Semana passada recebi uma ligação da minha irmã perguntando se já tinha visto “Sex & the City”. Respondi que não, porque gostava muito do seriado mas todas as críticas foram muito ruins em relação ao filme. Ela então me pediu que visse, porque lembrou-se de mim em uma cena (o diálogo segue abaixo) por causa do otimismo que o filme passa àquelas pessoas que teimam, como eu, em acreditar nos relacionamentos mesmo com as experiências ruins do passado. Como não se nega nada a uma mulher grávida de 8 meses, vi, e, como ela previu, gostei muito. Acho até que o filme renderá mais um ou dois textos. No de hoje, que escrevi em meio a mais uma madrugada insone do final de semana, voltei a um assunto que já abordei alguns anos atrás: o prazer de nos relacionarmos com pessoas que, além de amar, admiramos. Um ótimo início de semana a todos, e Carpe Diem!
- Precisamos conversar. Estou aqui, sentado, tentando escrever os votos de casamento e... isso é algo que você realmente quer fazer?
- Qual o problema?
- É que... tudo está tão bom do jeito que está, não quero arruinar nada.
- Você não vai.
- Eu já fui casado duas vezes.
- É o seguinte: é comigo que você se casará amanhã. Comigo, e com ninguém mais.
- É.
- E eu vou me casar com você. Somos só eu e você. E quer ouvir a grande notícia disso?
- Sim.
- Nós já fizemos tudo que podíamos pra estragar.
(Mr Big sorri)
- É um sorriso que estou ouvindo?
- Sim.
- Me parece que você tem um bloqueio mental sobre escrever votos de casamento.
- Sim.
- E eu descobri, como escritora profissional que sou, que é melhor que você pare de pensar tanto nisso, vá se deitar e, pela manhã...
- Eu saberei o que fazer.
- Exatamente.
- E se não funcionar, escreva só isso: “Eu te amarei.” Simples, direto ao ponto e eu juro que não cobrarei direitos autorais. Então você já vai dormir, não?
- Sim. Boa noite.
- Te vejo amanhã. E, olhe, somos só você e eu.
(conversa ao telefone entre Mr. Big e Carrie, na véspera do casamento, em Sex & the city)
Girassóis a Van Gogh
“To love you baby is my pride”. (trecho da letra de “Smile”, Simply Red)
Acredito que o primeiro golpe fatal do amor não é o fim da paixão, mas o fim da admiração. A paixão quando arrefece pode transformar-se em amor sereno e duradouro, mas a admiração que se perde dificilmente retorna. Apaixonados, colocamos num pedestal banalidades que certamente se esfacelarão depois, mas quando a paixão correspondida vem junto com a admiração, as tintas ganham um ar maroto, otimista, alegre. Quando admiramos, reconhecemos na outra face aquilo que também carregamos ou que gostaríamos de ter, fragmentos de nossas aspirações materializam-se no outro corpo. A admiração é terna porque faz com que nos aproximemos de nossos próprios sonhos na outra pessoa. E como é bom ter sentimentos altruístas assim.
É ótimo amar pessoas que admiramos e que os outros também reconhecem nelas as qualidades que vemos, porque nos dá a gostosa sensação de vitória interior, de ter escolhido uma pessoa que se destaca em meio à futilidade que nos cerca, aos amores “meia-boca” que tivemos ao longo da vida. Não me refiro à admiração que vem de talento artístico ou literário, mas também a outras intrínsecas, bem mais simples, como sinceridade ou empatia. Ontem reencontrei, por acaso, uma antiga namorada e lembrei-me de como a admirava pela habilidade que ela tinha em fazer e cativar amigos. Nunca conheci uma única pessoa que não gostasse dela, que não a admirasse pela beleza que carregava no caráter. Durante os quase três anos de namoro não foram poucas as pessoas que se aproximaram de mim pra uma frase de elogio sobre ela, ou de repreensão quando terminei o relacionamento pelas famosas “razões que a própria razão desconhece”. A admiração, entretanto, permanece.
Talvez a batalha mais inglória num relacionamento seja manter intacta, no cotidiano, essa admiração pela pessoa ao nosso lado. A rotina banaliza a admiração que temos pelos outros, passamos a achar que as qualidades que víamos muitas vezes transformam-se em defeitos, e o caminho está aberto pra que o amor agonize. O tapa na cara vem depois, na vivência dos relacionamentos posteriores, quando enfim percebemos que as qualidades que em algum momento deixamos de valorizar naquela pessoa de antes não eram tão comuns assim, mas aí o estrago já está feito. As pessoas comuns voltam a passear em nosso coração, mas não as queremos mais porque sentimos o gosto daquelas outras, e a criança emburrada que carregamos vem à tona gritando que não, não aceitaremos mais pessoas que não despertem em nós sentimentos de admiração. Por orgulho, ao menos.
Admirar alguém que se ama é como colocar girassóis a mais em quadros do Van Gogh. Podemos tentar colocar as mesmas flores depois em outros quadros de outras paixões, mas sabemos que nada acrescentarão a pinturas baratas. Mas ao nos relacionarmos com essas poucas pessoas dignas de admiração, eternizamos na alma uma pintura que só antevíamos nas galerias de relacionamentos que não nos pertenciam. E então descobrimos que podemos, também, ter nossas próprias obras de arte. Como o pequeno príncipe com sua raposa, tornamo-nos responsáveis pela pintura que cativamos. E vemos então que não há nada mais bonito que aquele quadro em destaque, aquele pequeno quadro, aquele colorido e magnífico quadro, aquele frágil quadro, aquele nosso quadro.
O texto de hoje veio em decorrência da perda de um colega de trabalho, anteontem, numa execução sem sentido. Iria escrever um texto sobre orgulho que já estava quase pronto, mas quis retornar a um assunto que já abordei antes no blog - a importância de dizermos o que sentimos àqueles que fazem diferença em nossa vida. Uma ótima semana a todos, e, acima de tudo, Carpe Diem!
As mesquinharias da chuva
Que me desculpem os religiosos pela presunção, mas eu não acredito que exista um Paraíso ou algo parecido após a morte. Em verdade, não acredito que exista um Deus. Ou talvez até acredite, mas minha definição passa bem longe da de qualquer religião. Decidi que não vale a pena conjecturar sobre a existência de algo maior enquanto aquilo de que sei, a vida lá fora, passa atropelando e reformulando coisas que tínhamos como garantidas. Há ocasiões, entretanto, em que as coincidências teimam em afirmar que algo no mínimo estranho brinca com nosso destino. E isso assusta. Ontem perdi um amigo e colega de trabalho por mais de 15 anos, num assassinato cruel. No dia em que morreu ele esteve comigo em minha empresa, não nos víamos desde maio. Disse que tinha sonhado comigo e com meu pai, e havia passado só pra saber se estava tudo bem conosco e nos dar um abraço. E foi o que fez, ficou lá menos de dez minutos. Na conversa com meu pai, que presenciei, agradeceu a ele por algumas oportunidades que teve no início da carreira, e foi embora sorrindo. Doze horas depois fomos informados do assassinato. Hoje, no funeral, o irmão dele me confidenciou que essa situação não foi a única, que ele sentia de alguma forma o que iria acontecer e estava, inconscientemente, despedindo-se das pessoas do seu convívio. Que disse, nos dias que antecederam sua morte, palavras carinhosas à filha, aos funcionários, à ex-mulher e algumas outras pessoas. Ainda acredito que tudo foi realmente uma coincidência, mas invejo o Raul porque ele teve a oportunidade de dizer às pessoas com quem convivia palavras que todas elas já sabiam, mas que adquirirão agora uma nova amplitude diante do acontecido, e tenho certeza que reconfortarão a todos que as ouviram.
Leo Buscaglia certa vez escreveu que, se a humanidade descobrisse que teria apenas mais 5 minutos de vida, todas as linhas telefônicas ficariam congestionadas de pessoas ligando umas às outras pra dizer, entre lágrimas, que as amavam. E ele então perguntava: “Porque não fazer isso agora?” Perdemos tanto tempo com as mesquinharias do dia-a-dia que acabamos num estado de letargia em relação ao que o futuro nos reserva. Tomamos coisas como garantidas, situações como de fácil solução, ouvimos pessoas cujo exemplo não as credencia a qualquer conselho, e pior, chegamos à presunção de achar que sabemos o que se passa na mente daqueles que nos cercam, como se as pessoas fossem assim, simples e previsíveis. Não são.
Li hoje na Vida Simples um texto sobre qual seria a melhor representação de felicidade, e a definição da autora é igualzinha à que sempre carreguei: crianças brincando. Ingenuidade, transparência, irresponsabilidade sadia, espontaneidade. Sinto que nesse sentido regredimos com o passar dos anos, e amadurecer no final das contas talvez seja retornar à criança que ainda brinca, escondida, dentro de nós. Além disso, minha representação de felicidade consiste em um aspecto particular do mundo das crianças que me encanta: dizer aos outros o que realmente sentimos, na hora em que sentimos. No momento em que as coisas precisam ser ditas, porque depois elas não terão o mesmo impacto. Se essa postura acrescenta alguma grandeza ao caráter não sei, mas faz com que o sono venha mais reparador.
Amanhã todos retornaremos às mesquinharias que nos atiram diariamente. Os problemas no trabalho aos quais damos uma importância maior que realmente possuem, a discussão desnecessária com o amigo, a briga em família, algum plano frustrado de última hora. Gosto de acreditar que essas mesquinharias sempre vêm com a chuva. Quer gostemos delas ou não, é lei da natureza que existam. Sempre estarão lá, sorrateiramente como o sereno ou atiradas com força numa tempestade de verão. Só que a mesma chuva que traz, leva-as embora. E, se em meio a todas elas, afogarmos o orgulho e a vergonha procurando aqueles que fazem diferença em nossa vida pra um “eu te amo” , “não conseguiria sem você”, ou “desculpe-me pelo que fiz”, lembraremos que essas bobagens não deveriam possuir o tamanho que damos a elas, nem passam do que realmente são – mesquinharias. E então o coração amanhecerá renovado a cada vez que nos encararmos no espelho e vermos nele, refletido, o sorriso da criança despertando em nossa alma, curando cicatrizes com gargalhadas sinceras.
Semana passada o Telecine incluiu na programação um dos meus filmes preferidos, “Um beijo a mais” (The last kiss). Já revi algumas vezes, acho que gostei tanto porque trata dos anseios e problemas duma geração a que pertenço, a dos “30”, além de possuir uma ótima trilha e alguns diálogos muito bons, como esse, que motivou o texto de hoje. Voltei com a tradução de algumas músicas que gosto, escolhi a de hoje pela letra e melodia, mais uma grande composição do Mick Hucknall.
Essa semana que findou hoje me foi especial por alguns motivos. Recebi um e-mail e um recado no orkut daqueles que se guardam pra sempre, de duas pessoas que me acompanham no blog há algum tempo e por quem sempre tive muito carinho. Além disso, hoje tive a alegria de testemunhar, como padrinho, o casamento de mais um amigo de infância, e momentos assim, em que presenciamos a felicidade das pessoas que gostamos, ficam gravados pra sempre na lembrança. A moça que me acompanhou na cerimônia me disse que invejava essa amizade de mais de 20 anos que minha turma daqui tem, e tive que concordar com ela. Talvez seja esse o motivo do meu desapego às coisas que não têm tanta importância. Como alguém pode não ser otimista em relação a tudo se tem uma família e uma turma de amigos assim? Realmente não há como. Carpe Diem e um ótimo início de agosto a todos!
Nós, entre o eterno e o que se perde
“Pare de falar de amor, todos os idiotas do mundo dizem que amam alguém. Isso não significa nada. O que você sente só interessa a você. É o que você faz às pessoas que diz amar, o que realmente importa. É a única coisa que importa.” (Stephen, em “The Last Kiss” )
Um amigo promotor contou-me certa vez sobre a experiência profissional que mais lhe causou tristeza, uma das poucas que não esqueceu. Um casal prestes a completar 50 anos juntos iniciou uma batalha litigiosa pelo divórcio, e ele espantou-se com a atitude de decepção e mágoa de ambos durante uma das audiências, e as palavras de rancor que proferiram. Um pequeno gesto impensado de um deles havia posto abaixo todas as boas lembranças que carregavam ao longo de uma existência praticamente ao lado do outro, e a partir daquele instante ambos pagariam o preço desse gesto.
Às vezes tenho a impressão de que amar assemelha-se a uma visita constante a um restaurante preferido. Apreciamos a maioria das visitas, mas basta um único dia desastroso onde nada funcionou pra que apaguemos da lembrança todas as outras boas refeições anteriores. E ainda maldigamos o lugar aos amigos. Palavras de amor emocionam, declarações inusitadas eternizam momentos, mas de que adiantam se não juntam-se a gestos que as corroborem?
Conheço casais felizes que quase nunca externam o que sentem em palavras. Não necessitam disso, o amor exala por todas as pequenas coisas do dia-a-dia. Gestos pequenos como uma troca cúmplice de olhares, o afago no cabelo, o carinho inesperado, o toque das mãos espalmadas que se entrelaçam à outra, o interesse real em saber acerca do dia do outro. A ternura no olhar, a compreensão dos problemas alheios, o bom-humor nos momentos de conflito, o silêncio nos de destempero, a linguagem corporal que denuncia, tudo que tem mais valia que o melhor poema do Neruda ou Drummond.
Por mais egoísta que pareça, a constatação de que o que sentimos em relação aos outros é problema nosso(não deles) é verdadeira. Ótimo que tenhamos sentimentos amorosos altruístas, sinceros e desinteressados, mas sem gestos, sem atitudes que ratifiquem todo amor expressado, de nada valem. Nada. O destino, cruel, não eterniza ao final qualquer palavra escrita ou proferida, mas os gestos. Basta um, inconseqüente, e as certezas anteriores atiram-se na represa da mudança.
Há um invisível escudo mágico que nos impeça de ultrapassar o limite do aceitável num relacionamento, criando proteção contra gestos que jamais imaginávamos cometer? Não sei, creio que os limites impõem-se naturalmente pelo caráter, bom-senso, pelo próprio amor à outra pessoa. E a certeza do que basta para perdê-la pra sempre. De uma certa forma isso tranqüiliza porque sabemos que jamais cruzaremos alguns desses limites, mas o problema está nos outros. Outros que nos golpeiam com gestos inesperados, onde o que verte desse ataque é o incômodo aroma da derradeira lembrança. Mas o perfume a brotar depois vem do hálito da primavera, que, num beijo redentor, penetra no coração e sussura: “Acorda e enche novamente teus bolsos com ansiedade e esperança, que logo à frente há um semblante ainda desconhecido indicando que falta pouco a pagar.”
Here from the top of a mountain
I see you there
In the cool night air
Someday in my life
Fear has no reason to doubt them
They tell me so
Yet they will never know
You are here in my life
Wherever I go now
I'll follow you
And my heart will be true
I have never known someone
To stay right here
Soon you will be right here
Someday in my life
Here from the top of a mountain
I see you there
In the cool night air
Someday in my life
Storms may rage on about them
They hail and snow
Yet they will never know
You are here in my life
Wherever I go now
I'll follow you
And my heart will be true
I have never known someone
To stay right here
Soon you will be right here
Someday in my life
Algum dia em minha vida
Aqui do alto da montanha
Eu te vejo lá
No ar fresco da noite
Algum dia em minha vida
O medo não tem motivos pra duvidar deles
Eles me dizem tanto
Embora eles nunca saberão
Que você está aqui em minha vida
Onde quer que eu vá agora
Eu te seguirei
E meu coração será verdadeiro
Nunca conheci alguém
Pra ficar bem aqui
Logo você estará bem aqui
Algum dia em minha vida
Aqui do alto da montanha
Eu te vejo lá
No ar fresco da noite
Algum dia em minha vida
Tempestades podem encolerizar-se sobre eles
Eles chovem pedras e nevam
Embora eles nunca saberão
Que você está aqui em minha vida
Onde quer que eu vá agora
Eu te seguirei
E meu coração será verdadeiro
Nunca conheci alguém
Pra ficar bem aqui
Logo você estará bem aqui
Algum dia em minha vida
Vi nesse final de semana “August Rush – o som do coração” por indicação da minha amiga Fernanda, que achou que me serviria de inspiração, e acertou em cheio. A Keri Russell nunca esteve tão bonita num filme, essa cena é um exemplo. O filme retrata a música, a paixão que ela nos desperta e a forma com que modifica nossas vidas. Resolvi tratar disso no texto, embora ache que ele ficou confuso em virtude do que o filme me trouxe.
Queria pedir desculpas às pessoas que acessam o blog usando o Firefox. Semana passada recebi a reclamação da Noêmia de que meu blog fica “estranho” no Firefox, alerta que a Carla já me tinha feito também. Aproveitando, fiz uns pequenos ajustes sugeridos pela Carla, como mudar o código pra que os links abram numa outra página, e não a partir desta. É que meu negócio é escrever, não entendo nada disso de configuração e ajustes. Em relação aos comentários, me perguntaram se eu tinha modificado a configuração pra aprovar primeiro antes de publicá-los, mas não fiz isso. O que aconteceu foi que agora eles não aparecem automaticamente, há uma espera duns 5 minutos, isso foi modificado pelo próprio pessoal do blogger. Por causa disso, apaguei os comentários repetidos que apareciam nos posts.
Olhando o contador de visitas, percebi que muita gente acessa o blog através do meu perfil no Orkut, outra grata surpresa. O Orkut me trouxe tantas coisas boas e me levou algumas outras também que às vezes me assusto com a influência que um site de relacionamentos ocasiona em nossas vidas. Uma ótima semana a todos, e Carpe Diem!
De música ,lembranças e palavras não proferidas...
“ De la musique avant toute chose” (“Antes de tudo, a música”) (Verlaine, primeiro verso do poema “Jadis et naguère”)
Transita-se com facilidade pela música. Como se a carregássemos dentro de um bolso imaginário da mente, encontramos música onde quer que a procuremos. Há música em todas as nossas paixões: esportivas, amorosas, profissionais, religiosas, artísticas. A borracha do tênis das crianças raspando na quadra de basquete enquanto brincam, o tamborilar dos dedos esperando a resposta, o trecho da canção que inspira o poema esperado, em tudo ela despeja sua influência.
A música esconde a cumplicidade dos casais, conta histórias, faz com que sonhemos outras, carrega amores reais e platônicos, dando formas aos devaneios. Basta uma melodia antiga e o amor mal-resolvido da adolescência forma-se à nossa frente, sem que ninguém mais perceba, pra evaporar em seguida. Outra nos mostra as pessoas que machucamos, a seguinte as que nos deixamos magoar. O carrossel é interminável, há sempre um pedaço de reminiscência que se fixa às canções que nos acompanham vida afora.
Ouvimos música nas ondas espumando à margem da praia, na arrebentação do mar, no pulsar do próprio coração, no caminhar da outra pessoa, afastando-se, depois de uma discussão. Aparece no intangível da solidão abafada da mágoa, na poça vazia pela pisada raivosa, no espanto, na surpresa; nas gotas caindo, devagar, da torneira mal-fechada das nossas recordações. O som insurge-se e nos modificamos sem saber ao certo em que direção. Mas nos movemos. Música confunde, entorpece, muda sentimentos, ao menos por aqueles eternos minutos aspirados pela alma. Inspira textos megalômanos e outros simplistas rabiscados num caderno de receitas. Deprime de uma maneira em que jamais pensaríamos estar, e arrefece a dor com a mesma velocidade. Muda a duração dos segundos, tornando alguns poucos, eternos. Derruba lágrimas na madrugada, que disfarçamos durante o cotidiano e a rotina diários. Convida a um baile que evitamos participar. Música sussurra aos ouvidos que façamos a ligação que tanto tememos, a escrever a carta proibida, a viajar (na mente ou à rua mais próxima), a desculparmo-nos. A voltar sempre aos mesmos erros que juramos jamais cometer novamente.
Música desnuda o arrependimento, quebra a teimosia, dá um tiro à queima-roupa no amor-próprio. E acerta. Faz com que escrevamos textos desconexos à procura de algo que não temos idéia do que seja, mas que, esperamos, ponha um fim a toda amargura que teima em ziguezaguear em nossos escombros. Ou ao menos derrame, como a melodia da chuva caindo, o conforto de que tomamos as decisões corretas, e mostre que o porvir que se anuncia é menos sombrio, confuso e triste que a ansiedade amanhecida de hoje.
Texto de hoje veio em decorrência de uma pergunta e uma passagem do filme “ The air I breathe” (que em português ganhou o título horroroso de “Ligados pelo crime”). É um filme com pretensões de ser um Crash e, evidentemente, não atinge o objetivo, mas nem por isso deixa de ser um bom filme. Norman Mailer, que cito no texto, está numa ótima retrospectiva de uma hora com trechos de diversas entrevistas ao Charlie Rose (seu amigo de longa data), e exibida a partir dessa semana no ManagemenTV. Vale a pena assistir. Durante a semana vou arrumar os links quebrados dos sites parceiros, retribuir a gentileza das pessoas que colocaram o link pro meu blog no delas, assim como visitar os blogs das pessoas que comentam aqui. De vez em quando aparecem alguns comentários, como os do post anterior, que fazem tudo valer a pena. Vocês não imaginam como é gratificante saber que algumas pessoas se identificam com o que você escreve. Não há dinheiro no mundo que se compare a essa sensação. Um ótimo início de julho a todos e Carpe Diem!
O propósito
“Todo mundo tem um propósito. Às vezes, a pessoa passa a vida toda sem saber qual é o seu propósito. Eu não. Aos dez anos, já sabia. Meu propósito era amar a pessoa certa por completo e por inteiro.” (Kevin Bacon em ”The air I breathe” )
Norman Mailer, um dos polêmicos autores que admiro e considerado pela crítica entre os 5 maiores escritores americanos de todos os tempos, morreu no final do ano passado, aos 84 anos. Casou-se 6 vezes. Até aí nenhuma novidade, nosso poetinha Vinícius chegou aos 9 casamentos e pelo menos outros 4 “não-oficiais”. O curioso em Norman Mailer foi o tempo de duração de seus casamentos: dois deles acabaram em menos de um ano, outros 3 duraram relativamente mais, até o derradeiro, que durou 33 anos, com Norris Chuck, a quem ele considerava sua alma-gêmea e o acompanhou até seu leito de morte. Mailer passou por toda espécie de decepções durante seus casamentos, chegando a internar-se num hospício logo após o fim do primeiro. Nunca desistiu de procurar a mulher que o completasse até achar em Norris essa figura, e foi durante esse último casamento que produziu, em sua própria opinião, seus melhores livros. Lembrei-me de Mailer porque sua história reúne muito desse inconcebível universo de relacionamentos: entrega, decepção, persistência, esperança, felicidade, um propósito de vida.
Dar um sentido à vida transformou-se no Graal da humanidade desde o início dos tempos. A religião usa muito o argumento pra justificar a crença no Deus particular que cada uma apregoa. Há que existir um Deus, afinal de que maneira explicaríamos o sentido de tudo, defendem. Cada um de nós tem um propósito que fica acima dos demais, tentando aprisionar os sonhos. Um pequeno vinhedo na França, uma medalha olímpica, uma empresa que faça a diferença, amigos leais. O meu, assim como o de muita gente, sempre foi encontrar a mulher a quem pudesse me entregar sem desconfianças e que me devolvesse não um amor do mesmo tamanho - que isso não se mede – mas a tranqüilidade advinda da certeza de que fiz a escolha certa e derradeira.
Os conflitos daqueles que também escolhem uma pessoa que as façam querer envelhecer ao lado delas são constantes. Romantizamos em demasia o objeto da paixão quando assumimos que a outra pessoa está impregnada do mesmo propósito que nós, e o erro das expectativas alia-se ao da presunção. A paixão sonhadora de um espanta-se com o coração ateu do outro, e o espaço que se forma no cotidiano é preenchido com elementos estranhos a ambos. Não temos o direito de assumir que os anseios de vida da outra pessoa estejam em sintonia com os nossos, e, mesmo que assim fosse, essa sintonia de nada garante a reciprocidade no amor àqueles que acreditam que nada de interessante existe em realizar os sonhos se não há alguém com quem possam compartilhá-los.
O propósito, sempre, tem que ser maior que o seu objeto. Há momentos em que o tomamos como utopia, inatingível, esquecendo-nos que o problema não está no que definimos, mas em quem escolhemos pra alcançá-lo. Há centenas de casos como os de Norman Mailer rodeando os exemplos, pessoas que tiveram na experiência o motivo pra desistir mas transformaram-na em otimismo, até que, bem devagar, o propósito ganhou cores e mostrou-se presente.
Beecher escreveu que “assim como as ondas, nenhuma emoção consegue manter sua forma particular por muito tempo”, e nessa metamorfose revela-se a maldade do destino, porque nunca sabemos o que a convivência trará: a cumplicidade graciosa e a felicidade de canto de boca de ambos ou as amarras invisíveis que dilaceram e mostram o pior que temos nos subterrâneos. Aqueles que escolhem o amor como propósito sabem dos riscos maiores, mas repousam a cabeça com tranqüilidade a cada noite porque dormem na certeza de que, mesmo que venha no fim da vida, por poucos instantes, a espera terá valido a pena. E ninguém tem o direito de roubar-lhes esses sonhos, porque é deles o sono dos justos, ubíquo no espaço, formando o inadiável exercício que alguns chamam de tolice, e eles, de viver.
Confesso que nunca pensei que o blog chegaria, um dia, às 100 mil visitas. Como me pediram pra escrever um post especial pela ocasião, acabei tratando de uma de minhas paixões, o mar. Ficou intimista, é verdade, mas enfim, achei apropriado. O texto em prosa poética que acompanha é o do Neruda que mencionei no post anterior. Ganhei um presente semana passada – o novo template pro blog, e, embora ela tenha me pedido pra não mencionar, é impossível. Obrigado mesmo, Carla, por tudo que tem feito por mim ao longo dos últimos anos. Carpe Diem!
O mar e o tempo (o paradoxo do crescimento)
”Dizem que perguntaram a Whistler quanto tempo lhe fora necessário para pintar um de seus noturnos, e ele respondeu: “A vida toda.” (Jorge Luis Borges, Discussão)
" La mer, la mer, toujours recommence!"
O mar, o mar, recomeçando sempre! (Paul Valéry, trecho do poema “Le Cimetière Marin”)
Tentei, boa parte da vida, entender o fascínio que o mar exerce em mim. Toda aquela impassibilidade logo transformada em tormenta, a intempérie de divagações que ele desperta: o dia e a noite, o instante e o eterno, vida e morte, desapego, saudosismo, esperança. Não me basta observar o mar, preciso da atmosfera completa: o cheiro, o toque da areia macia, o som das ondas arrebentando e borbulhando, o gosto do sal na boca. Espécie de santuário onde jogo todo sortilégio de afeições, deixando que as ondas tragam aquelas que me interessam no exato momento em que elas se tornam necessárias.
Nunca encontrei refúgio espiritual em igrejas, templos religiosos, construções idílicas ou forjadas à contemplação. O mar, esse sim, sempre foi meu confessionário remissivo e esconderijo de idéias. Como uma religião sem deus, me basta a certeza de que ele estará sempre lá, presente, anônimo. Por vezes tomo emprestada uma concha de alguma praia, como o fiel à procura da imagem santificada que, a milhares de quilômetros, reverbera seu som e sereniza pela certeza da compreensão, de que alguém escuta. Sua presença invisível me acompanha do primeiro beijo à separação mais recente, espécie de paradoxo do crescimento que aconselha a seguir, cometendo os mesmos erros, porque a próxima onda se transfigura completamente diferente da anterior e das demais que agonizaram à praia. Sabe que experiência tem pouca valia quando exposta ao vigor fresco de cada manhã, metáfora aos amores que virão. O mar não me quer crescendo, mas sonhando.
Estou, agora, longe do mar e ao mesmo tempo encharcado de suas minúcias. Desconheço quais os elos que me prendem tanto ao oceano, mas tenho ciência que sob influência dele vou traçando o roteiro da minha própria liberdade. Embora tenha a desculpa de certa experiência pra me consolar, a epígrafe que fica permeia-se de tons otimistas. Porque muitos se esquecem de que ele é bem mais que água salgada, que é feito de descompassos. Descompassos de lamúrios, descompassos de incertezas, descompassos de pedidos de pessoas tão dissimuladas que esquecem que são apenas pessoas, falíveis e otimistas, e, - exatamente por isso -, de uma complexa beleza infinita.
"
O barco dos adeuses (Pablo Neruda)
Navegantes invisíveis me levando da eternidade através de estranhas atmosferas, sulcando mares desconhecidos. O espaço profundo cobiçou minhas viagens que jamais acabam. Minha quilha rompeu a massa móvel de icebergs relumbrantes que intentavam cobrir as rotas com seus corpos poeirentos. Depois naveguei por mares de bruma que estendiam as suas névoas em meio a outros astros mais claros que a Terra. Depois por mares brancos, por mares rubros que tingiram o meu casco com as suas cores e suas brumas. Às vezes cruzamos a atmosfera pura, uma atmosfera densa, luminosa, que empapou o meu velame e o tornou fulgente como o Sol. Longo tempo nos detínhamos em países dominados pela água e pelo vento. E um dia - sempre inesperado -, meus navegantes invisíveis levantavam minhas âncoras e o vento inflava minhas velas fulgurantes. E era outra vez o infinito sem caminhos, as atmosferas astrais abertas sobre as planícies imensamente solitárias.
Cheguei à terra, ancoraram-me num mar, o mais verde sob um céu azul que eu não conhecia. Acostumadas ao beijo verde das vagas, minhas âncoras descansam na areia dourada do fundo do mar, brincando com a flora retorcida das suas profundezas, sustentando as alvas sereias que nos dias longos vêm nelas cavalgar. Meus altos e retos mastros são amigos do Sol, da Lua e do ar amoroso que os prova. Pássaros que nunca viram detêm-se neles depois de um vôo de flechas, riscam o céu, afastando-se para sempre. Comecei a amar este céu, este mar. Comecei a amar estes homens.
Mas um dia, o mais inesperado, chegarão meus navegantes invisíveis. Levarão minhas âncoras arborescidas nas algas da água profunda,encherão de vento minhas velas fulgurantes...
E será outra vez o infinito sem caminhos, os mares rubros e brancos que se estendem em meio a outros astros eternamente solitários.
Post de hoje trata dos finais de relacionamento. Além do texto, segue a letra, que também trata de separação, da (na minha opinião) melhor música do novo cd da Alanis Morissette. Incrível a capacidade que ela tem de escrever letras assim. Quantos de nós têm a consciência de, ao final, agradecer? Pra quebrar um pouco o clima pessimista, acrescentei um pequeno poema que escrevi ontem. No final da semana volto com outro post e um texto em prosa poética do Neruda que acabei de ler, e só não acrescentei porque o post de hoje já estava pronto. Estou com um problema em fazer upload de fotos, no decorrer da semana tentarei acrescentar algumas pra separar o texto da música e do poema. Uma ótima semana a todos e Carpe Diem!
Pingentes jogados pelo quarto
Muitas vezes sou tomado pelo desejo incontido de encarcerar o sentimento e o comportamento humano em bulas que podem ser confundidas com guias, como se tudo se tornasse fácil assim, remediado por algum manual de conduta barato dum jornal ribeirinho. Como a teimosia vem mais forte que a sensatez, sigo. Conversando ontem com uma amiga sobre relacionamentos que acabam, surgiu a inevitável pergunta: o que deve ficar de cada um deles? A mágoa, o rancor, ou a lembrança dos bons momentos, o agradecimento pelo período de sonho (que todo relacionamento sério tem um, por mais curto que seja). Até pouco tempo atrás eu responderia, sem titubear, que a segunda hipótese era a correta. Deveríamos esquecer todo período conturbado, e levar de cada relacionamento apenas a parte boa, aquela que nos deu vivência e rescaldo aos futuros relacionamentos. A idealização do objeto de adoração, pouco antes da queda do pedestal cotidiano. Não é isso, entretanto.
Vejo cada relacionamento findado como uma série de pingentes jogados pelo quarto de dormir, onde, querendo ou não, temos que retornar a cada noite. Ao final, somos apresentados a centenas deles. Frágeis, de porcelana, impossível pisar sem atingir ao menos um. Eles sempre estiveram lá, mas a presença se delineou com o fim. Cada um carrega um momento específico do relacionamento: o Natal inesquecível a dois, o primeiro beijo, a briga irreconciliável, o dia da separação. Escolhemos quais devemos pegar e quais destruir. Há uma lógica em descartar ou apegar-se a um específico? Evidente que não, muitas vezes tomamos alguns desses pingentes pra carregar meses afora sem saber ao certo o motivo deles estarem conosco. Mas continuam, até serem substituídos por outro que estava mais distante, ou por um terceiro antigo, que trouxe sensações parecidas de relacionamentos distintos. O pingente do coração arrebatado no inicio por vezes dá lugar ao do silêncio injustificado, das palavras não proferidas, da mágoa imperdoável. E formamos nossa experiência, atingida pelo orvalho dos preconceitos que alguns desses pingentes produziram.
O que resta, à hora do sono reparador, não é um coração blindado e cego às pancadas, tampouco um estereotipado com generalizações dessas mesmas pancadas. Sobra a esperança, que – essa sim – nunca nos abandonou. Percebemos que é de esperança o chão que segura nossos pingentes, e então eles já não têm mais tanta importância assim. Sabemos que uma hora a brisa retorna, o coração voltará a bater acelerado na esperança de que - finalmente – a pessoa certa se transfigure, embora não tenhamos a mínima idéia do pacote em que ela virá envolvida. E os antigos pingentes penduram-se ao aparador, lá em cima, esperando o momento certo de despencarem novamente.
Poeminha
Frágil e delicada,
Enfeitaria pra sempre de ti meu cotidiano
Como uma cesta de crisântemos no outono.
E porque cabes inteirinha em meus desejos,
Tomo-te com as mãos em concha perto do coração,
Pra que percebas
A medida correta do medo que carrego.
Madness (Alanis Morissette)
I've been most unwilling
To see this turmoil of mine
The thought of sitting with this
Has me paralyzed
With this prolonged exposure
To near and averted eyes
I think that I've been waiting
Such mileage for empathizing
Now I see the madness in me
Is brought out in the presence of you
Now I know the madness lives on
When you're not in the room
Though I'd love to blame you for all
I'd miss these moments of opportune
You simply brought this madness to light
And I should thank you
Oh, thank you
Much thanks for this bird's eye view
Oh, thank you
For your most generous triggers
It's been all too easy
To cross my arms and roll my eyes
The thought of dropping all arms
Leaves me terrified
And now I see the madness in me
Is brought out in the presence of you
Now I know the madness lives on
When you're not in the room
Though I'd love to blame you for all
I'd miss these moments of opportune
You simply brought this madness to light
And I should thank you
Oh, thank you
Much thanks for this bird's eye view
Oh, thank you
For your most generous triggers
I'd have to give up knowing
And give up being right
You, inadvertent hero
You, angel in disguise
And now I see the madness in me
Is brought out in the presence of you
And now I know the madness lives on
When you're not in the room
And though I'd love to blame you for all
I'd miss these moments of opportune
You simply brought this madness to light
And I should thank you
Oh, thank you
Much thanks for this bird's eye view
Oh, thank you
For your most generous triggers
Loucura
Estive na maior parte negando
Pra enxergar essa minha confusão
A idéia de me sentar com isso
Paralizou-me
Com essa exposição prolongada
De olhos próximos e desviados
Acho que estive esperando
Tamanha milhagem pela empatia
Agora vejo que a loucura em mim
Vem à tona na tua presença
Agora eu sei que a loucura sobrevive
Quando você não está no quarto.
Achei que adoraria te culpar por tudo
Eu sentiria falta desses momentos de conveniência
Você simplesmente trouxe essa loucura à luz
E eu deveria te agradecer.
Oh, obrigado
Muito obrigado por essa vista do olho do pássaro
Oh, obrigado
Pelos teus gatilhos mais generosos
Tem sido tudo muito fácil
Cruzar meus braços e levantar meus olhos
A idéia de soltar meus braços
Me aterroriza
E agora vejo que a loucura em mim
Vem à tona na tua presença
Agora eu sei que a loucura sobrevive
Quando você não está no quarto
Achei que adoraria te culpar por tudo
Eu sentiria falta desses momentos de conveniência
Você simplesmente trouxe essa loucura à luz
E eu deveria te agradecer.
Oh, obrigado
Muito obrigado por essa vista do olho do pássaro
Oh, obrigado
Pelos teus gatilhos mais generosos
Eu teria que desistir de saber
E desistir de estar certo
Você, herói(heroína) inadvertida
Você, anjo disfarçado
E agora vejo que a loucura em mim
Vem à tona na tua presença
Agora eu sei que a loucura sobrevive
Quando você não está no quarto
Achei que adoraria te culpar por tudo
Eu sentiria falta desses momentos de conveniência
Você simplesmente trouxe essa loucura à luz
E eu deveria te agradecer
Mais de um ano sem atualização, a justificativa é única: eu não tinha nada de interessante pra escrever. Só que nesse tempo recebo um recadinho aqui, um e-mail ali, e a coceira volta. O blog, então, dá as caras novamente. Eu gostaria de poder escrever com autoridade que a partir de agora o blog será atualizado ao menos uma vez por semana, mas não tenho esse direito. Na verdade eu não sei. É difícil escrever sobre relacionamentos quando você não se constitui propriamente num exemplo de como mantê-los, sabe? Talvez os textos funcionem mais como exteriorização da aprendizagem de minhas experiências pessoais que, de fato, divagações sobre trechos soltos de filmes e letras de música. O velho espírito mid-30, entretanto, não muda nunca: o otimismo, a vontade de aprender com os erros e o bom-humor. O Carpe Diem não é só a tatuagem, é mote de vida. Daqui a pouco farei uma das coisas que mais gosto: pegar a estrada, sozinho, numa viagem longa. Dessa vez, levando meia dúzia de livros e o note com as idéias jogadas em alguns textos; até sábado organizo ao menos uma pra (re)inaugurar o canto que andava empoeirado. Então, um ótimo fim-de-semana àqueles que ainda lembram do blog, e Carpe Diem!
Primeiro texto do ano, agora com mais tempo livre pra escrever. Quis escrever sobre mudança mas numa perspectiva diferente, a de que às vezes não mudar é mais importante que tentar modificar o panorama ao redor. A letra, da Des'ree, veio porque expressa tudo que tentei escrever no texto. Um feliz 2007 a todos, semana que vem volto com um texto novo. Carpe Diem!
O segredo
Às vezes o segredo não está na mudança, mas na permanência.
Todos os dias somos inundados com a religião da mudança. A pregação está em todo lugar: nos livros de auto-ajuda, nas apresentações em powerpoint que recebemos por e-mail, na propaganda daquele produto na tv, na conversa da vizinha. "Reinvente-se" é a expressão do momento. Somos convidados a reinventar nossos hábitos arraigados, nosso conceito de ética e moral, o modo de encarar o futuro, a maneira como questionamos e avaliamos nossos relacionamentos. Algum aspecto da vida está em desacordo com o planejado? Mude. De perspectiva, de ambiente, de casa, de país. Faça qualquer coisa, contanto que provoque uma mudança. Será que a mudança interior é tão necessária, reconfortante e apaziguadora assim?
Eu tenho muito receio quando vejo pessoas remanejando suas prioridades, mais ainda quando reavaliam seu jeito de ser. Os tempos modernos impuseram uma concepção frágil da dualidade entre o certo e errado, e muitas pessoas acabam por perder a identidade tentando adaptar-se ao padrão social. A linha é muito tênue. Evidente que em muitos aspectos a mudança torna-se inevitável, principalmente aquela causada por fatores externos: o novo emprego, o abandono do antigo amor, a perda de alguém próximo. Não é a essa adaptação que me refiro, porque ela é inevitável. O que preocupa é a outra, aquela vinda das mensagens diretas e subliminares presentes em todo lugar. A novela que nos mostra que a traição tornou-se justificável e lugar-comum nos relacionamentos, os novos modelos estéticos conclamando a busca pela juventude a qualquer preço, o filme promovendo o "carpe diem" em seu sentido mais nefasto: aproveitar o momento de todas as maneiras possíveis, sem atentar às responsabilidades que temos com os outros e com nosso próprio corpo.
Scott Fitzgerald, um dos maiores escritores de todos os tempos, certa vez foi questionado aos 23 anos, numa entrevista logo no início da carreira, sobre qual era sua maior ambição. Sem titubear, respondeu: "escrever o melhor romance de todos os tempos e continuar apaixonado por minha mulher pelo resto da vida." Quantos de nós responderíamos algo assim, principalmente na referência ao amor pra vida toda? Scott não queria a mudança, mas a permanência. Permanecer apaixonado, permanecer fiel, permanecer escrevendo até obter a retribuição esperada. O contraditório surge de que mesmo a permanência requer adaptações constantes, mas a ambição dele consistia em acreditar em seu talento literário e na certeza de que escolhera seu amor derradeiro.
Frustra observar como as pessoas, hoje em dia, desistem muito fácil de suas aspirações. Uma dificuldade em obter emprego leva a uma nova profissão totalmente diversa da anterior, uma pequena rusga no relacionamento leva à separação. Mais fácil arrumar outra pessoa que insistir e lutar por quem está ao lado, é o que mostra a cultura atual das coisas descartáveis. Piora quando os problemas particulares levam à generalização. Os chavões do tipo "todos os homens são iguais", "mulher não gosta de homem bonzinho" ou "nunca devemos nos entregar nas relações" sempre dão as caras nesses momentos, e há quem realmente acredite neles! Resolvem mudar, adquirir hábitos que antes repugnavam, querendo ampliar o leque de relacionamentos possíveis, e então acabam perdendo-se de si mesmas e se vêem, ao final, sozinhas no mundo de faz-de-conta que criaram.
Leo Buscaglia escreveu que "Você deve compreender que se é a melhor ameixa do mundo e a pessoa a quem ama não gosta de ameixas, tem a opção de tornar-se uma banana. Mas deve estar consciente de que se escolher tornar-se uma banana, será uma banana de segunda categoria. Mas pode sempre ser a melhor ameixa." O que eu mais gostaria de perceber, em mais um ano que se inicia, é a capacidade de cada um em confiar na criança interior que sempre estará presente, naquela voz que nos sussurra que, mesmo existindo uma infinidade de seres humanos que não gostam de ameixas, há alguns poucos que as adoram, e é a esses que temos que nos dedicar, ou esperar que apareçam em nosso caminho. Não temos o direito de nos afastarmos daquilo a que fomos predestinados, mesmo que a desesperança embace a perspectiva de felicidade. Sim, o mundo continuará mudando e exigindo que nos adaptemos a ele, mas permanecermos fiéis ao que nos tornamos, àquela pequena caixa que o mundo costuma chamar de personalidade, é o que nos mantém aquecidos quando todo o resto parece ruir.
I ain't movin' Des'ree
Love is my passion
Love is my friend
Love is universal
Love never ends
Then why am I faced with so much anger, so much pain?
Why should I hide? Why should I be ashamed?
Time is much too short to be living somebody elses life
I walk with dignity, I step with pride
'Cos I ain't movin' from my face,
from my race, from my history
I ain't movin' from my love,
my peacefull dove, it means too much to me
Loving self can be so hard
Honesty can be demanding
Learn to love yourself,
it's a great, great feeling
When your down baby, I will set you free
I will be your remedy, I will be your tree
A wise man is clever, seldom ever speaks a word
A foolish man keeps talking, never is he heard
Times much to short to be living somebody elses life
I walk with dignity and I step with pride
Cause I ain't movin from my face
From my race, from my history
I ain't movin from my love,
My peaceful dove means too much to me
Loving self can be so hard,
Honesty can be demanding
Learn to love yourself is a great great feeling
Time's too lonely, too lonely without words
Future voices need to be heard
Eyebrows are always older than the beards
Momma said be brave, you've nothing to fear
Times much to short to be living somebody elses life
I walk with diginity and I step with pride
Cause I aint movin from my face
From my race, from my history
I aint movin from my love
My peaceful dove means too much to me
Lovin self can be so hard
Honesty can be demanding
Learn to love yourself is a great great feeling
(repeat)
I ain't movin', cause I've been here long before
I ain't movin', 'cause I want more
I ain't movin', got my feet on the ground
As far as I'm concerned, love should win the rounds
Eu não vou me mexer
O amor é minha paixão
O amor é meu amigo
O amor é universal
O amor nunca termina
Então porque me deparo com tanta raiva, tanta dor?
Porque deveria esconder? Porque deveria me envergonhar?
O tempo é muito curto pra vivermos a vida de outra pessoa
Eu caminho com dignidade, eu piso com orgulho
Porque não vou me afastar da minha face,
da minha raça,da minha história,
Não vou me afastar do meu amor,
Minha pomba pacífica, significa muito pra mim.
Amar a nós mesmos pode ser tão difícil
A honestidade pode ser exigente,
Aprenda a amar você mesmo(a)
É um grande, grande sentimento.
Quando você estiver pra baixo, baby, eu te libertarei.
Eu serei teu remédio, eu serei tua árvore.
Um homem sábio é esperto, raramente diz uma palavra.
Um tolo continua falando, raramente é ouvido.
O tempo é muito curto pra vivermos a vida de outra pessoa
Eu caminho com dignidade, eu piso com orgulho.
Porque não vou me afastar da minha face,
da minha raça,da minha história,
Não vou me afastar do meu amor,
Minha pomba pacífica, significa muito pra mim.
Amar a nós mesmos pode ser tão difícil
A honestidade pode ser exigente,
Aprenda a amar você mesmo(a)
É um grande, grande sentimento.
A vida é muito solitária, muito solitária sem palavras
Vozes futuras precisam ser escutadas,
Sobrancelhas sempre são mais velhas que as barbas.
Mamãe disse "seja bravo, você não tem nada a temer"
O tempo é muito curto pra vivermos a vida de outra pessoa
Eu caminho com dignidade, eu piso com orgulho.
Porque não vou me afastar da minha face,
da minha raça,da minha história,
Não vou me afastar do meu amor,
Minha pomba pacífica, significa muito pra mim.
Amar a nós mesmos pode ser tão difícil
A honestidade pode ser exigente,
Aprenda a amar você mesmo(a)
É um grande, grande sentimento.
Eu não vou me mexer, porque tenho estado aqui muito antes
Eu não vou me mexer,porque eu quero mais
Eu não vou me mexer,tenho os pés no chão.
Até o ponto que sei, o amor deve vencer as batalhas.
Fiz hoje uma parceria com a rede Adeptus para distribuição dos meus livros. A partir de agora, eles serão vendidos em todas as livrarias Adeptus de Mato Grosso e nos hipermercados Modelo. Em breve eles disponibilizarão a venda para o restante do Brasil através do site. Além disso, a editora KCM também disponibiliza a venda online através do link à direita. O novo site ficará pronto somente no início do ano que vem, enquanto isso as atualizações continuam aqui. Amanhã volto com um texto novo. Carpe Diem!
Segue abaixo um poema, que gosto muito(na verdade, o meu preferido dele) do JG de Araujo Jorge. Achei, acidentalmente, hoje, procurando um outro poema. Gosto desse poema porque ele trata dos mistérios das pessoas que nos cercam. Ele atira a dura realidade que, por mais que pensemos o contrário, nunca realmente conhecemos totalmente a pessoa ao nosso lado. Afinal, quem não carrega um quê de melancolia vida afora? Até sábado atualizo com um texto novo.
Não te gosto em silêncio JG de Araujo Jorge
Não te gosto em silêncio porque te sinto distante.
Entre tua boca e a palavra mora talvez minha angústia
como entre o dia e a noite
vacila a longa dúvida do crepúsculo.
Não te gosto em silêncio, quando há em teus olhos, pousados,
dois estranhos pássaros noturnos,
e teus lábios emudecem como a fonte nos ásperos
e intermináveis invernos.
Não te gosto em silêncio quando te envolves com as coisas
que te cercam, como se fosses uma delas,
quando estás como as águas paradas, cuja beleza
é apenas o reflexo das estrelas.
Por isto te provoco e te atiro perguntas
como pedras quebrando a impassibilidade do lago,
como pancadas no gongo que estremece e vibra
e te traz à tona para mim.
Não te gosto em silêncio, porque parece que atrás de tua voz
ainda se esconde alguém que tu própria não conheces,
alguém embuçado a ameaçar nosso sonho
e que só tuas palavras poderão expulsar.
Não te gosto em silêncio, porque preciso ainda de tua palavra
para te descobrir,
lanterna adiante de meu passo, alvorada desenterrando
na noite emaranhada meu indeciso caminho.
Porque preciso ainda que tua palavra chegue como um vento forte
arrastando nuvens, limpando céus e horizontes,
levando folhas doentes, te descobrindo ao sol...
.
Um dia te gostarei em silêncio. E então me recolherei em teu silêncio,
e procurarei a sombra, como o pássaro na hora da tarde,
e porque o sol estará em nós e nada turvará meu pensamento,
entre tua boca e a palavra haverá apenas o meu beijo.
(ao som de " I'm glad there's you", by Jamie Cullum)
O texto veio em decorrência do post anterior, é a minha visão sobre pessoas substitutas. A música é um clássico do jazz que voltou à tona na voz do Jamie Cullum, um cara que reinventou a maneira de interpretar algumas dessas canções tradicionais. Eu não gostei do resultado de algumas, mas essa é minha preferida. Aproveito pra transcrever mais um trecho de uma das cartas da correspondência entre Zelda e Scott Fitzgerald. Uma ótima semana a todos e carpe diem!
Os substitutos
"Detesto gente que não consegue fazer nada com calma. Quando encontro pessoas que agem como se tudo, qualquer coisa, fosse exatamente do jeito como esperavam e queriam que fosse, me encho de admiração. Elas sempre me fazem sentir que a irresponsável sou eu, e que são elas as que merecem pena. Adoram se imaginar sofrendo, são quase todas hipocondríacas morais e mentais. Se ao menos se dessem conta de que a culpa e a explicação para elas é a necessidade de um elemento perturbador entre os homens, seriam todas mais felizes, e os homens, bem mais infelizes, o que é exatamente do que eles precisam para a melhoria geral das coisas." (Trecho de carta enviada de Zelda para Scott Fitzgerald em abril de 1919, Montgomery,Alabama)
Analisando os relacionamentos ao longo da vida, poucos de nós não encontram um momento onde, mesmo sem saber, tornaram-se substitutos à vida de alguém. Substitutos são aqueles que estão sempre em segundo plano na vida de outras pessoas. Constantemente trocados por outro amor, pelo trabalho, por um hobby qualquer, aceitam a condição de coadjuvantes e formam um atípico clã de relacionamentos mornos. Há vários exemplos ao redor: a amiga que mantém há anos um caso com uma pessoa casada, a vizinha que descarrega na internet a frustração pela desatenção do companheiro, o olhar fatigado daquele parente preso a um relacionamento agonizante porque não consegue vislumbrar alternativas, onde o medo da solidão é maior que a necessidade de mudança. O dilema surge da inevitável pergunta: a aparente falta de pressão compensa a perspectiva de vida das pessoas substitutas?
Os substitutos apóiam-se na teoria das poucas expectativas: desejar menos evita a decepção futura. Afinal, ninguém perde o que nunca teve em mãos. Estóicos, diminuem as expectativas a fim de sofrer menos, restringindo a lista de ambições ao que lhes parece seguro. Acomodam-se num papel coadjuvante em relação às pessoas que lhes cercam e têm, até certo ponto, uma sensação de felicidade que convém. Esquecem que relacionamentos amorosos precisam de testemunhas, não pessoas substitutas, e há um grande abismo entre essas duas definições. As testemunhas acalentam o sentimento de retribuição, a ternura de acompanhar a outra pessoa ao longo do relacionamento, como um confessionário onde ambos depositam suas esperanças, frustrações, vulnerabilidades, a vida em comum. A companhia que revigora e aconselha muitas vezes sem palavras, com gestos anuentes ou a cumplicidade do silêncio. Testemunhas que, em meio à série de problemas que todo relacionamento carrega, mantém intacta a admiração pela pessoa que o outro representa aos olhos dela.
Precisamos ser admirados por algum aspecto de nossa personalidade - mesmo aqueles que consideramos defeituosos -, e aí reside o grande problema das pessoas substitutas. A rua é de mão única. O pouco amor-próprio que carregam dilacera a imagem da alma refletida no espelho da outra pessoa. Enquanto os substitutos admiram, recebem em troca comodismo e apatia, muitas vezes acompanhados de aspectos ainda mais negativos. E pior, sabem que a qualquer momento a ilusão de segurança pode se transfigurar na solidão que tanto evitaram. Tornam-se descartáveis. A armadilha fatal vem na constatação de que, ao substituírem pra outras pessoas suas famílias, amizades ou carências diversas, têm também substituída a própria vida que sonharam como protagonistas, aquela das esperanças sinceras e ingênuas. Que me desculpem aqueles que se sentem seguros nessa condição, mas ninguém nasceu pra ser substituto na vida de outra pessoa. Há tanta diversidade ao redor que assusta a idéia de vivermos atrelados a alguém que não reverbera nossos anseios.
A palavrinha "mudança" adormece nos lábios dos substitutos. Não há varinha mágica que descortine as opções à frente mostrando onde levará cada caminho, é verdade. Sair da condição de substitutos pode levar a lugares perigosos, a abismos colossais ou paisagens magníficas, mas sempre imprevisíveis. Só que os substitutos nem tentam. Eles não apenas deixam de sonhar com novos roteiros; sepultam os próprios caminhos, mantendo os pés na mesma rodovia reta e sem-graça de sempre. Se o segredo da felicidade está mais na convivência que na conquista, fórmula alguma resiste a uma vida substituta. Na busca pelo sorriso interno do coração, os pecados da omissão são os que mais agridem. Falhamos porque perdemos oportunidades, o destino nos rouba outras tantas, mas que os sonhos - ao menos eles -, sobrevivam.
I'm glad there is you
Said i many times, "love is illusion,
a feeling result of confusion
with knowing smile and blasé sigh",
a cynical so and so, am I
I feel so sure, so positive,
so utterly unchangeably certain
though I never was aware of loving you
'til I suddenly realised there was love in you, and oh...
In this world of ordinary people,
extraordinary people,
I'm glad there is you
In this world of overrated pleasures
and underrated treasures,
I'm glad there is you.
I live to love,
I love to live with you beside me
this role, so new
I'll muddle through with you
if you'll guide me through.
In this world where many play at love
and hardly any stay in love,
I'm glad there is you
More than ever, i'm glad there is you
Sou feliz por você existir
Eu disse muitas vezes, "o amor é ilusão,
Um sentimento resultante de confusão
com sorriso conhecido e nostalgia blasé"
Um cínico assim, eu sou.
Me sinto tão certo, tão decidido,
tão absolutamente e imutavelmente certo
Apesar de nunca ter me apercebido de amar você
até que finalmente notei que havia amor em você, e oh...
Nesse mundo de pessoas comuns,
pessoas extraordinárias,
Sou feliz por você existir.
Nesse mundo de prazeres superestimados
e tesouros depreciados,
Sou feliz por você existir.
Eu vivo pra amar,
Eu amo pra viver com você ao meu lado.
Essa função, tão nova,
Eu me ajeitarei com você
Se você me guiar.
Nesse mundo onde tantos brincam no amor
e dificilmente alguém permanece no amor,
Sou feliz por você existir.
Vi, neste final de semana, Elizabethtown. Fazia algum tempo que não assistia uma comédia romântica tão interessante. Abaixo seguem 3´trechos de diálogos entre os protagonistas. Estou escrevendo um texto sobre o assunto comum desses diálogos, o que trata das pessoas substitutas. Até amanhâ ou depois termino e posto aqui.
- Quer ouvir minha teoria?
- Claro.
- Você e eu temos um talento especial, percebi isso logo de cara.
- Me conta.
- Nós somos as pessoas substitutas.
- Os substitutos...
- Fui uma substituta a vida toda. Não sou uma "Ellen",nunca quis ser uma Ellen. Também não sou uma Cindy, embora o Chuck me ame.
- Tenho certeza que sim.
- Gosto de ficar sozinha. Quer dizer, estou com um cara casado com a carreira acadêmica. Raramente o vejo, sou a substituta lá. Gosto disso assim, é muito menos pressão.
- Não estou acostumado a garotas como você.
- É porque sou única.
(diálogo que antecedeu o primeiro beijo entre Claire e Drew, em Elizabethtown)
- Não há nada melhor do que decidir na sua vida que as coisas talvez sejam mesmo aquilo que aparentam, preto no branco. Esse tal de Ben, que claramente não te leva a sério, que se aproveita de você, é mau! E o que estou falando é bom, entende o que quero dizer? Você não devia ser a substituta de ninguém. Esse cara devia estar aqui, agora, fazendo isso. (beija-a)
- Talvez.
- Ele tem sorte de eu não ser a pessoa certa pra você.
- Eu sei porque você não é, mas me diga, pra que eu possa ver pela sua perspectiva.
- Eu sei o que você merece.
- O que eu mereço?
- Você merece um cara que diga (pega o papel com os votos de casamento que está à sua frente e começa a ler o texto): "Não posso imaginar um mundo sem você. Abriremos uma vinícola quando tivermos 70 anos. Faremos snowboard em dezembro e depois levaremos nossos filhos. E sempre teremos os Lexus vermelhos com as placas Chuck e Cindy". (ambos começam a rir antes dele completar, sério novamente). Você merece tudo isso, e mais.
(diálogo entre Claire e Drew, em Elizabethtown)
.
- Diga logo que me ama, e acabe com isso.
- Claire, só vou dizer isso porque você merece. Não é fácil pra mim, mas lá vai. Há 4 dias fiz uma grande companhia de sapatos americana perder 1 bilhão de dólares. E, até amanhã à tarde, todos saberão disso. Alguma reportagem será publicada me apontando como o fracasso mais espetacular na história da minha profissão, que é só o que eu sei fazer. E estou aqui todo esse tempo tentando ser responsável e charmoso, e estar à altura desse sucesso que não existe. Só o que realmente quero é não estar aqui. Me desculpe. Tenho um encontro horrível marcado com o destino. Esse é o meu segredo. É assim que sou.
- Só isso?
- Sim, só isso.
- Sinto muito. Achei que uma pequena parte de você ficaria triste ao me ver partir, mas acho que é tudo por causa do sapato.
- Claro que estou triste por sua causa. Só que isso é um pouco maior que você e eu. A propósito, eu não disse milhão. Eu disse bilhão. Um bilhão de dólares. Isso são muitos milhões.
- E daí? Você fracassou.
- Não, você não entende.
- Tudo bem, você fracassou. Fracassou, fracassou, fracassou. Acha que eu ligo pra isso? Eu compreendo. Você é um artista, cara. Sua função é ultrapassar barreiras, não aceitar a culpa e os aplausos e dizer: "Obrigado, sou um fracassado, agora vou embora". E daí?
- Eu não quero chorar.
- Quer ser mesmo grande? Então tenha a coragem de cair e ficar por perto. Faça-os imaginar porque ainda está sorrindo. Isso é a verdadeira grandeza pra mim. Mas... não preste atenção no que eu digo, sou uma Claire.
- Bem... obrigado, Claire.
- De nada. Agora você pode parar de tentar terminar comigo? Você está sempre tentando terminar comigo e não estamos nem namorando.
- Eu sei. Espere. Não estamos?
- Claro que não. Somos os substitutos, lembra?
(diálogo entre Claire e Drew, em Elizabethtown)
(ao som de " The sweetest decline", live by Beth Orton)
Resolvi mudar o formato do blog. Ando escrevendo bastante, é verdade, mas tenho atualizado pouco o blog porque guardei alguns dos textos pro novo livro. E, como um blog sem atualizações constantes não sobrevive - além de muitos dos meus textos se tornarem repetitivos nas idéias - achei melhor mudar o formato dos posts. Quero postar outros tipos de textos que escrevo, como o que acompanha este post e que foi inspirado na música e letra da Beth Orton, que também segue abaixo. Alguns posts futuros serão mais curtos: talvez apenas um trecho de livro, filme ou qualquer coisa que tenha me chamado a atenção, mas pelo menos o blog não ficará mais que 3 ou 4 dias sem atualização. E, claro, se nada disso der certo, volta tudo ao que era antes.
Pra acompanhar o texto e a música de hoje, coloquei uma das centenas de cartas que compõem o livro que estou lendo agora, "Querido Scott, Querida Zelda". Pra quem gosta do gênero, como eu, o livro é um prato cheio. Ele conta, através das cartas reais e em ordem cronológica, os mais de 20 anos do turbulento relacionamento dos Fitzgerald. Uma ótima semana a todos e Carpe Diem!.
(Carta enviada de Zelda para Scott Fitzgerald em março de 1919, Montgomery,Alabama)
"Meu amor,
Por favor, não fique tão deprimido. Vamos nos casar em breve e então essas noites solitárias estarão terminadas para sempre. Mas até lá, estou amando, amando cada minúsculo minuto de dia e de cada noite. Talvez você não entenda isso, mas às vezes, quando sinto mais falta de você, é mais difícil escrever - e você sempre sabe quando eu me esforço - só uma dor tremenda, e eu não consigo contar. Se estivéssemos juntos, você sentiria como é grande - você é tão doce quando está melancólico. Adoro sua ternura triste quando eu o machuco. Esse é um dos motivos pelos quais nunca me arrependi de nossas brigas, e elas incomodam tanto. Aquelas rusginhas tão, tão adoráveis, quando eu sempre tento ao máximo fazer você me beijar e esquecer.
Scott, não há nada neste mundo todo que eu não queira a não ser você, e seu precioso amor. As coisas materiais não são nada. Eu apenas odiaria viver uma existência sórdida, incolor, porque muito depressa você passaria a me amar menos e menos, e eu faria qualquer coisa - qualquer coisa - para manter o seu coração. Não quero viver, quero primeiro amar e eventualmente viver. Porque não consegue sentir que eu o estou esperando, que irei ter com você, meu amado, quando estiver pronto? Nunca, jamais pense nas coisas que não pode me dar. Você me confiou o mais querido dos corações, e isso é um bocado mais do que qualquer outra pessoa em todo este mundo jamais fez.
Como é que pode pensar deliberadamente numa vida sem mim? Se por acaso você morresse, ah, meu querido, meu querido Scott, seria como ficar cega. Eu sei que também morreria, não teria o menor propósito viver. Eu seria só um enfeite, bonitinho. Você não acha que fui feita para você? Sinto como se você tivesse me mandado fazer - e eu tivesse sido entregue - para ser usada. Quero que você me use, como um berloque na corrente do relógio ou um ramalhete na lapela, para o mundo. E então, quando estivermos a sós, quero ajudar, saber que você não consegue fazer nada sem mim. Eu amo você.
Zelda"
A suave recusa
Suas mãos espalmadas revelavam agora detalhes que sempre passaram anônimos, incólumes à corrosão da alma vinda com a poluição das grandes cidades, que uns costumam chamar de solidão. As unhas não mais acumulavam poeira, os dedos entrelaçavam-se às lembranças; a epiderme tocava, fundo, a reflexão de duas horas atrás. Todas as deduções convergiam àquele frágil momento de libertação, onde a urgência dilacerava os tímpanos, pedindo uma atitude diferente.
Fitou o reflexo esguio de sua silhueta no grande espelho da sala, buscando a cumplicidade da própria aprovação. - Não há nada pior que um inverno sem umidade, pensou, enquanto molhava os lábios ressecados na água espirrada no mármore que escorria pela torneira semi-aberta. Num sorriso, aquiesceu a voluptuosidade do corpo que resistia ao tempo. Conservava o pouco peso da adolescência, as mesmas olheiras fundas, as saboneteiras afilando o busto, os cabelos desalinhadamente cacheados indo até o antebraço.
Havia dado o passo maior. A doce recusa com que se livrara daquele amor soava definitiva, finalmente. Sem os impropérios das discussões de antes, sem objetos voando pela sala, sem as lágrimas terminando encadeadas num arrependimento confessional. A redenção vinha suave, nos detalhes. Cecília não era, definitivamente, uma mulher de mesquinharias.
Pos-se a girar o caleidoscópio das reminiscências, e as figuras que se formavam tinham um quê de uniformidade, encanto, uma beleza silenciosa tranqüilizadora. Esvaecia a mulher indecisa, submissa à própria incerteza, ao não-saber do que se avizinharia caso a coragem tivesse dado as caras quando o amor-próprio começou a fugir. Dessa vez sabia que não haveriam escorregadelas, recaídas ou rompantes irascíveis.
A certeza da vitória não veio da recusa em voltar, traída pela carência em todas as vezes anteriores. Dessa vez sua recusa fora diferente: doce, suave, terna e ao mesmo tempo diabólica, balbuciada no sorriso imperceptível de canto de boca. Ele percebeu e ela sabia, não haveria retorno.
A nova Cecília tomou o terceiro banho do dia, abriu a janela do quarto para ouvir a chuva morna que começava a cair, arrumou um dos quatro travesseiros sobre o ventre, e deitou-se. Pensou ainda em descer e misturar-se à multidão que, certamente, passeava anônima naquela madrugada de sábado, desistindo em seguida. Não se sentia invencível tampouco aliviada, mas sabia que o sono viria redentor. E, enquanto cerrava as pálpebras ignorando o telefone tocando, desapareceu no infinito que se formou no lugar do vazio das noites passadas.
The sweetest decline (Beth Orton)
She weaves secrets in her hair
The whispers are not hers to share
She's deep as a well
She's deep as a well
Another day wastes away
And my heart sinks with the sun
A new day's dawning
And a new day has not yet begun
So, anyway
There I was
Just sitting on your porch
Drinking in your sweetest decline
Your sweetest decline
So all by my heart...
What's the use in regrets?
They're just things we haven't done yet
What are regrets?
They're just lessons we haven't learned yet
Another day draws away
And my heart sinks with the sun
It's like catching snow on my tongue
It's like catching snow on my tongue
So, anyway
There I was
Just sitting on your porch
Drinking in your sweetest decline
The sweetest decline
So all by my heart...
What are regrets?
What are regrets?
They're just lessons we haven't learned yet
It's like catching snow on your tongue
You can't pin this butterfly down
Can't pin this butterfly down
A mais doce recusa
Ela acena segredos em seu cabelo
Os sussurros não são dela, pra que compartilhe
Ela é profunda como um poço
Ela é profunda como um poço
Mais um dia é desperdiçado
E meu coração afunda com o sol
Um novo dia está raiando
E um novo dia ainda não começou
Então, de qualquer forma,
Lá estava eu,
Apenas sentado em tua varanda
Bebendo em tua doce recusa
Tua doce recusa
Pra que servem os arrependimentos?
Eles são apenas coisas que nós ainda não fizemos.
O que são arrependimentos?
Eles são apenas lições que nós ainda não aprendemos.
Um novo dia se desenha distante
E meu coração afunda com o sol
É como pegar a neve na minha língua
É como pegar a neve na minha língua
O que são arrependimentos?
O que são arrependimentos?
Eles são apenas lições que nós ainda não aprendemos
É como pegar a neve na sua língua
Você não pode prender essa borboleta embaixo
Não pode prender essa borboleta embaixo.
- O amor é tão forte quanto a morte. Pra que ser capaz de sentimentos que não podemos ter? Pra que ansiar pelas coisas se elas não podem ser nossas?
- Há outras coisas pelas quais viver: dever, honra.
- Elas não são vida, Tristão. Elas são invólucros da vida. O amor é feito por Deus. Ignore isso e não imagina o quanto sofrerá.
- Então eu não viverei mais sem isso.(diálogo entre Isolda e Tristão em "Tristão e Isolda" )
- Você estava certa. Eu não sei se a vida é maior que a morte, mas o amor foi maior que ambas. (Tristão a Isolda, no final do mesmo filme)
"A paixão é uma droga que não me convém. É só fazer as contas de quantas vezes eu me apaixonei, e em quantas me dei mal. Em todas" (Ana Paula Arósio, em entrevista à Folha de São Paulo, 15 de julho de 2006)
Quanto mais envelhecemos, mais o conceito da morte cerceia o cotidiano. Durante a infância e adolescência grande parte de nós pouco convive com a sensação de perda de pessoas próximas, mas ela se torna inexorável com o tempo. Sempre encarei a morte como aquela prima distante que todos sabemos da existência mas não mantemos contato; ligamos uma vez ao ano para cumprimentar pelo aniversário, mas nunca pensamos(nem pretendemos) conhecer. À medida que, como dominó, perdemos pessoas que partilhavam de nossa rotina - não somente conhecidos, mas figuras públicas também - a impressão de que a visita será inevitável aumenta, e uma nuvem de conjeturas toma conta da paisagem das certezas que tínhamos até aquele instante.
Muitas coisas se modificam. As prioridades, por exemplo. Assistir àquele jogo do time preferido passa a não ter tanta importância frente a uma caminhada de fim de tarde com alguém especial. As madrugadas insones por causa do trabalho ficam sem sentido quando comparadas a uma noite bem dormida ao lado da pessoa amada. Toda fúria e destempero que situações cotidianas nos despertavam em outras épocas parecem depois tão banais que dificilmente nos reconhecemos como aquelas pessoas de outrora.
Acredito que enquanto os anos refletem seu poder em nosso semblante, nossos valores nos conduzem às necessidades que tínhamos ao nascer: o contato com as pessoas. Agora não mais pela necessidade física de sobrevivência da época da infância, mas de encontro a outra necessidade primordial: dar um sentido a tudo. Responder ao mais importante "por que". O bom da morte (por mais mórbida que soe a assertiva) é justamente isso: a lembrança do tempo, o pássaro assobiando aos nossos ouvidos que também estaremos lá um dia, que o que quer que pretendamos realizar nessa vida, temos que nos apressar em conseguir.
Em seu mais recente livro, "Por que Amamos", Helen Fisher explicita que há pessoas que somente encontram a paz e redenção interior através dum relacionamento amoroso duradouro, outras simplesmente (por uma série de questões genéticas,segundo ela) não nasceram pra terem relacionamentos duradouros, e cada uma encontra, à sua peculiar maneira, a própria felicidade. O Dalai Lama, no início do ano, quando questionado sobre qual era a melhor das religiões, respondeu que nenhuma, que elas eram como remédios onde cada pessoa tomava aquele que mais se adequasse ao que queria.
Eu não sei qual a sua receita de felicidade, mas a minha passa por alguém pra compartilhar a existência, alguém como testemunha, alguém por quem possamos dizer com orgulho: "Eu vivo pra fazê-la feliz". O paliativo para os momentos de tristeza, como a morte de pessoas que admirávamos, está pronto. O susto que carrega a reflexão interior logo cede ao suspiro aliviado do dever cumprido. Os donos do mundo nunca foram os grandes conglomerados comerciais, as nações mais ricas ou os milionários com suas fortunas incalculáveis. O poder real cabe àqueles que amam. Acabei de entrar nessa seleta confraria, e querem saber? Religião alguma me traria conforto maior. O mundo também nos pertence pela eternidade da nossa existência, e não quero - nem preciso - saber o que virá depois. Me basta a certeza de ter feito uma escolha correta, da companhia ao lado que estende a mão, quase tocando Deus. Que recolhe o braço no último instante, como que dizendo: "Espera, há muito mais por vir" . E sorri, faceiro, fazendo cócegas em minha alma.
Happy (Michel Legrand / William Smokey Robinson)
Sadness had been close as my next of kin
Then happy came one day, chased my blues away
My life began when happy smiled
Sweet, like candy to a child
Stay here and love me just a while
Let sadness see what happy does
Let happy be where sadness was
Happy, that's you
You made my life brand new
Lost as a little lamb was I till you came in
My life began when happy smiled
Sweet, like candy to a child
Stay here and love me just a while
Let sadness see what happy does
Let happy be where sadness was
(Till now)
Where have I been?
What lifetime was I in?
Suspended between time and space
Lonely until happy came smiling up at me
Sadness had no choice but to flee
I said a prayer so silently
Let sadness see what happy does
Let happy be where sadness was till now
Feliz
A tristeza esteve perto, como meu parente,
Então a felicidade um dia veio, mandou minha tristeza pra longe.
Minha vida começou quando a felicidade sorriu
Carinhosa, como doce a uma criança
Fique aqui e me ame por um tempo
Deixe a tristeza ver o que a felicidade faz
Deixe a felicidade estar onde a tristeza estava
Felicidade, é você
Você fez minha vida novinha em folha
Eu estava perdido como uma pequena ovelha até que você apareceu
Minha vida começou quando a felicidade sorriu
Carinhosa, como doce a uma criança
Fique aqui e me ame por um tempo
Deixe a tristeza ver o que a felicidade faz
Deixe a felicidade estar onde a tristeza estava
até agora
Por onde andei?
Em que era eu estava?
Suspenso entre o tempo e o espaço
Sozinho até que a felicidade veio rindo em minha direção.
A tristeza não teve escolha a não ser fugir.
Fiz uma prece em silêncio,
Deixe a tristeza ver o que a felicidade faz,
Deixe a felicidade estar onde a tristeza estava
até agora.