(ao som de ¿4 white stallions¿, live by Counting Crows)
Ainda me pego assustado às vezes ao perceber como a música consegue mudar o estado de espírito das pessoas. Estava agora, de madrugada (pra variar) terminando de escrever um texto pra postar no sábado sobre o vazio que a falta da paixão nos traz, e comecei a escutar a música acima., dos Counting Crows, que peguei acidentalmente no Kazaa (estava procurando outra deles). A letra fala da raiva que sentimos de nós mesmos por ainda gostarmos de pessoas que não deveríamos gostar mais. Pronto, não tinha mais como terminar aquele texto, comecei a escrever esse outro abaixo, sem pensar muito, e quando vi tinha feito algo totalmente oposto ao que tinha me proposto inicialmente. Bom, acho que uma coisa acaba relacionando-se à outra, a falta dos ¿tingles¿ dá nisso mesmo, a mente fica ziguezagueando pela lembrança. Não gosto disso, às vezes acabamos desenterrando coisas que já deveriam estar pavimentadas. Anyway, resolvi colocar o texto assim mesmo. A música acabou rendendo um poema também, ainda bem que o livro foi encaminhado pra registro ontem, já há poemas e textos tristes demais lá. Fica pro próximo. Bom final de semana e Carpe Diem.
3 dias
¿God how I hate myself
for still wanting her¿ (trecho de ¿4 whute stallions¿, Counting Crows)
O sono já vai alto quando você desperta num susto e descobre o segredo: estabelecer prazos. Ainda zonzo e com as idéias enevoadas pelo despertar súbito,comemora a libertação.. Sim, prazos, limites de tempo. Não vivemos rodeados deles? Temos prazos pra finalizar algum projeto no trabalho, pra entregar trabalhos na faculdade,ajudar alguém, almoçar, diversão. A maioria dos conselhos que recebemos não impele à racionalidade nos assuntos do coração? Você decide, portanto,ser racional..
Lembra da facilidade em aconselhar amigos, dizer os chavões tradicionais do tipo ¿você está muito melhor sem ela(e)¿,¿merece coisa melhor¿, e afins. Ouvir esse tipo de conselho também não se constitui nenhum martírio, mas e quando a vítima é você? A situação típica de pânico vem depois, na solidão. Madrugada de um dia frio, chuva fina lá fora, você sozinho no quarto, liga a TV e inconscientemente coloca no programa favorito dos dois. Resolve que não quer isso, não essa noite, e desliga. Então vem o som, e não resiste em ouvir a música que te traz a lembrança da época em que estavam juntos. Na verdade qualquer balada serviria ao propósito, mas o coração é masoquista, você quer ¿a¿ música. E ouve, pensativo. Olha pro telefone, mas a idéia logo foge, não teria cabimento algum. Pensa em ligar o computador, acessa a net torcendo pro tempo correr e, quando percebe que ela também está on-line e te percebe lá, a bobagem já está feita. Espera, paciente, chega a teclar uma mensagem banal qualquer só pra puxar assunto, e, novamente, desiste. Masoquista, mas com amor-próprio. Desliga o PC, abre a janela do quarto e fica olhando a garoa lá fora, o vento frio entrando pela fresta, mas a sua melancolia paralisa o corpo às mudanças climáticas. Tenta ler um livro, depois aquela revista jogada no canto do quarto; percebe que é paliativo. Precisa arrumar uma solução definitiva àquilo, não quer continuar cárcere duma lembrança que não pode, não deve e não vai voltar a se fazer presente.O que permanece é a raiva incontida que sente de si mesmo, nesse instante, por ainda gostar tanto dela.
Decide que aquilo precisa acabar, então formula a teoria dos três dias. Propõe um acordo ao coração: três dias mais dessa linha circular, três dias pra revirar o passado na memória, retirar os fragmentos que incomodam e brincar de faz-de-conta com eles. Três dias e pronto.Três dias bastam, nem um minuto a mais. Três dias mais pro entorpecimento, pra recusa às novas relações, pra porta fechada ao mundo de fora. Três dias livres de questionamentos, cobranças e autocomiseração. Três dias antes da comunhão dos sentimentos com ações práticas; setenta e duas horas pra, enfim, acordar. O coração não responde à proposta, mas você impõe, soberano, decide que aquela prostração simplesmente não vale a pena. E você está cansado de coisas e pessoas que não valem a pena.
Três dias. Depois você empacota as cartas, CDS, fotografias, paisagens, cheiros, sonhos; a alma até aquele instante. Tranca num armário qualquer, mesmo que imaginário, e joga fora a chave.Três dias Você tem até domingo pra deixar de desejá-la novamente ao seu lado. E ,depois, a vida toda pra esquecê-la..
Queria escrever um pouco sobre o Orkut. É uma comunidade virtual, criada pelo Google para, em resumo, facilitar a interação entre as pessoas. Fica difícil explicar, só participando pra ver como é. Lá as pessoas têm contato com outras de gostos afins, podem criar comunidades próprias sobre o assunto que quiserem, escolher quem participa, fazer amizades de acordo com os interesses e gostos. De início eu entrei desconfiado, através de um convite da minha amiga Cíntia, e acabei me viciando, não consigo ficar um dia sem entrar e dar uma olhada nas comunidades que participo. Já fiz algumas amizades lá, descobri comunidades muito interessantes e aprendi bastante sobre assuntos que sabia pouco. Estou participado em mais de 30 (por enquanto), desde a da minha religião até Leo Buscaglia, passando por U2, Vidas Passadas, Music to fuck, Espancadores de Teclados e Sonhos Conscientes. Criei 3 comunidades, que coloquei nos links aqui do template. A do Amor já tem 23 participantes, nós discutimos assuntos relacionados ao tema; a de Cuiabá é pras pessoas daqui da minha cidade, e a Lista das 7 é pra quem adora fazer lista de tudo (musica, filme, desenho preferido, etc.). O bom é que é grátis, há milhares de usuários brasileiros (o Brasil já é o segundo no mundo em número de usuários) e com uma interface rápida e interessante. Apesar de grátis, você só pode entrar lá por convite de algum participante já cadastrado. Se alguém se interessar, é só me mandar um e-mail que eu envio o convite. O cadastro é em inglês e um pouco longo, mas não é necessário preencher tudo, você só preenche o que quiser, e as comunidades de brasileiros são todas em português, não é preciso domínio do inglês. Eu garanto que vicia.
Quanto ao texto, não há muito que escrever, quem nunca teve um amor-bandido ou pelo menos alguém próximo que se envolveu numa relação assim? A música, do Chico Buarque mas que ficou consagrada na voz da Fafá de Belém, é a minha preferida sobre o tema. Carpe Diem.
Amor-Bandido
"Não tem graça amar quando dói." (Warren Beaty no filme Clamor do Sexo, de 1961)
Dentre todos os estereótipos acerca dos tipos de amores possíveis, o que mais assusta é o do amor- bandido. Não há como antever sua chegada, precisar sua duração ou curar-se por completo dos seus efeitos. A entrega surge naturalmente, já que você não teve a opção da escolha. Mergulha num espasmo submergindo na passividade e deixando a terra-firme do orgulho distante, bem longe, quase uma visão distorcida pela viseira em que os sentidos ficam confinados.
A melhor imagem do amor bandido vem do abutre. Ele te conquista pelos vícios, não pelas virtudes. Fareja o odor da baixa estima, analisa de forma ardilosa as fraquezas e pontos fortes do inimigo, aguarda paciente o vacilo do coração e ataca, impiedoso e cruel. Quando você se dá conta já está com o corpo e sentimentos entorpecidos nesse amor, e resolve se entregar pra ver onde aquilo pode descambar.A tática consiste em fragilizar até o amor-próprio do outro estar tão baixo a ponto de se deixar dominar, entregando-se à correnteza do rio sem forças pra nadar até a margem oposta. Pesadelo consciente, você sabe que está numa relação assim, mas não tem forças pra escapar. Você não quer se livrar dele porque, por piores os danos que o amor-bandido lhe cause, é sua tábua de salvação, seu oráculo na lembrança, aquilo a que pode recorrer nos momentos de apatia, solidão e tristeza da alma.Você precisa ter a quem acusar, e não existe coisa melhor que poder jogar a culpa na outra pessoa. Pra que olhar pro próprio umbigo, se há um outro mais acessível? Ao não saber lidar com seus próprios sentimentos, fica mais fácil entregá-los a uma lembrança que te magoou, causou sofrimento, mas fez com que, ao menos, sentisse algo. Mórbida conclusão, o sofrimento é preferível ao nada. Mesmo a dor é melhor que a apatia, a estagnação e a descrença em si próprio e nos relacionamentos. Isso te enraivece, porque tem que admitir que o amor bandido te carregou a extremos que nem sabia possuir, e não entende porque os outros amores mais calmos e politicamente corretos nunca te trouxeram essas sensações.
Um dia, entretanto, você cansa, e então vem a salvação. Cansa de ouvir as mesmas melodias depressivas, a dor-de-cotovelo já não parece ter o glamour do início a seus olhos e você resolve, enfim, acordar. Finalmente dá-se conta de que não merece estar naquela situação de prostração, e melhor, não precisa estar assim. Pega os cacos de auto-estima que estavam jogados na varanda, cola e toma a atitude. Às vezes o rompimento vem do outro lado, o amor bandido também acaba cansando desse domínio sem-graça e enjoa; parte atrás de outra vítima, outro desafio, alguém que ofereça qualquer coisa ao relacionamento, mas alguma coisa. E você fica pra sempre com aquela cicatriz na alma, que antipatiza de início mas aprende a respeitar com o tempo, porque ela te ensina. Aprende na dor, no sofrimento, na mutilação do coração. Ao encarar aquela cicatriz nas horas de solidão, aprende que um amor que te envolva nesse ambiente depressivo pode ser chamado de tudo, menos de amor.
Sob Medida (Chico Buarque)
Se você crê em Deus
Erga as mão para os céus
E agradeça
Quando me cobiçou
Sem querer acertou
Na cabeça
Eu sou sua alma gêmea
Sou sua fêmea
Seu par, sua irmã
Eu sou seu incesto (seu jeito, seu gesto)
Sou perfeita porque
Igualzinha a você
Eu não presto
Eu não presto
Traiçoeira e vulgar
Sou sem nome e sem lar
Sou "aquela"
Eu sou filha da rua
Eu sou cria da sua
Costela
Sou bandida
Sou solta na vida
E sob medida
Pros carinhos seus
Meu amigo
Se ajeite comigo
E dê graças a Deus
Se você crê em Deus
Encaminhe pros céus
Uma prece
E agraceça ao Senhor
Você tem o amor
Que merece
(ao som de "Coisas da vida" - acústico MTV, por Rita Lee)
Comecei a escrever alguns textos mas não consegui terminar nenhum, então resolvi postar uma crônica antiga que acabou excluída do livro (na verdade não gosto muito dela), só pra não deixar o blog mais de uma semana sem atualização. Escolhi essa porque sexta-feira acontece o show da Rita Lee aqui na minha cidade, e a crônica eu fiz, na época, baseada nessa música dela, que é a minha preferida. E quem nunca passou pela situação do refrão "a gente se olha e não sabe se vai ou se fica"? Ah, os amores mal resolvidos... Amanhã eu troco o texto, tiro esse e coloco um dos que estou escrevendo. Carpe Diem.
Reencontro
- Nossa, que surpresa! Você aqui...
Um vento gélido correu pelo corpo, o formigamento que conhecia bem e andava sumido.
- Caramba, quanto tempo? Cinco anos?
- Por aí, talvez um pouco mais...
- Esse tipo de barzinho nunca foi seu estilo, que aconteceu?
- As pessoas mudam.
Ele notou um tom mais profundo naquela afirmação, mas preferiu não polemizar.Ela nunca gostou de ser contrariada.
- Que fez de bom nesse tempo?
- Nada de muito interessante, a mesma vidinha... cama, trabalho, cama, um cinema de vez em quando, um namoro aqui, outro enrosco mais à frente.... e você?
- Larguei aquele emprego, montei um negócio próprio com umas economias que sobraram e to indo até que bem. Dá pra pagar as contas, pelo menos não tenho que agüentar mais aporrinhação de chefe, passei da idade disso.
Ela vira a face na direção oposta enquanto ele fala, desinteressada, como que procurando um rosto conhecido ao redor. Acena a um grupo no fundo do bar.
- Veio sozinha?
- Marquei com uma turma, aquele pessoal ali de trás, daqui a pouco vou pra lá. E você, ainda tá com aquela umazinha?
O sorriso desponta no rosto de ambos, primeiro no dele. Tanto tempo e ela ainda se importava...
- Não, terminamos. Iguais demais, não funciona assim. Até de jazz ela gostava, quando começou a emprestar meus cds da Ella e não devolver vi que não podia dar certo.
- Toda vez que passa aquela propaganda da cerveja na tv com Stormy Weather eu lembro de você, era apaixonado por essa música, não?
- Ainda sou. Falando nisso, tá escutando?
Alguém começa a cantar "Coisas da Vida", da Rita Lee, no palco. Ela franze a testa e presta atenção, tentando reconhecer a melodia.
- É da Rita, não é?
- Sim, essa me lembra você. Toda vez que escuto, desde que terminamos, até hoje. Acho que é pelo refrão, "E a gente se olha e não sabe se vai ou se fica..." . Como agora.
- Assim me deixa sem graça.
- Desculpe, não foi a intenção. Coincidências...elas sempre rodearam nossa historinha.
- Tava pensando nisso... você não perde a mania de adivinhar meus pensamentos, né?
- Dom, fazer o que...você também tem os seus...
Um silêncio de minutos toma conta dos dois. Ele notou as covinhas no rosto dela, quando sorriu envergonhada. Foi a primeira coisa pela qual se apaixonou quando a conheceu. Desvia o olhar antes que ela perceba, sabe bem o estrago que esse par de covinhas é capaz de fazer. Um turbilhão rodeia sua cabeça, a vontade de sentar e ficar horas conversando, perguntar dos amigos em comum que sumiram quando se separaram, do cachorro, da família... Mentira. Queria mesmo era saber dela, perguntar deles, o que é que tinha acontecido, como puderam terminar daquela maneira.
- Pois é...
- Não quero atrapalhar sua noite, seus amigos já estão olhando pra cá com cara feia. Bom te encontrar de novo.
- Então...vê se manda notícias de vez em quando...
- Espera. Não posso te deixar ir assim, sem perguntar.
- Você e sua sinceridade... nem me espanto mais. Pergunta, vai.
- O que foi que aconteceu com a gente? Por que fiquei com a sensação de amor mal-resolvido?
Ela pára, passa as mãos pelos cachos desalinhados do cabelo, demonstrando surpresa, olha pro sapato buscando uma explicação e finalmente respira fundo. Pousa a palma da mão sobre a dele, soltando logo depois, despedindo-se, não sem antes responder.
- Nós soubemos terminar, foi isso.Não passamos da hora como todo mundo. Antes das brigas, da decepção, daquela idealização cair do pedestal. Você entende disso melhor que eu.
- Eu prefiro pensar que não estávamos preparados um pro outro ou que nos conhecemos na hora errada.
- Que discussão boba. De qualquer maneira, isso agora não tem mais sentido algum, tem?
Ela dá um sorriso tímido e sai apressada, mas agora em direção ao banheiro, rezando pra chegar antes que a maquiagem borrasse, perguntando a si mesma por que diabos tinha dito aquilo, e o que ele queria dizer com não estarem preparados...
Ele fica, o copo de vinho na mão,olhar fixo no palco, os versos da música ressoando na cabeça enquanto divaga sobre como as coincidências aparecem em nosso caminho quando menos esperamos. Procura alguma lógica nesse reencontro e percebe, resignado, o estrago que aquelas covinhas acabaram de fazer - de novo - em seu coração...
"Ah... são coisas da vida
E a gente se olha e não sabe se vai ou se fica...
Ah... são coisas da vida
E a gente se olha e não sabe se vai ou se fica..."
Coisas da vida Rita Lee
Quando a lua apareceu
ninguém sonhava mais do que eu
Já era tarde
Mas a noite é uma criança distraída
Depois que eu envelhecer
Ninguém precisa mais me dizer
Como é estranho ser humano
nessas horas de partida
É o fim da picada,
Depois da estrada começa uma grande avenida
No fim da avenida
Existe uma chance, uma sorte,
Uma nova saída
Qual é a moral?
Qual vai ser o final dessa história?
Eu não tenho nada pra dizer,
por isso digo
Eu não tenho muito que perder,
por isso jogo
Eu não tenho hora pra morrer,
por isso sonho
Ah, ah, ah, são coisas da vida
Ah, ah, ah, e a gente se olha e não sabe se vai ou se fica...
Ah, ah, ah, são coisas da vida
Ah, ah, ah, e a gente se olha e não sabe se vai ou se fica...
Bom, eu havia escrito que só daria a notícia depois da confirmação, e como ela veio ontem, quero dividir um pouco da minha alegria com vocês. Assinei o contrato com a editora, definimos a ordem e o conteúdo final (falta só a gravura da capa), e posso agora afirmar que o Blog virou livro. A idéia inicial, quando comecei a escrever "Flores na Janela", era de lançar um livro apenas com poemas de amor, como havia feito em "Ariadne", meu primeiro livro. Então comecei a escrever alguns textos pro blog, recebi comentários carinhosos de muitas pessoas daqui sobre alguns deles, e aos poucos fui modificando a idéia inicial. Claro que é muito bom recebermos críticas construtivas (e não quero soar falso nisso) , mas é a identificação que faz as coisas andarem. Pra quem escreve, importante não é alguém dizer "gostei do que escreveu" ou algo parecido, mas sim "aquilo me lembrou uma situação que vivi" ou "você descreveu sentimentos que tive".
O livro será publicado pela editora KCM, terá aprox. 200 páginas com 125 poemas e 17 textos, sendo 3 inéditos e 14 já postados aqui no blog nos últimos dois anos, com modificações. O nome vem do primeiro poema do livro, um que gosto muito (sou suspeito, né?), achei que não deveria trocar mesmo depois das mudanças do formato. Conteúdo e ordem já foram definidos, essa semana vai ser encaminhado para registro e, depois da confirmação, marco a data do lançamento. Provavelmente será aqui em Cuiabá no Sesc Arsenal, um lugar que gosto muito, em junho. A editora tem uma loja virtual e, se alguém se interessar em comprar e não residir aqui, é só entrar no site deles depois do lançamento do livro.Vou colocar o link quando tudo estiver pronto. Mesmo assim, ainda estamos tentando colocar o livro em uma das grandes lojas que vendem pela net, até o lançamento teremos uma resposta. Os textos serão intercalados com os poemas de acordo com o que tentam mostrar, achei essa forma mais interessante que dividir em duas partes distintas. O prefácio foi escrito pelo meu amigo e professor Bill (ele detesta ser chamado pelo nome, só pelo apelido). Bill foi meu professor à época em que morei em Staten Island, nos EUA, entre 95 e 96, e foi a pessoa que mais me incentivou a escrever. Foi quem me convidou a assistir suas aulas de literatura americana no Wagner College como ouvinte, e até hoje guardo lembranças das discussões que a leitura de alguns trechos de poemas e livros provocavam entre os alunos. Sempre que consigo (a barreira da língua é um entrave quando se refere a traduzir poemas) mando alguns poemas e textos pra que ele dê sua opinião. Fiquei muito feliz quando aceitou de pronto o convite a fazer o prefácio, mesmo sem ler todo o conteúdo. Identificação e estímulo.
O trecho de livro que coloquei abaixo foi retirado de um capitulo de Montanha Gelada, do Charles Frazier, que estou lendo agora. É o que deu origem ao filme Cold Mountain. Fiz uma aposta, depois de assistir ao filme, de que o livro deveria ser interessante, e acertei em cheio. A prosa poética do autor é daquelas que fazem os escritores amadores, como eu, pensarem "- Caramba, quando eu crescer, é assim que quero escrever". Esse trecho fala do susto que levamos quando descobrimos coisas boas em nós mesmos que desconhecíamos. Endosso. No meu caso, ele não veio pelo espelho, como Ada, mas pelos comentários de todas as pessoas daqui do blog desde que comecei a postar. Obrigado de coração.
Rosa-chá
Quando a luz começou a desaparecer, Ada baixou o livro e examinou o céu. Alguma coisa na cor da luz ou no cheiro da noite que caía a fez lembrar-se de uma festa, durante sua última viagem a Charleston, pouco antes do bombardeio do forte Sumter, e contou-a a Ruby.
Na última noite da festa, Ada usava um vestido de seda cor de malva, debruado de rendas tingidas da mesma cor.Cortado bem rente à cintura, para fazer jus à sua esbelteza. Monroe comprara toda a peça do pano com que o vestido fora feito, assim ninguém mais usaria aquela cor. Ele comentou que realçava perfeitamente seus cabelos escuros e lhe dava um ar misterioso em meio aos rosas, azuis e amarelos mais banais. A silhueta dos pares que dançavam passava pelas janelas amarelas, e a música estava nítida o bastante para ser identificada: primeiro Gungl e depois Strauss.
Ada lembrava-se de que, ao atravessar a casa para subir até o quarto, tivera sua atenção despertada pela figura de uma mulher, de costas para o espelho. Ela parou e olhou. O vestido que ela usava era da cor a que costumavam dar o nome de rosa-chá, e Ada ficou ali parada, imobilizada por uma pontada aguda de inveja pelo vestido da moça, pelo contorno bonito das costas, pelo cabelo escuro e basto, pela sensação de segurança que ela parecia mostrar em cada pose.
Aí deu um passo adiante e a outra mulher também deu. Percebeu então que estava admirando a si mesma, o espelho tendo capturado o reflexo de um outro, na parede oposta. A luz das lâmpadas e o tom dos espelhos tinham conspirado para mudar as cores,desmaiando o malva em rosa. Subiu os degraus até o quarto e preparou-se para deitar, mas dormiu mal aquela noite, porque a música continuou até o amanhecer. Deitada, de olhos ainda abertos, pensou em como fora estranha a sensação de obter seu próprio endosso.
(ao som de "I just wanna be loved", by Boy George)
O texto de hoje é um pouco diferente, quis escrever sobre a dificuldade em terminar um relacionamento que não faz mais sentido em nossa vida. Acho que só quem já passou por isso entende a angústia que sentimos nesse momento. Estou num final de semana sem tempo pra nada, tenho aula da Pós de hoje até domingo à noite, então peço desculpas pelos erros porque não tive tempo de revisar.
A música já vem no sentido oposto do texto. Eu queria postar algo alegre, e me lembrei desse reggae do Boy George que eu sempre escutava no carro antes de sair pelas madrugadas da vida na época da faculdade. Adoro a letra, é um hino ao amor-próprio. Como ela se encaixa ao momento que vivo ultimamente, resolvi postar. Um ótimo final de semana a todos vocês!
O Ás de Copas
E de repente você se pega naquela situação. Tenta lembrar como pôde deixar as coisas chegarem àquele instante, o porquê da omissão e falta de coragem. Resolve que o momento não pode passar, só Deus sabe quando terá outro rompante desses. Fragmentos de imagens vêm à mente com flashes da história de ambos, mas nenhum esclarece, nenhum que você identifique com a frase: "foi ali que o castelo começou a ruir". Uma rusga inicial se transformou numa implicância, e a bola de neve só cresceu até esse instante de agora, em que ficou maior que a própria montanha.
Os sinais já aparecem em todos os lugares, qualquer coisa é prenúncio da hora que se anuncia. O último veio no jogo de cartas da noite anterior. Você recebeu as cartas com a canastra quase pronta, faltando só o Ás de Copas. Foi jogando, comprando, descartando, e nada. Ficou o jogo todo esperando pela carta que não veio, e aconteceu o inevitável: você perdeu. Podia ter modificado o jogo, trocado as cartas enquanto era tempo, mas não. Preferiu acomodar-se na sensação de esperança do início e caiu no erro fatal de achar que ia ser sempre assim. Não foi.
A mão treme, o coração bate mais forte, mas não como de início. O motivo é outro: ansiedade, não amor. Você quer por logo um fim ao martírio. Martírio talvez não, palavra forte. Cárcere, mais apropriado. Você se acorrentou na própria inércia, deixou o tempo lidar com a situação na esperança de que as desconfianças se assentassem. Ingenuidade, percebe agora. Elas só fizeram crescer e descortinaram outras tantas sensações que incomodavam.
O pior é que você sempre soube, desde o início, que ela não era "a" pessoa, e, quanto mais se apercebia disso, mais amor recebia em troca. Curiosos os caminhos que os relacionamentos acabam tomando, você conclui resignado que a maioria de seus amores sempre foi gangorra, quando um subia o do outro descia na mesma proporção. Torce pra que aconteça da maneira menos dolorosa possível. Precisa livrar-se do fardo, e rápido, não importa de que maneira. Pensa em ligar, ensaia um discurso, argumentos e contra-argumentos que se resumem numa única frase: o amor acabou. Lembra do início, onde as poucas expectativas pareciam sinal de amadurecimento, de que finalmente estava próximo a entrar num relacionamento equilibrado. Ilusão, como se pudesse enganar a si próprio... Agora você quer o formigamento, a cócega no coração. Apaixonar-se. Sofrer. A solidão também não assusta, ela pelo menos te deixa em paz, tranqüilo, sem essa agonia. Que venha qualquer coisa, menos o tédio, a rotina, a falta de perspectiva em que seu amor ficou estagnado nos últimos tempos. Sabe que o egoísmo em momentos assim é virtude, não vício. De que adianta pensar na estupidez da atitude, na falta de razões plausíveis pra terminar? O coração já deu a sentença, falta cumpri-la.
Pega o baralho do criado-mudo e tira uma carta aleatória, torcendo pra que seja o Ás de Copas, o sinal pra agir. Três de Espadas. Espera exatos três minutos, pega o telefone, marca o encontro e parte. Teria o sinal em qualquer carta que viesse, o Ás de Copas se transfigurou por todo o baralho. Durante a conversa espanta-se das palavras saírem naturalmente de sua boca, diz tudo sem abaixar o olhar nem demonstrar remorso. Não pode haver vestígio de indecisão, sabe disso. Execução consumada, volta pra casa, não consegue segurar as lágrimas e deita. Demora a dormir, e, quando acorda na manhã seguinte, percebe que tem um mundo novo de sentimentos do lado de fora da janela à sua espera. Levanta o vasinho de violetas murchas que ficou jogado sob a estante por tempos, abre a janela do quarto e o coloca sob o parapeito. As flores na janela voltaram, e que importa se estão agora murchas? Você está livre pra cuidar das flores da alma, e sabe que, mais cedo ou mais tarde, a paisagem muda e o sol vem restituir a beleza que sempre tiveram.
I Just Wanna Be Loved Boy George
Take a picture of tonight and keep it by your heart
Love has left us memories
There's no better way to part
I will find another love
Someone who won't bring me down
How you tried to level me
But you never stood your ground
Fortunately I got wise this time
Fortunately I got me on my mind
Oh I just want to be loved
Don't want to fight you baby
But I'm much too proud to say it now
I just want to be loved
Don't want to beg you baby
But I'm much too proud to shout it out
Take a piece of dignity and use it in your life
Even though you hurt me
I still want you to survive
Love was never special
We were never down
You will always have someone
To bring you home the crown
Fortunately I got wise this time
Fortunately I got me on my mind
Oh I just want to be loved
Don't want to fight you baby
But I'm much too proud to say it loud
I just want to be loved
Don't want to beg you baby
But I'm much too proud to shout it out
When you love someone
Don't you know, love is blind
When you love someone
It'll be for all time, that's right
Fortunately I got wise this time
Fortunately I got me on my mind
Oh I just want to be loved
Don't want to fight you baby
But I'm much too proud to say it now
I just want to be loved
Don't want to beg you baby
Don't want to fight you baby
But I'm much too proud to shout it out
Just want to be loved
Oh I just want to be loved
Just want to be loved
I need to be loved
yeah yeah
Just want to be loved
Don't want to fight you baby
Love me, love me, love me, love me yeah
Just want to be loved
Oh I....
Love me, love me, love me, love me yeah
Eu só quero ser amado
Tire uma fotografia dessa noite e guarde em seu coração
O amor nos deixou lembranças
Não há melhor maneira de nos separarmos
Eu vou encontrar um outro amor
Alguém que nao me deixe pra baixo
Da maneira como você tentou me demolir
Mas você nunca se manteve firme
Felizmante eu estou mais esperto dessa vez
Felizmente eu tenho a mim mesmo no pensamento
Oh, eu só quero ser amado
Não quero brigar com você, baby
Mas estou tão orgulhoso de poder dizer isso agora
Eu só quero ser amado
Não quero te implorar baby
Mas estou tão orgulhoso de gritar isso a todos
Tenha um pingo de dignidade e use-o em sua vida
Embora você tenha me magoado
AInda quero que você sobreviva
O amor nunca foi especial
Nós nunca estivemos pra baixo
Você sempre terá alguém
Pra te trazer a coroa pra casa
Felizmante eu estou mais esperto dessa vez
Felizmente eu tenho a mim mesmo no pensamento
Oh, eu só quero ser amado
Não quero brigar com você, baby
Mas estou tão orgulhoso de poder dizer isso agora
Eu só quero ser amado
Não quero te implorar baby
Mas estou tao orgulhoso de gritar isso a todos
Quando você ama alguém,
Você não sabe, o amor é cego
Quando você ama alguém
Será o tempo todo, isso é certo
Felizmante eu estou mais esperto dessa vez
Felizmente eu tenho a mim mesmo no pensamento
Oh, eu só quero ser amado
Não quero brigar com você, baby
Mas estou tão orgulhoso de poder dizer isso agora
Eu só quero ser amado
Não quero te implorar, baby
Não quero brigar com você, baby
Mas estou tao orgulhoso de gritar isso a todos
Só quero ser amado
Eu preciso ser amado
Só quero ser amado
Não quero brigar com você baby
Me ame, me ame , me ame, me ame
Sö quero ser amado
Me ame, me ame , me ame, me ame
(ao som de "Just older", live by Bon Jovi)
Bom, hoje é meu aniversário, então eu me reservo o direito de escrever acerca de um dos filmes que mais me marcaram. Há alguns filmes que a gente vê e gosta, outros que gostamos muito, e uns poucos, bem poucos, que ficam pra sempre. "Amor Além da Vida" pertence, pra mim, a essa última categoria. Estreou essa semana no canal USA, eu assisti nas duas sessões de ontem e mais uma vez hoje, pela terceira vez. Em todas, me emocionei. Considero o melhor filme já feito até hoje que trata dos temas de vida após a morte e Almas Gêmeas, daqueles que nos fazem pensar sobre o sentido da vida, sobre o motivo pra estarmos aqui. Como sempre fico curioso e procuro informações adicionais quando gosto muito dum filme, tive a grata surpresa de descobrir, à época em que assisti, que o filme todo foi baseado no espiritismo. Desde a escolha dos atores e diretor (espíritas também), ao roteiro, tudo segue esse preceito, é a visão pós morte que essa religião acredita. É um filme, entretanto, pra ser visto por pessoas de qualquer crença ou céticos a todas elas. É uma história de amor, e histórias de amor se adaptam a qualquer crença. O título original em inglês (What dreams may come) faz parte do famoso monólogo "Ser ou não ser" de Hamlet de Shakespeare. Há também um final alternativo bem interessante na versão em dvd.
O texto de hoje não tem ligação com o filme, queria escrever algo sobre novas oportunidades, novas chances que todos temos no amor. O bom é isso, saber que há sempre uma próxima vez e que ela pode nos bater à porta quando menos esperamos.
A música é uma do Bon Jovi que gosto e fala da diferença entre ficar velho e envelhecer. Depois dos 30 a gente começa a se preocupar com essas coisas. Como a canção, não estou velho - apenas mais velho, e ainda à caça dos meus sonhos. Boa semana a todos e Carpe Diem.
"O inferno é diferente pra cada um, não é sempre feito de fogo ou dor. O verdadeiro inferno é ir pelo caminho errado da vida" (Albert a Christy em "Amor Além da Vida")
"- Só queria que envelhecêssemos juntos. Me desculpe por todas as coisas que nunca poderei te dar. Obrigado por cada gentileza, obrigado por ser a pessoa de quem eu sempre me orgulhei em ter ao lado. Por sua delicadeza, doçura, pelos filhos maravilhosos que me deu, por me fazer sempre querer ter vontade de tocá-la. Peço perdão por todas as vezes que falhei com você, especialmente essa. Boas pessoas vão para o inferno por não conseguirem perdoar a si mesmas. Eu te perdôo.
- Por matar meus filhos e meu querido marido?
- Não, por ser tão maravilhosa a ponto de me fazer preferir o Inferno ao Paraíso só pra poder ficar perto de você."
(diálogo entre Christy e Annie quando ele chega ao Vale dos Suicidas para tentar resgata-la)
Da próxima vez
A próxima vez não será, definitivamente como da vez anterior. Da próxima vez quero cometer mais erros, porém novos, não os mesmos. Da próxima vez quero um amor ainda mais cruel, que me faça sofrer, perder a razão, encontra-la e perde-la de novo, todos os dias. Triste ou de uma felicidade incontida, desde que me leve aos extremos. Da próxima vez não quero a retribuição na mesma proporção do amor que entregarei. Menor ou maior, nunca igual, que isso acomoda. Não quero me acomodar. Da próxima vez quero o inusitado, o diferente, o descabido. Quero me surpreender, não importa de que maneira. O Inferno ou o Paraíso, nunca o Purgatório da rotina. Da próxima vez quero ouvir mais "não" que "sim", e aprender com cada negativa que me for atirada. Mas os poucos "sim" que vierem, que sejam únicos, que transformem, que façam a diferença. Eu quero ser a diferença de alguém.
Da próxima vez quero o dedo em riste, o meu ou de qualquer pessoa. Uma mão que acuse ou se estenda em solidariedade; nunca cruzada, omissa. Da próxima vez quero os grandes momentos e os pequenos também, e saber que são esses últimos os que realmente importam. Quero prestar atenção nos detalhes. Da próxima vez quero cicatrizes, marcas visíveis, não a superficialidade dos amores anteriores que desaparece quando a chuva escorre pelo corpo. Quero a tempestade, a tormenta, não a garoa fina. Da próxima vez não quero centenas de declarações apaixonadas, minhas ou dela. Mas, se disser ou ouvir um único "eu te amo", que soe autêntico, da alma.
Da próxima vez quero distância da música e dos amores de elevador. Que venha uma paixão que faça arfar num rock dos Stones ou melancólica como a voz da Billie. Que encante, não que soe repetida. Da próxima vez não terei amores de capa de revista de moda, semanários novelescos, "Sabrinas" e "Julias" da vida. Quero o livro de época, o romance histórico. Não o best-seller, mas aquele de poucos exemplares desconhecido à maioria mas imenso em conteúdo. Da próxima não irei atrás da cantora de play-back, da modelo retocada pelo fotógrafo ou vencedora de reality show. Que persiga Julieta, Capitu, Guinevère, Ophelia, Ada, Heloisa. A autora, a compositora, a protagonista; não a intérprete. Aquela que, mesmo depois, permanece. E que a eternidade dure um pouco mais que os poucos segundos dos amores previsíveis que tive. Cansei de amores previsíveis.
Da próxima vez o amor virá cúmplice, seguro, transparente, imperfeito. Fugirei daquela que chega multifacetada, brincando de ser perfeita trazendo arrogância e derrotismo. A perfeição sumirá até dos sonhos, que nas expectativas ela é ainda mais perigosa. Eu só me identifico com o que posso alcançar. A beleza não virá de modelos de propaganda de cerveja ou calendário de borracharia. Se tiver a opção da escolha, que venha sutil, diferente, exótica, discreta, comum. Mas a química, sempre, ditará a sentença.
Da próxima que venha um amor alegre de sexta-feira, não o rotineiro e sedentário das segundas. A paixão natural e espontânea, não a encapsulada comprada com receita médica. Uma mulher sem bula, sem manual de instruções nem prazo de validade. Que me vicie. Da próxima vez não vou atrás do risco calculado, do tiro garantido, do pênalti sem goleiro. Quero a aflição, o coração descompassado, o aperto no peito, o temor de estar fazendo a escolha incerta. E, se depois esse medo se confirmar verdadeiro e a fila tiver que andar, que eu possa saber que sempre haverá uma vez seguinte. E dessa vez...
Just Older Bon Jovi
Hey, man, it's been a while
Do you remember me?
When I hit the streets I was 17
A little wild, a little green
I've been up and down and in between
After all these years
Can you believe I'm still chasing that dream
But I ain't looking over my shoulder
Chorus:
I like the bed I'm sleeping in
It's just like me, it's broken in
It's not old - just older
Like a favorite pair of torn blue jeans
This skin I'm in it's alright with me
It's not old - just older
It's good to see your face
You ain't no worse for wear
Breathing that California air
When we took on the world
When we were young and brave
We got secrets that we'll take to the grave
And we're standing here shoulder to shoulder
I like the bed I'm sleeping in
It's just like me, it's broken in
It's not old - just older
Like a favorite pair of torn blue jeans
This skin I'm in it's alright with me
It's not old - just older
I'm not old enough to sing the blues
But I wore the holes in the soles of these shoes
You can roll the dice 'til they call your bluff
But you can't win until you're not afraid to lose
Well, I look in the mirror
I don't hate what I see
There's a few more lines staring back at me
The nights have grown a little colder
Hey man, I gotta run
Now you take care
If you see coach T. Tell him I cut my hair
It's been all these years
Can you believe I'm still chasing dreams
But I ain't looking over my shoulder
I like the bed I'm sleeping in
It's just like me, it's broken in
It's not old - just older
Like a favorite pair of torn blue jeans
This skin I'm in it's alright with me
It's not old - just older
Apenas mais velho
Hey, cara, já faz um tempo
Lembra de mim?
Quando alcancei as ruas tinha 17
Um pouco rebelde, um pouco verde,
Tive meus altos e baixos e meio-termos
Depois de todos esses anos
Você acredita que ainda estou perseguindo aquele sonho?
Mas não estou olhando sobre meu ombro
Eu gosto dessa cama em que estou dormindo
É como eu, quebrada por dentro,
Não está velha - apenas mais velha
Como um par favorito de jeans rasgado
Essa pele em que estou fica boa em mim
Não está velha - apenas mais velha
É bom ver sua face
Você nao está ruim de se usar
Respirando aquele ar da California
Quando pegamos o mundo
Quando éramos jovens e bravos
Nós temos segredos que levaremos ao túmulo
E estamos parados aqui, ombro a ombro
Eu gosto dessa cama em que estou dormindo
É como eu, quebrada por dentro,
Não está velha - apenas mais velha
Como um par favorito de jeans rasgado
Essa pele em que estou fica boa em mim
Não está velha - apenas mais velha
Não estou velho o suficiente pra cantar o blues
Mas eu usei os buracos das solas desses sapatos
Você pode jogar os dados até eles blefarem
Mas você não pode vencer até que não tenha medo de perder
Bem, eu olho no espelho
E não detesto o que vejo
Há algumas linhas a mais me encarando de volta
As noites têm se tornado um pouco mais frias
Hey cara, eu tenho que correr
Se cuida
Se ver o treinador diga a ele que cortei o cabelo
Já se passaram todos esse anos
Você acredita que ainda estou perseguindo sonhos?
Mas não estou olhando sobre meu ombro
Eu gosto dessa cama em que estou dormindo
É como eu, quebrada por dentro,
Não está velha - apenas mais velha
Como um par favorito de jeans rasgado
Essa pele em que estou fica boa em mim
Não está velha - apenas mais velha
(ao som de "Still haven't found what I'm looking for" - live at Harlem church, by U2)
Resolvi escrever o texto de hoje depois da repercussão que A Paixão de Cristo vem causando. O filme desperta controvérsias, conversei com amigos que adoraram e outros que detestaram, mas nenhum ficou indiferente. Queria deixar minha opinião sobre ele, sobre o que penso da religião e Deus. Essa semana entrei pro Orkut, uma comunidade virtual bem interessante, com muitos brasileiros participantes. Se alguém daqui fizer parte de lá, me avise pra que eu possa adicionar como contato. Reparei que o contador passou dos 30 mil visitantes, obrigado a todo mundo que perde seu tempo aqui de vez em quando.
A música, da época de ouro do U2, é especial pra mim e acredito que pra muitos também. A curiosidade da letra é que, ao contrário do que muita gente pensa, ela não fala de um amor por outra pessoa, mas por Deus. Bono, ao escrever, quis retratar suas incertezas em relação à religião. Reparem como a música adquire uma perspectiva diferente ao ser interpretada nesse aspecto. A todas as pessoas que também ainda não encontraram o que estão procurando, seja no amor por outra pessoa ou na religião, um ótimo começo de semana e Carpe Diem...
Pedaços de Deus
"Um Deus que nos deixasse provar Sua existência não seria Deus, seria um ídolo."(Dietrich Bonhoeffer, em "No Rusty Swords")
"Sabe quando sinto mesmo Deus? Quando transo e quando assisto a um espetáculo da Broadway."(comentário de Natan Lane no filme "Jeffrey, de caso com a vida", 1995)
Nos últimos anos acirrou-se o conflito verbal e filosófico entre as religiões acerca daquela que tem a primazia sobre as demais. Guerras, manifestações, filmes, músicas, um arsenal diverso tem sido usado por muitas delas pra tentar convencer as pessoas de que encontrarão o conforto mental e a segurança emocional que precisam através da conversão à doutrina que pregam. Como remédio sem prescrição, muitos compram aquele cuja bula parece mais correta, ou com a embalagem mais atraente. Se produz o resultado esperado continuam o tratamento, caso contrário sempre é tempo de se tomar um outro tipo de remédio. Pena que não exista, nesse caso, um Conselho Fiscalizador, um Procon, um órgão oficial a reclamar da propaganda enganosa.
Perdão a todos os pecados, um Paraíso na forma que desejarmos, reencarnação numa dimensão mais evoluída, as ofertas são tentadoras. Pegue, escolha, pague o preço e leve. Viver sob preceitos discutíveis e, quando o tempo nos roubar a vitalidade, simplesmente adentrar um templo improvisado numa casa qualquer e pedir perdão pelos erros. Cômodo. Cada um é senhor da própria divindade. Pra que dar o exemplo se há o caminho mais fácil da religião que nos passa a mão na cabeça? O criminoso sente-se em paz para mandar matar e roubar, já que vai à missa todas as quartas. Em meio a tudo as pessoas se esquecem do principal: boas pessoas independem da religião que seguem ou deixam de acreditar, a paz de espírito só vem através do exemplo que damos em vida através de nossos atos.
Filmes retratando essas dualidades não faltam. Em "Stigmata", o Vaticano entra em pânico e tenta evitar a revelação de que as pessoas não precisam de intermediários (no caso a própria Igreja) para entrar em contato com Deus. "Dogma", apesar do sarcasmo e dos exageros, toca em feridas interessantes, como o significado da própria religião em si. "Fé Demais não Cheira Bem", meu preferido sobre o tema, aborda a exploração financeira do povo por um pastor sem escrúpulo algum, que começa a ter crises de consciência quando presencia um milagre acontecido a um de seus fiéis durante sua pregação enganosa. "A Paixão de Cristo" choca ao mostrar toda violência sofrida por Jesus em suas últimas 12 horas de vida. Todos e nenhum deles, ao mesmo tempo, estão corretos no questionamento que provocam. As religiões - sem exceção - têm seus bons e maus exemplos. Alguns assustadores e históricos, basta lembrar dos católicos à época das Cruzadas, dos judeus à época de Cristo, dos protestantes e a matança promovida pelo IRA desde a década de 70, dos muçulmanos e seus ataques terroristas de agora. Acabam disseminando ódio e preconceito pregando justamente o contrário, apenas porque o resto do mundo não segue o padrão estabelecido por elas. Não importa a crença que cada um siga, desde que ela exerça uma transformação positiva na pessoa. Li certa vez uma frase que dizia que rezar não muda Deus, muda-nos, e acredito que aí resida a explicação. Como numa partida de futebol, o que fica é o placar final. Não importa em que a pessoa se apoiou pra mudar positivamente algum aspecto de sua vida: a qual religião se converteu, qual seita seguiu, a qual santo teve que rezar. Pode ter acontecido através de um mantra repetido à exaustão, uma penitência, um sermão evangélico, um conselho dum amigo ateu. Se ele tornou-se uma pessoa melhor por causa disso, o processo funcionou.
Seu Benevides foi a pessoa mais religiosa que conheci. Nunca freqüentou nenhuma igreja, templo, nada parecido, confessou-me uma vez. Aproximei-me de seu Benevides através de Aninha, sua filha, que conheci em Ubatuba, aos 14 anos, quando fiquei lá um mês de férias com a família. Ele era um pescador duma colônia próxima, conversávamos todos os dias depois que eu ajudava Aninha a pegar siris na praia, ao nascer do sol. Nunca se casou, Aninha era adotada, uma menina que, como ele mesmo disse, "pegou pra criar" porque os pais verdadeiros não tinham condições de sustentá-la. Ele ajudava a todos da colônia, era uma espécie de ídolo local. Conselheiro, não podia ver alguém com problemas que logo se dispunha a tentar resolver. "Ah, dotôzinho, não é só falta de dinheiro, a tristeza mata também. Essa gente só quer alguém que escute, às vezes nem preciso falar nada, só ouvir", soltou certa tarde essa entre tantas outras frases que encantavam pela simplicidade e explicavam mais que muitas teorias filosóficas. Não acumulara dinheiro algum, estava à época já com 63 anos e sua vida se resumia, como sempre fora desde a infância, a ajudar os outros. Ajudar por ajudar, sem pedir nem querer retribuição, ajudar porque gostava, porque achava certo, porque se importava. Lembrei-me dele ao começar a escrever esse texto porque uma vez, num domingo antes da feirinha da praia, estava ajudando o pessoal a montar as barracas e lancei a pergunta: "Seu Benevides, o senhor acredita em Deus?" Ele me olhou num sorriso aberto, apontou pro mar, o sol começando a nascer no horizonte, e disse: "Deus pra mim é isso". Ele nunca precisou da religião pra saber que o exemplo de vida que dava - mesmo sem saber - era o que realmente importava.
A idéia de provar a existência de Deus soa ridícula, qual a necessidade? Ele deve existir naturalmente dentro de nós ou não existir de todo. Deve vir como a Poesia, a sinceridade das crianças, um sabor predileto de sorvete, um cheiro agradável como aquele que precede a chuva. Ontem vi um pouco de Deus nos olhos daquela colega de academia, num trecho de poema do Heine, no horizonte que avistei pelo pára-brisa do carro durante o pôr-do-sol, na rapsódia do Rachmaninov que escutei à noite antes de dormir. Vejo Deus todos os dias, em pedaços, fragmentado, e isso me dá a certeza de que é impossível encontrá-lo engarrafado apenas em determinada religião. Nenhuma delas tem o segredo porque cada um possui cadeados diferentes pra muitas chaves escondidas dentro de nós mesmos. Acreditar ou tornar-se cético não muda nosso destino, não nos torna aptos a qualquer Paraíso imaginário ou real pós-morte, apenas modifica a forma como vemos e sentimos o mundo. E, já que tudo não passa de uma questão de optar e viver de acordo com o que se acredita, eu fico com a escolha do sonho. Se um dia ele se provar irreal, pelo menos terei vivido essa ilusão, e, ao final, não importará realmente se minhas crenças naufragarem à beira da praia. Entre um sonho e uma mão vazia eu terei - sempre - mais que aquele que nunca acreditou.
I Still Haven't Found What I'm Looking For
I have climbed highest mountain
I have run through the fields
Only to be with you
Only to be with you
I have run
I have crawled
I have scaled these city walls
These city walls
Only to be with you
But I still haven't found what I'm looking for
But I still haven't found what I'm looking for
I have kissed honey lips
Felt the healing in her fingertips
It burned like fire
This burning desire
I have spoke with the tongue of angels
I have held the hand of a devil
It was warm in the night
I was cold as a stone
But I still haven't found what I'm looking for
But I still haven't found what I'm looking for
I believe in the kingdom come
Then all the colors will bleed into one
Bleed into one
Well yes I'm still running
You broke the bonds and you
Loosed the chains
Carried the cross
Of my shame
Of my shame
You know I believed it
But I still haven't found what I'm looking for...(4x)
Ainda não encontrei o que estou procurando
Eu já escalei a montanha mais alta
Corri em meio aos campos
Só pra estar com você
Só pra estar com você
Eu já corri
Já engatinhei
Já escalei os muros desta cidade
Só pra estar com você
Mas ainda não encontrei o que estou procurando
Mas ainda não encontrei o que estou procurando
Já beijei lábios macios
Senti a cura pelos dedos da mão dela
Queimou como fogo
Esse desejo em chamas
Já falei com a língua dos anjos
Já segurei a mão do demônio
A noite estava quente
Mas eu estava frio como uma pedra
Mas ainda não encontrei o que estou procurando
Mas ainda não encontrei o que estou procurando
Acredito num reinado futuro
Então todas as cores sangrarão em uma só
Sangrarão em uma só
Sim, eu ainda estou correndo
Você desatou o nó e você
Afrouxou as correntes
Você carregou a cruz
Da minha vergonha
Da minha vergonha
Você sabe que eu acreditei
Mas ainda não encontrei o que estou procurando (4x)