não é "baseado em fatos reais"...
A música mereceria um post à parte. O último verso deu o arremate ao meu texto, plágio assumido. Motivo pra inspiração, soa melhor. É do novo álbum da Alanis Morissette, que teve seu lançamento mundial hoje. Há 3 versões dessa musica circulando pelo mundo. A letra que postei é a da versão original escrita pela própria Alanis, que foi pressionada pela gravadora a gravar uma segunda versão devido aos protestos das rádios que se recusavam a tocar a música por causa do "asshole": do primeiro verso. Depois ela acabou gravando uma terceira versão, sem alguns versos considerados depressivos demais pela gravadora. Consegui pegar as 3 versões no Kazaa, e não há dúvida de que a original é a melhor. Ela voltou aos bons tempos, ainda bem. Desde a primeira vez que escutei, semana passada, adorei a letra. Fala do tipo de mulher que a maioria de nós homens gostaria de encontrar um dia: a do "pacote completo". Aquela em que pudéssemos enxergar tudo, virtudes e defeitos, e amá-la justamente por isso, por reunir essa diversidade numa única pessoa. Quando a mulher descobre que não precisa se apegar a nenhum modismo nem mudar o jeito de ser pra se encaixar em rótulos, ela tem o mundo a seus pés. Porque o que nós homens procuramos, no fundo, além de retribuição, é uma mulher com sua própria identidade. Não há nada pior que mulheres comuns e entediantes, iguais à maioria. Um brinde à personalidade (que ando tomando muito vinho nessas madrugadas frias) e Carpe Diem.
A medida certa
Eu penso em você uma vez ao dia. Acredito ter alcançado uma medida razoável à tua presença em meu cotidiano, aquela que oscila entre o medo da recordação e a necessidade de te esquecer. Uma única vez, não duas, três, dezenas às quais estava acostumado no início. O liquidificador do tempo misturando sentimentos deu vazão à serenidade de agora, onde pequenos instantes não impactam com a mesma profundidade inicial, tampouco deixam que você fuja, despercebida, à minha inquietação.
Uma vez ao dia. Sábado estava na sorveteria e a menina ao lado pediu o sabor que costumava ser o teu preferido. Houve uma terça em que vi uma silhueta parecida com a sua, à entrada do bar, e me tranqüilizei porque, pelo menos, havia uma desculpa razoável à lembrança. Como em teu aniversário, todos os anos. Outro dia já não, estava quieto observando a chuva caindo, de madrugada, pela janela entreaberta do quarto, o vento úmido entrando, e de repente o pensamento levou-me ao teu semblante, sem permissão, numa traição consentida com minha própria vontade de te esquecer. Dia 23 do mês passado encontrei uma amiga tua num casamento, impossível dissociar. Na quarta foi num sonho do qual acordei esbaforido, imagens e pessoas misturadas numa história sem nexo aparente. Você estava lá, num plano acima do meu, observando tudo, calada, enquanto eu esperava pelo momento em que algo intercederia a que você entrasse na história, o que acabou não acontecendo. Mais uma vez. Numa outra quarta, semana passada ou retrasada - não me lembro ao certo - foi num verso dum poema que, inadvertidamente, me levou a lugares que imaginava já sem trilhas, cobertos pela folhagem do tempo. Não me recordo do verso, apenas dos lugares e do caminho de volta que não hesitei em tomar.
Uma vez ao dia, em média. Hoje foram duas, no e-mail que li pela manhã e nesse texto de agora. Ontem, entretanto, nenhuma, o que avaliza o cálculo. Dentre os dias desse mês, o que me trouxe mais alegria foi aquele em que escutei a música da banda que adoramos, primeiro ponto comum identificado quando nos conhecemos. O seriado do dia seguinte trouxe sentimentos parecidos. Ir ao cinema não, trouxe a realidade da ausência, da mão entrelaçada, da tua cabeça recostada em meu ombro em outros tempos. Saudade. Comparações espontâneas também formaram muitos desses momentos. O perfume igual ao teu da mulher que só ficou até a manhã do dia seguinte. O beijo morno, lento e molhado daquela outra, diferente no efeito que produziu aos meus próprios lábios, desacostumados e arredios a amores de fim-de-semana.
Uma vez ao dia pra me lembrar de você é a medida certa, do contrário enlouqueceria. A previsibilidade assusta, consigo enumerar situações que nem se avizinharam ainda. Uma roupa decotada da estranha na próxima semana que me lembrará aquele teu vestido de listras vermelhas, o prato do restaurante de amanhã, a voz sussurrada de alguém ao telefone no dia seguinte. Em alguns anos talvez arrefeça, a lembrança diária passará a semanal, aumentarão os intervalos e diminuirá a carência, até que me surpreenderei ao constatar, num sábado de primavera, que você foi embora. Mas eu penso em você uma vez ao dia. E você ainda está aqui.
Everything Alanis Morissette
I can be an asshole of the grandest kind
I can withhold like it's going out of style
I can be the moodiest baby
And you've never met anyone who's as negative as I am sometimes
I am the wisest woman you've ever met
I am the kindest soul with whom you've connected
I have the bravest heart that you've ever seen
And you've never met anyone who's as positive as I am sometimes
You see everything, you see every part
You see all my light and you love my dark
You dig everything of which I'm ashamed
There's not anything to which you can't relate
And you're still here
I blame everyone else, not my own partaking
My passive-aggressiveness can be devastating
I'm terrified and mistrusting
And you've never met anyone who's as closed-down as I am sometimes
You see everything you see every part
You see all my light and you love my dark
You dig everything of which I'm ashamed
There's not anything to which you can't relate
And you're still here
What I resist persists and speaks louder than i know
What i resist you love no matter how low or high I go
I am the funniest woman that you've ever known
I am the dullest woman that you've ever known
I'm the most gorgeous woman that you've ever known
And you've never met anyone who's as everything as I am sometimes
You see everything, you see every part
You see all my light and you love my dark
You dig everything of which I'm ashamed
There's not anything to which you can't relate
And you're still here
And you're still here
And you're still here...
Tudo
Eu posso ser a pessoa mais chata do mundo
Eu posso me manter como se não estivesse na moda
Eu posso ser a garota mais temperamental
E você nunca conheceu alguém que fosse tão negativa como eu sou de vez em quando
Eu sou a mulher mais esperta que você já conheceu
Eu sou a alma mais gentil com a qual você se conectou
Eu tenho o coração mais destemido que você já viu
E você nunca conheceu alguém que fosse tão positiva como eu sou de vez em quando
Você enxerga tudo,você enxerga cada parte
Você enxerga toda minha luz e você ama minha escuridão
Você escava tudo de que eu me envergonho
Não há nada a que você não possa se relacionar
E você ainda está aqui
Eu culpo todos os outros,não minha própria participação
Minha agressividade-passiva pode ser devastadora
Eu estou com medo e desconfiada
E você nunca conheceu alguém que fosse tão fechada como eu sou de vez em quando
Você enxerga tudo,você enxerga cada parte
Você enxerga toda minha luz e você ama minha escuridão
Você escava tudo de que eu me envergonho
Não há nada a que você não possa se relacionar
E você ainda está aqui
O que eu resisto, persiste, e fala mais alto que eu saiba
O que eu resisto, você ama, não importa o quão baixo ou alto eu vá
Eu sou a mulher mais engraçada que você já conheceu
Eu sou a mulher mais tola que você já conheceu
Eu sou a mulher mais brilhante que você já conheceu
E você nunca conheceu alguém que fosse tudo que eu sou de vez em quando
Você enxerga tudo,você enxerga cada parte
Você enxerga toda minha luz e você ama minha escuridão
Você escava tudo de que eu me envergonho
Não há nada a que você não possa se relacionar
E você ainda está aqui
(ao som de "Love", acoustic by Smashing Pumpkins)
Semana passada a Sofia, uma das pessoas que fazem parte da comunidade do Amor, no Orkut, criou um tópico pra discutir a diferença entre amor e paixão. A idéia do texto de hoje veio desse tópico, é curioso como cada pessoa tem sua própria concepção de amor e paixão. Como não existe uma verdade absoluta em relação a sentimentos, quis dar a minha visão disso no texto de hoje. Hoje o post é grande, pra compensar o tempo que fiquei sem atualizar. Depois do texto segue um trecho do livro "O Bandolim de Corelli", onde o Dr Yannis explica à filha a diferença entre Amor e Paixão. O meu texto foi baseado nesse trecho do livro, claro que sem a mesma beleza e síntese. A música é dum grupo que deixou saudades, não vejo nenhum hoje em dia com melodias e (principalmente) letras tão interessantes quanto os Smashing Pumpkins. A letra é praticamente um poema, e trata do assunto do texto. Falando em poema, aproveito pra compartilhar com vocês o que escolhi pra ficar na contracapa do meu livro. É pequeno mas eu tenho um carinho especial por ele, escrevi no final do ano passado quando estava em S.J.Rio Preto. O engraçado é que ele fala de solidão mas eu tava namorando na época. Parece que a gente adivinha algumas coisas... Bom final de semana pra todos vocês.
O passo adiante no precipício
Nunca consegui delinear claramente a diferença entre amor e paixão. Sempre achei a linha divisória tênue, um filtro chegando a entrelaçar os conceitos, onde um invadia o espaço do outro por osmose involuntária, assentando-se nos rótulos que aprendemos a usar em relação aos sentimentos. Sentimentos que não podem ser encapsulados em definições, é verdade, mas as diferenças entre eles cumprem bem esse papel de manual de instruções. Uma palavra, entretanto, incomoda quando aparece pra diferenciar amor de paixão: tempo.
Apaixonar-se é fácil. A professora do primário, a colega de turma, de academia, amiga da irmã, uma prima. Platônicas na maioria das vezes, são as mais gostosas porque não exigem retribuição, adoramos colocar essas pessoas num pedestal e idolatrar o objeto de devoção. Depois complica um pouco, começam os namoros. A descoberta que a paixão pode ser correspondida, e todas as conseqüências que traz, a vontade de abraçar o mundo, expressar o sentimento. De repente o susto, aparece outra pessoa e transferimos toda euforia a outro corpo, aquele de antes não tem mais graça. Vão-se os relacionamentos, surge a experiência. Uma desilusão aqui, um coração destroçado adiante, a persistência sempre. Em determinado momento conhecemos alguém especial que desperta outro lado estranho ao nosso conhecimento, e a idéia de Alma-Gêmea toma formas reais, irrompe sem convite. Então nos aproximamos dos 30, e a sacola não para de ganhar volume: solidão, desesperança em encontrar a pessoa ideal e a consciência, depois, de que não precisamos da perfeição ao nosso lado. O equilíbrio, amor-próprio em alta, a percepção de nos aproximarmos das pessoas certas; aspectos que tardam, mas também afloram na maioria, e o espírito fica pronto pra se aproximar do precipício..
Amar requer tempo, não há como fugir disso. Os mais pessimistas dizem que a paixão acaba depois de um par de anos, prefiro pensar que ela se transforma.O que fica depois que a paixão arrefece? O que realmente importa, o que faz a diferença. A paixão está sempre apressada, como as pessoas de Áries, quer tudo pra ontem, inclusive as decepções. O encantamento acaba refreando, esfria com a passagem dos invernos da alma e muda a paisagem interior. O que era ímpeto transfigura-se em admiração, o coração passa a bater num ritmo cadenciado sem o entorpecimento de antes, e podemos abrir os olhos àquilo em que a pessoa que está ao nosso lado tornou-se, sem máscaras e estratagemas verbais. O arrepio e o descompasso do coração cedem espaço à quietude, à paz de espírito, ao impagável sentimento de realização, plenitude. A adoração cega cede espaço à ternura, aprendemos a enxergar os erros e defeitos um do outro, e melhor, a rir deles. Então vem a deliciosa constatação de que, mais importante que um corpo em forma, beleza física ou inteligência, o que mais conta, ao final, é gostarmos de conversar com a outra pessoa.
Se a paixão nos faz querer morrer, o amor é mais ambicioso, faz com que queiramos envelhecer ao lado dessa pessoa. Morrer por uma causa cria mártires, nem sempre vencedores. Envelhecer ao lado de alguém que se ama cria exemplos de vida, respalda toda uma geração desacreditada porque traz o inevitável questionamento. "Se eles conseguiram, porque eu também não?". Querer envelhecer significa compartilhar as derrotas, principalmente, porque as vitórias não carecem de amparo. Olhar praquela pessoa deitada na sua cama, depois de alguns anos, e perceber a ternura que cresceu desde que se conheceram, o orgulho que tem por ter uma pessoa assim ao lado. A sorte e o privilégio de, entre tantas possibilidades, um ter se transformado na escolha do outro.Compartilhar os pequenos e, muitas vezes, imperceptíveis momentos de paz de espírito por ter feito a escolha certa.
A paixão nos faz ter consciência do precipício, do abismo que existe na colina dos relacionamentos humanos. A paixão nos aproxima do desfiladeiro, mas pára diante dele. Ela não sabe o que fazer ante o abismo, amedrontada estaca apenas observando de longe a paisagem que se forma abaixo, sem adentrá-la, sem conhecê-la em seu interior. Quando cansa da visão, parte em busca de outro precipício, e mais outro, sempre retesando os sentimentos em algum momento e partindo em busca do desfiladeiro seguinte. Alguns poucos persistentes e corajosos, entretanto, não se satisfazem em apenas observar. Esperam passar a estupefação inicial da descoberta e se permitem ficar, cismam que aquele é o desfiladeiro que lhes pertence, que aquele é o abismo a que estão fadados. O amor, então, vem e dá o derradeiro empurrão, o passo adiante em direção ao precipício. Ao descobrir o amor o medo de estatelar-se no chão durante a queda perde-se no sorriso de canto de boca que se forma, inconsciente, naquele instante. Não há limites aos horizontes daqueles que foram empurrados pela chegada do amor depois que a paixão arrefeceu, porque descobriram que possuíam asas. Entre o espanto e a felicidade incontida essas poucas pessoas percebem que aprenderam, enfim, a voar.
Cap 47 - Dr Yannis aconselha Pelágia
"O amor é uma loucura temporária, surge como uma erupção vulcânica, depois arrefece. E quando arrefece é preciso tomar uma decisão. Precisa refletir se suas raízes se entrelaçaram tanto que será impossível que vocês se separem um dia. Porque o amor é isso. O amor não é perder o fôlego, não é empolgação, não é a promulgação de promessas de paixão eterna, não é o desejo de se unir a cada minuto do dia, não é ficar acordado à noite imaginando que a outra pessoa está beijando cada recesso do seu corpo. Isso é só "estar apaixonado", coisa que qualquer tolo pode fazer. O amor, em si, é o que resta quando a paixão já se esgotou, e isso é ao mesmo tempo uma arte e um feliz acaso. Aconteceu entre mim e sua mãe, tínhamos raízes que cresceram uma em direção às outras debaixo do solo, e quando todas as flores belas já haviam caído dos nossos galhos descobrimos que éramos uma só árvore, e não duas. Mas às vezes as pétalas caem e as raízes não se entrelaçaram."
Minha insônia (Edú)
Minha insônia é fria e triste nessa madrugada
que teima em não acabar.
Minha insônia é chuvosa,
Sem estrelas,
Com olhos arregalados que piscam ao som do vento
batendo na janela do quarto.
Nela as flores murcharam,
A primavera se esquiva,
O silêncio incomoda.
Minha insônia é paciente.
Quer te acordar, mas emudece;
Não tem companhia, cresce solitária.
Minha insônia sempre me leva
Ao precipício da tua ausência.
Love (Smashing Pumpkins)
To my mistakes, to my mistakes of cowardice
She shimmy shakes, the jimmy jakes of consequence
Born of the airs and dues, my airs of madness do declare
That it's ok, it's love
It's what you wanted to see, it's who you wanted to be
For what you needed to need, she'll make it up
Love, it's who you know
Love, it's who you know
Love, it's who you know
Machine gun blues, her vacant rush is so steel
I'm unaware, lost inside your visions
I got mine too over, I got mine and I got you
Cause I know you, you're love
It's what you wanted to see, it's who you wanted to be
For what you needed to need, she'll make it up
Love, it's who you know
Love, it's who you know
Love, it's who you know
Can I look up to you as you look down on me
Can I feel in to you as you felt into me
I can't help what you see, I can't help but to be
For what I needed to need, she'll make it
Love, it's who you know
Love, it's who you know
Love, it's who you know
Amor
Aos meus erros, aos meus erros de covardia
Ela balança trepidante, a dança da consequência
Nascido das aparências e obrigações, meus aspectos de loucura realmente declaram
Que está tudo bem, é amor
É o que você queria ver, é quem você queria ser
Para o que você precisava necessitar, ela vai conseguir
Amor, é quem você conhece
Amor, é quem você conhece
Amor, é quem você conhece
Metralhadora triste, a pressa vazia dela é tão feita de aço
Eu estou inconsciente, perdido dentro das suas visões
Eu tenho as minhas bem em cima,Eu tenho as minhas e tenho você
Porque eu te conheço, você é amor
É o que você queria ver,é quem você queria ser
Para o que você precisava necessitar, ela vai conseguir
Amor, é quem você conhece
Amor, é quem você conhece
Amor, é quem você conhece
Posso olhar pra cima em sua direção enquanto você baixa os olhos a mim?
Posso te sentir como você sentiu a mim?
Não posso ajudar no que você enxerga, não posso ajudar além de estar
Para o que eu precisava necessitar, ela vai conseguir
Amor, é quem você conhece
Amor, é quem você conhece
Amor, é quem você conhece
(ao som de "The way you look tonight", acoustic by Tony Bennett)
O texto de hoje não chega a ser texto, é um pequeno desabafo. Ontem foi um dia especial porque foi o niver de uma das pessoas por quem mais tenho carinho, a Safira. A letra de música é uma pequena homenagem a ela, é uma de nossas músicas preferidas. Qualquer coisa que escrevesse seria pouco perto do bem que ela me traz com a presença aqui, mesmo que à distância.
Inseri no post de hoje um trecho que adorei dum filme que assisti esse final de semana, Adaptação. Aquele pequeno diálogo fala por si, não preciso justificar a presença dele aqui. A nota triste da semana foi receber a notícia do "falecimento" de dois blogs especiais, o da Patricia e o da Daniela. Meninas, reconsiderem, por favor, a net tem tão poucos blogs interessantes, vocês estão fazendo muita falta.
Missing the tingles
Quem já não ficou com uma música ou frase latejando na cabeça durante algum tempo? Filme, show, novela, seriado, não importa a fonte, fica a impressão de que a frase resume sua vida naquele período. A minha, nesses últimos tempos, tem sido "I miss the tingles". Tingle(s) é daquelas palavras em inglês que não têm tradução exata pra nossa língua. Refere-se aos sentimentos que a pessoa tem quando está apaixonada: formigamento, coração descompassado, arrepio. Semana passada revi "Louco por você" (Down to you), um filme que gosto muito, e essa frase foi dita uma única vez, pouco antes do final. Em resumo, um dos personagens passa o filme tentando convencer um amigo sobre a necessidade da racionalização no amor, de que tudo nele é ilusório, que nos traz mais malefícios que coisas boas, já que sempre acaba. Num dos trechos finais, entretanto, ao ver o amigo arrasado porque havia terminado o romance com a namorada, capitula e solta a frase: "I miss the tingles" (algo como "Sinto falta do formigamento,do arrepio")
Como determinadas épocas do ano nos fazem pronunciar essa frase de boca cheia... Os últimos dias, por exemplo. Frente fria no país todo, chega a noite e ficamos assistindo algum filme na TV, cálice de vinho na mão, cobertor e uma vontade louca de ter alguém do lado pra dar sentido àquele painel. Por mais que propaguemos as vantagens de estarmos "disponíveis", solteiros (e realmente há inúmeras), chega um dia como o de hoje e põe tudo abaixo. Capitulamos. Parece que tudo se dilui na constatação de que há poucos momentos mais gostosos, na vida de uma pessoa, que poder refugiar-se num abraço bem apertado e espontâneo, esquentar as mãos entrelaçando-as nas da outra pessoa, enroscar os pés, o corpo, a alma, os destinos. A falta de paixão acaba virando úlcera nos sentimentos. De repente nos percebemos mais agressivos nos diálogos com os amigos, no trabalho, na solidão. Por mais apego ao amor-próprio que tenhamos, a ausência de um amor prejudica o equilíbrio. Não pelo fato da "injustiça" (e todos não pensam assim?) de estarmos sozinhos, mas por não podermos ter alguém a quem expressar o amor que carregamos dentro de nós. Aquele amor que não pede retribuição, quer apenas sair da caixa, extravasar; mostrar ao mundo que ele, apenas, existe. Não importa se o objeto da paixão não a merece ou não corresponde da maneira que gostaríamos. Basta ter alguém pra gostar, alguém que nos faça ter o pacote completo dos sentimentos deliciosamente previsíveis e repetitivos, e nem por isso sempre diferentes. Não que estejamos de mal com o mundo na solidão, o problema é a questão do motivo. Não tem graça escalar os próprios sonhos se não encontrarmos alguém pra compartilhar a alegria da conquista dos objetivos profissionais e pessoais. O amor, em si, é esse objetivo.
Outro aspecto ruim de se passar muito tempo sozinho é a questão da referência. Nós vamos perdendo a bússola pra pessoas especiais, o norte geográfico, e pode acabar acontecendo da bússola transformar-se em roleta, onde apostamos na quantidade esperando encontrar qualidade. Que, infelizmente, dificilmente aparece dessa maneira. Lei de Murphy: pessoas interessantes não aparecem quando precisamos delas.
Perceberam o que mais a falta dos tingles traz? O indivíduo começa a escrever textos vazios, repetitivos, com toques pessimistas...O lado bom é o da mudança, a única certeza. Mais tarde o frio despede-se, a garoa cessa, volta o sol implacável e com ele a esperança. Um pouco depois, de súbito (porque sempre vem inesperado), num dia rotineiro qualquer, o coração começa a bater diferente, o sorriso não consegue fugir do semblante. O palpite, a primeira impressão. Sim, há sempre o dia em que o time volta a vencer, você passa a gostar de músicas diferentes, um novo filme te encanta. Noites de meio de semana como a de hoje, entretanto, são covardes, apunhalam o coração de quem está sozinho. I miss the tingles....
(Diálogo entre Charles e seu irmão-gêmeo no filme "Adaptação")
- -Eu te admiro. Passei a vida toda paralisado pelo que os outros pensariam de mim, e você é indiferente a tudo isso.
- Não sou indiferente.
- Não entendeu, foi um elogio. Uma vez, no colegial, te olhei pela janela da biblioteca, você estava conversando com Sarah Marsh
- Eu era tão apaixonado por ela...
- Eu sei. Você a estava paquerando, e ela estava sendo receptiva.
- Eu lembro.
- E quando você foi embora, ela ficou tirando sarro de você para Kim Canetti. Parecia que elas estavam rindo de mim. Você não fazia idéia. Parecia tão feliz...
- Eu sabia. Eu as ouvi.
- Então porque estava tão feliz?
- Eu amava Sarah. Era meu, aquele amor. Ele me pertencia. Nem Sarah tinha o direito de tirá-lo de mim. Posso amar quem eu quiser.
- Mas ela te achava patético.
- Isso era problema dela, não meu. Você é aquilo que você ama, não quem ama você. Foi o que decidi há muito tempo.
The Way You Look Tonight
Some day, when I'm awfully low,
When the world is cold,
I will feel a glow just thinking of you...
And the way you look tonight.
Yes you're lovely, with your smile so warm
And your cheeks so soft,
There is nothing for me but to love you,
And the way you look tonight.
With each word your tenderness grows,
Tearing my fear apart...
And that laugh that wrinkles your nose,
It touches my foolish heart.
Lovely ... Never, ever change.
Keep that breathless charm.
Won't you please arrange it ?
'Cause I love you ... Just the way you look tonight.
Mm, Mm, Mm, Mm,
Just the way you look to-night.
Do jeito que você está essa noite
Algum dia,quando eu estiver terrivelmente pra baixo,
Quando o mundo esfriar,
Eu me aquecerei só de pensar em você...
E do jeito que você está essa noite.
Sim, você é adorável,com seu sorriso tão caloroso
E suas bochechas tão macias
Não há nada que eu possa fazer a não ser te amar,
E do jeito que você está essa noite.
A cada palavra sua ternura cresce,
Acabando com meu medo...
E aquela risada que deixa seu nariz franzido
Toca meu abobado coração.
Adorável...nunca, algum dia, mude.
Mantenha esse charme que me deixa ofegante
Porque eu te amo...do jeitinho que você está essa noite.